Europa

“Vamos vencer e voltarei ao trabalho que amo”: o depoimento do técnico que deixou o Sheriff Tiraspol para defender a Ucrânia na guerra

Yuriy Vernydub, o técnico que venceu o Real Madrid no Santiago Bernabéu, foi eliminado da Liga Europa na última quinta-feira e imediatamente voltou à Ucrânia para se alistar ao Exército

Ele mesmo admite. Quando o Sheriff Tiraspol venceu o Real Madrid no Santiago Bernabéu pela fase de grupos da Champions League, no final de novembro, o técnico do clube moldavo, Yuriy Vernydub, não poderia imaginar que entraria em março servindo o Exército da Ucrânia na resistência à invasão da Rússia.

Natural do norte da Ucrânia, Vernydub foi eliminado pelo Braga nos pênaltis na primeira fase do mata-mata da Liga Europa na última quinta-feira, retornou à Transnítria, território autônomo de maioria étnica russa na fronteira com a Ucrânia, por meio da Romênia, entrou em seu país no sábado e foi se alistar.

LEIA MAIS: Técnico da façanha do Sheriff na Champions, Yuriy Vernydub se junta ao exército na Ucrânia

Diz que está a 120 kms das principais batalhas de uma guerra que entrou em sua segunda semana. Não pode revelar qual seu papel no Exército, mas diz que sabe usar armas e está pronto para fazê-lo quando for necessário. Quer a paz, acredita em diálogo, mas acha que ela só virá quando a Ucrânia vencer.

E ele quer que isso aconteça o mais rápido possível porque ele não vê a hora de voltar a fazer o que mais ama: trabalhar no futebol. Confira a tradução de um depoimento que ele deu para a BBC. O link do original pode ser acessado aqui.

Meu filho me ligou às 4h30 e me disse que os russos haviam nos atacado. Eu sabia, naquele momento, que eu retornaria à Ucrânia para lutar.

Voamos de volta para casa e aterrissamos em Iasi, Romênia. Depois, peguei um ônibus para Tiraspol, na Transnístria, com o resto do time na noite de sexta-feira e saí para a Ucrânia na manhã de sábado. Eu me alistei no domingo. Foram 11 horas de Tiraspol até minha casa na Ucrânia, viajando por Odessa, depois por Kirovgrad, Kryvyy RIh e depois Zaporoje, mas não posso dizer que foi difícil.

Eu não quero mentir para vocês. Enquanto voltava para casa, eu vi muitos homens fortes deixando o país. Eu ficaria feliz se eles voltassem. Eu entendo que eles foram embora com suas famílias para Moldávia, Romênia, etc, etc. Muitos homens da nossa região foram embora… homens de Kharkov, Zaporoje, Lugansk, Donetsk. Eu entendi naquele momento que não poderia fazer a mesma coisa. Disse a mim mesmo que, assim que chegasse em casa, eu iria me alistar.

As pessoas próximas de mim tentaram me impedir. Minha esposa, meus filhos, meus netos. Eu me mantive firme e agradeci minha esposa por me apoiar. Ela conhece o meu caráter. Se eu tomo uma decisão, eu não mudo.

Poderíamos ter ido à Moldávia, e essa opção ainda está aberta para meus filhos, para as esposas deles, para meus netos. Mas eu e minha esposa – nós ficaremos, com certeza.

Neste momento, acho que não estou muito longe do conflito. As principais batalhas estão acontecendo provavelmente a 120kms de onde estamos. Mas eu tomei minha decisão, então tudo está ok. Não estou com medo.

Eu estive no Exército quando era jovem – era obrigatório fazê-lo por dois anos. Mas foi em uma unidade para atletas. Por dois meses, aprendemos a teoria e depois aprendemos como usar uma arma. Mas foi há tanto tempo. Não posso dizer que tenho dificuldades para usar armas de fogo. Eu sei como usá-las.

A unidade em torno de mim é doida De um jeito bom, claro. É muito legal que eu faça parte de um time como esse. Há personalidades diferentes aqui. Mas eles estão unidos, são amigáveis e muito motivados. Tudo é compartilhado entre nós. Por esse ponto de vista, tudo está bem. Também foi legal que muitos quiseram tirar foto comigo.

Eu encontrei um sobrinho aqui, mas, no geral, eu não sei quem está aqui e quem não está. Meu irmão tem mais de 60 anos. Meu filho mais jovem não pode lutar por causa da sua saúde. Meu filho mais velho não está aqui porque insisti que ele ficasse em casa – ele tem dois filhos pequenos. Se precisarem dele, ele com certeza virá. Não tenho dúvida.

Não tenho permissão para revelar qual é meu papel no Exército. Agora estamos sendo orientados. Estamos prontos para ir para onde eles mandam a qualquer momento. Eu ainda não usei minha arma, mas estou pronto, sempre. A qualquer momento.

Eu não consigo entender Putin e o seu círculo. E eu não consigo entender os russos que não estão contra ele. Eu entendo que muitos dos cidadãos russos não percebem o que está acontecendo. Na Rússia, as coisas são exibidas de uma maneira muito diferente do que elas são. Eles dizem que estão nos libertando. Mas do quê? Eles disseram que somos fascistas, nazistas… Eu nem consigo encontrar palavras para descrever o que eles estão fazendo. Eles estão atacando casas de civis, mas dizem que atingem apenas infraestrutura militar. Estão mentindo.

Eu não tenho dúvida que a Ucrânia vencerá esta guerra. Eu não consigo pensar em mais nada. Tenho certeza disso. Eu vi essa tragédia nos unir como nação.

Eu tenho total respeito pelo (presidente ucraniano) Volodymyr Zelenskyi. Não importa o que digam sobre ele. Eu votei nele. As pessoas o estavam chamando de palhaço, mas ele mostrou que é um líder de verdade.

Ele é honesto. Ele comete erros também, mas é normal qualquer um cometer erros. Eu consigo imaginar quão difícil deve ser liderar um país. Não tenho dúvidas de que ele é um bom homem. Temos um presidente que agirá da maneira correta. Acredito nele.

Eu acho que haverá paz apenas quando vencermos. Eu não acho que seja possível cumprir as demandas da Rússia. Não vamos recuar. Há necessidade de diálogo, mas não satisfaremos os ultimatos deles. Vemos negociações acontecendo e espero que eles tenham cérebro suficiente para parar esta guerra. Acima de tudo, espero que mulheres e crianças não morram mais. Isso é a coisa mais importante.

Quero agradecer o restante da Europa pelo seu apoio. Muitas crianças e mulheres fugiram para outros países. Agradeço esses países por isso. Agradeço todos pelo apoio. Sei que eles estão tendo uma escolha difícil também. Acho que estão percebendo que, neste momento, a Ucrânia é o escudo de todo o continente.

Ainda penso sobre futebol o tempo todo. Futebol é minha vida. Comecei a jogar quando era criança. Eu era um jogador profissional, depois virei treinador. Tenho certeza que continuarei sendo treinador e conquistarei títulos.

Quando vencemos o Real Madrid, eu não conseguia imaginar que isso aconteceria. Eu comecei a ter dúvidas no começo de fevereiro. Foi quando as notícias sobre o assunto se intensificaram. Em 14 de fevereiro, comecei a ficar preocupado. Os jogadores não paravam de me perguntar por que eu estava tão triste o tempo todo. Alguma coisa aconteceu comigo? Eu dizia que nada estava errado, mas em breve estará. Eles diziam que não, mas eu sentia algo.

Alguns dos rapazes do Sheriff me ligaram e eu recebi mensagens de voz. Eles perguntaram sobre minha família, sobre meus filhos. Em 1º de março, o Sheriff jogou pela liga nacional contra um rival e venceu. Gostei disso. Alguns treinadores me enviaram palavras de encorajamento também.

Pensar sobre futebol me motiva. Futebol é minha vida. Espero que esta guerra não dure muito tempo. Vamos vencer e eu voltarei ao trabalho que amo.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo