Uma nova era?

Salvo uma enorme surpresa, parece que estamos próximos do fim da dominação ininterrupta dos alvirrubros na Grécia. Apesar da vitória sobre o Panathinaikos, seus inimigos eternos, neste final de semana, pelo placar mínimo, o Olympiacos tem poucas chances de renovar o título da Super League, que tem dominado de forma avassaladora nos últimos anos.
O campeonato grego, nestes últimos anos, tem se notabilizado por ser o campeonato em que o número de candidatos ao título até varia em seu início, mas o desfecho é sempre o mesmo. Todos sabem que quem fica com a taça no final do ano é o time vermelho de Pireu. Foi assim em doze dos últimos treze campeonatos (desde 1996/7), com a exceção de 2004/5, quando o Panathinaikos venceu o título. Nas últimas cinco temporadas, quem levou a taça foi o time dirigido com mãos de ferro pelo milionário Sokratis Kokkalis. Este ano, porém, não parece que terá um final feliz para os Thrylos. Faltando três rodadas para o fim do campeonato, o Olympiacos tem quatro pontos de desvantagem para o Panathinaikos -e está um ponto à frente do PAOK, o terceiro. Não que os seus confrontos sejam muito mais difíceis do que os de seus adversários, mas esperar por dois tropeços do PAO, apesar de não ser impossível, é bem improvável, ainda mais se considerar que os verdes pegam dois adversários que não almejam mais nada no campeonato (Atromitos e Iraklis, já praticamente sem risco de rebaixamento e sem chances de classificação para o Playoff final).
O Olympiacos começou as últimas temporadas olhando para a Champions League, tamanha a tranquilidade com que tem vencido a Super League. Neste ano não foi diferente. O discurso era o de ter o maior sucesso possível na competição continental. Tanto assim que os alvirrubros apostaram num nome pouco comum para a temporada. O georgeano Temuri Ketsbaia, depois de eliminar os alvirrubros e fazer ótima campanha na Champions com o modesto Anorthosis Famangusta do Chipre, era a esperança para levar os gregos a alçarem vôos mais altos na competição europeia. Depois, com Zico, a prioridade parecia seguir a mesma. Mas pouca coisa deu certo para o Thrylos nesta temporada.
O que deu errado? Pode se dizer que a falta de planejamento é um dos fatores. Afinal, a demissão de dois técnicos -Temuri Ketsbaia e Zico- em uma temporada denota que alguma coisa não deu certo em Pireu. Ketsbaia saiu ainda na pré-temporada, depois de alguns resultados decepcionantes. E Zico, apesar de ter cumprido uma parte do esperado, classificando os alvirrubros para a fase de mata-mata da Champions League, não vinha bem no campeonato nacional. Quando saiu tinha sete pontos de desvantagem para o Panathinaikos e, pelo que se diz na imprensa grega, o ambiente intra-vestiários não era dos mais saudáveis. Só que planejamento não parece ser um termo que faça muito sucesso na direção do Olympiacos. Tanto que, nos últimos dez anos, os Thrylos tiveram apenas um técnico que ficou mais de uma temporada no comando técnico do time -Takis Lemonis, que, nas duas últimas passagens pelo comando técnico do time, sobreviveu mais de 12 meses seguidos no cargo. No total, são 18 técnicos em 10 anos, sem que haja uma sequencia de trabalho no comando técnico do time. Trocando em miúdos, podemos dizer que o cargo de técnico do Olympiacos é uma verdadeira cadeira elétrica.
Isso não é um fator positivo, ou que tenha feito o time ser campeão em qualquer ocasião -ao contrário do que imaginam os diretores alvirrubros. Pelo contrário. Pode-se dizer que os Thrylos foram campeões apesar da falta de planejamento. Muito em função da falta de investimentos dos seus adversários, que ou vivam as agruras da falta de um mecenas, como o AEK e o PAOK, ou da incompetência e do medo de investir, como o Panathinaikos.
A questão é que nesta temporada o lado verde de Atenas resolveu investir mais. Pela mudança na distribuição societária da equipe, mudou-se também a forma com que o futebol é visto pela direção do Panathinaikos. Assim, com mais dinheiro, o PAO pôde investir e trouxe nomes que, se não eram jogadores em alta na Europa ocidental, pelo menos para a Super League grega eram muito bons. É o caso de algumas das estrelas contratadas pelos Trifilis, como o atacante Dibril Cissé e o volante Gilberto Silva nos últimos anos, por exemplo.
Este talvez não seja o time dos sonhos para os torcedores do PAO, nem seja capaz de brigar por títulos continentais e relembrar o histórico time vice-campeão da Copa dos Campeões de 1971, dirigido por Ferenc Puskas. Mas pode ser suficiente para fazer frente ao trator alvirrubro que tem dominado sistematicamente a península helênica nos últimos treze anos. Para os Thrylos, talvez seja hora de repensar o modelo de gestão do clube, sob o risco de ser ultrapassado pelos seus maiores rivais. Algo que, para um clube que começou o ano pensando em expansão continental mantendo a dominação local, pode ser ainda mais doloroso. O fato é que, depois de tantos anos tendo o mesmo desfecho previsível, parece que finalmente os torcedores gregos poderão ver outro time sendo campeão.
Super League nos momentos decisivos
Confrontos dos postulantes ao título, faltando três rodadas para o fim (dias 28/03, 11/04 e 18/04):
Panathinaikos (1º colocado, 61 pontos) – Atromitos (7º, F), Iraklis (9º, C) e PAS Gianinna (14º, F)
Olympiacos (2º, 57 pts) – Skoda Xanthi (14º, C), Panthrakikos (16º e rebaixado, F) e Aris (5º, C)
PAOK (3º, 56 pts) – Larisa (10º, F), Kavala (6º, C) e Ergotelis (11º, C)
Lembrando que o campeão ganha a vaga na fase de grupos para a Champions League e os times que ficarem entre 2º e 5º lugares disputarão um quadrangular final. Esta fase vale a vaga na fase final de classificação da Champions para o campeão do Playoff e duas vagas nas fases classificatórias da Liga Europa para o 2º e 3º lugares. O AEK já não tem chances de título, mas já está classificado para este quadrangular.
No rebaixamento, seis times brigam para não acompanhar o Panthrakikos, com ridículos 12 pontos, na Beta Ethiniki na próxima temporada. Ainda há duas vagas em aberto. São eles: Skoda Xanthi e PAS Gianinna (empatados em 14º com 28 pontos), Asteras Tripolis (13º, 30 pontos), Levadiakos (12º, 30 pontos), Ergotelis (11º, 30 pontos) e o Larisa (10º, 31 pontos).
O primeiro critério de desempate é o confronto direto, mas Xanthi e Gianinna empataram os dois confrontos, então estão empatados na classificação. No caso de Asteras, Levadiakos e Ergotelis, o Ergotelis leva vantagem no confronto direto entre todos os times. Caso seja necessário, será disputada uma partida de desempate para definir o resultado final.
Marfin Laiki League também
Na liga cipriota, grupos definidos, vamos para os Playoffs. Lembrando que o sistema do campeonato cipriota é heterodoxo, tendo uma fase de classificação que serve para definir os grupos e os dois primeiros rebaixados -Nea Salamis de Famangusta (com 14 pontos, ficou em penúltimo) e o APEP da capital Limassol ficou com a lanterna, com 10 pontos em 26 partidas. Depois, os clubes são separados em três grupos de quatro times, onde formarão três quadrangulares em que brigarão pelo título e por uma vaga numa competição europeia, para evitar a última vaga na Beta Ethiniki ou simplesmente para fazer o tempo passar.
A primeira fase terminou com o Omonia, da capital Nicosia (com 62 pontos), na liderança, seguido de Anorthosis Famangusta (58), Apollon Limassol (57) e APOEL, da capital (55). Estes quatro times brigam pelo título e por vagas na: 2ª fase classificatória da Champions League (para o campeão), 2ª fase classificatória da Liga Europa (p/o vice) e 1ª fase classificatória (p/o 3º colocado). Lembrando que os times carregam as campanhas para a fase final.
Na briga para evitar o rebaixamento, temos o novato Ermis Aradippou, de Achna, com 29 pontos, Doxa Katokopia, de Nicosia, empatado com o AEP de Paphos, com 26 e o Aris Limassol, com 20. O Plauoff cipriota começa neste final de semana.
Hiddink e as expectativas para a próxima fase da seleção turca
Na seleção turca temos fumaça branca. De forma até surpreendente, o holandês Guus Hiddink foi escolhido para dirigir a seleção turca até a Euro 2012, que terá organização dividida entre Polônia e Ucrânia. A escolha de Hiddink rompe uma tradição de dezessete anos apenas contratando treinadores locais para o comando da Milli Takim -o último nome estrangeiro foi o do alemão Sepp Piontek, que dirigiu os turcos no ciclo da Copa de 1994 (entre 1990 a 1993).
Depois do segundo fracasso consecutivo na briga por uma vaga entre as 32 seleções que disputam a Copa do Mundo, a escolha de um treinador estrangeiro virou um consenso. A TFF -federação turca- não mediria esforços para trazer um nome respeitável, já que tem uma situação financeira bem razoável. E nomes que tiveram sucesso no comando de seleções nos últimos anos, como Luis Felipe Scolari, por exemplo, foram sondados para o cargo. Acabou contratado o que tem mais destaque. Hiddink levou a Holanda para as semifinais de 1998, a Coreia do Sul para a semi de 2002 e fez com que a Austrália chegasse às oitavas em 2006, desclassificada pela campeã Itália num jogo difícil. Na última eliminatória para a Copa, não conseguiu classificar a Rússia para a Copa da África do Sul, mas teve ótima campanha na Euro 2008, quando fez com que o time de Arshavin e Pavlyuchenko chegasse às semifinais da competição.
Hiddink chega à Turquia com a missão de elevar o status da seleção turca. A ideia é classificar sem sobressaltos para a competição europeia e fazer bom papel na Euro. O grupo é bem acessível. Apesar de ter um gigante -Alemanha- em seu Grupo A e de apenas o primeiro colocado ter classificação assegurada, o nível das outras seleções é menor -o Grupo A tem Áustria e Bélgica, que estão em em fase técnica pior do que os turcos, e Cazaquistão e Arzebaijão, que, teoricamente, não assustariam. E sem contar que, devido à grande colônia turca em território alemão, certamente a torcida da Milli Takim fará barulho mesmo jogando em campo adversário, reduzindo o fator campo para a Nationalelf. Pode ser uma fase eliminatória em que os turcos podem surpreender -desta vez positivamente. Depois, dentro da competição, o retrospecto recente dos turcos mostram que eles sabem se virar muito bem. As semifinais na Copa de 2002 e na Euro de 2008 mostram que, dentro das fase finais das competições, os turcos sabem como enfrentar uma competição de alto nível. O problema tem sido se classificar. E isso, neste grupo de fase eliminatória, tendo um técnico experiente e um grupo de jogadores qualificado, parece bem plausível.
Agradecimento
Com esta coluna, encerro a minha participação na Trivela depois de três anos e meio de colaboração. Agradeço a oportunidade -inesperada- que me foi dada por Caio Maia e Ubiratan Leal. Também agradeço o carinho e a paciência do editor, Leonardo Bertozzi. E fica, também, um agradecimento especial a todos os leitores, que, nestes últimos três anos e muitos meses, me deram a honra de ter meus textos lidos -e repercutidos- aqui. A gente se vê por aí.



