EuropaLiga das Nações

Um resumão sobre o que rolou nas quatro divisões desta primeira edição da Liga das Nações

A Liga das Nações é uma ideia que veio para ficar. O regulamento da competição pode ser um bocado intrincado, especialmente por se cruzar com o sistema de classificação da Eurocopa. Ainda assim, ofereceu um punhado de jogos de bom nível nas últimas datas internacionais. As principais seleções europeias possuíam um motivo claro para se esfolar em campo – algumas delas aguardando um título de valor, a ser disputado no ‘Final Four’. Já os times médios e pequenos se encontravam com adversários do mesmo patamar, também com o objetivo de ascensão que não se vê nos amistosos. Além disso, com o fato de que os campeões de chave poderão disputar a repescagem à Euro 2020, surgiu uma chance inimaginável a diversos países.

Abaixo, fazemos um breve resumo do que foi esta fase de classificação da Liga das Nações. Um comentário geral sobre cada uma das quatro divisões, além de seleções que se destacaram ou decepcionaram. Vale lembrar que apenas a primeira divisão terá uma fase final para decidir a taça do torneio, a ser realizada em junho de 2019, em Portugal. A próxima edição completa da Liga das Nações, já absorvendo os acessos e descensos desta temporada, acontecerá no segundo semestre de 2020.

Além disso, a Liga das Nações determinou os potes para o sorteio das eliminatórias da Euro 2020, que se iniciarão em 2019. Os dois primeiros colocados de cada uma das 10 chaves do qualificatório avançarão à fase principal da Eurocopa. Já a repescagem da Euro absorverá a própria tabela da Liga das Nações. As quatro vagas restantes serão oferecidas a cada uma das quatro divisões. Os quatro líderes de grupos de uma mesma divisão terão direito a se enfrentar, em semifinais e final, onde o campeão do mini-torneio também se assegurará na Euro. Até a Liga D terá um representante na Eurocopa, desta forma. Caso os líderes de grupos já tiverem se garantido via eliminatórias, o segundo colocado poderá entrar no mini-torneio, e assim por diante.

Primeira divisão (Liga A)

Disputarão a fase final: Holanda, Portugal, Suíça, Inglaterra
Rebaixados: Alemanha, Polônia, Islândia, Croácia

Maiores expectativas, maiores cobranças. A primeira divisão da Liga das Nações apresentou um futebol de alto nível, principalmente a seleções que buscam se reafirmar no cenário continental e desejam um título expressivo. Os primeiros duelos do torneio demoraram um pouco a engrenar, mas logo produziram resultados históricos e partidas emocionantes, com um empenho até os minutos finais que nada lembrava amistosos ordinários. Assim, exceção feita a Portugal, todos os outros classificados dependeram de seus épicos para se confirmar no ‘Final Four’. Apresentam um nível técnico convincente, sobretudo a Suíça, rompendo os estereótipos com um ataque insaciável. E, tirando os atuais campeões da Eurocopa, que serão anfitriões na reta final, a Liga das Nações poderá se tornar a taça mais expressiva em décadas aos outros três postulantes. Significa um bocado, dentro do contexto.

No mais, há outras oito seleções eliminadas se lamentando. Mesmo entre aquelas que não foram rebaixadas, o desempenho ficou aquém. A Bélgica tratou a virada sofrida diante a Suíça como desastre por desperdiçar mais uma chance de ouro com sua badalada geração, enquanto a França tinha certa cobrança por ser a atual campeã do mundo, mas recebe um desconto justamente pelo título na Rússia. Espanha e Itália poderiam mais, só que o período de renovação acaba servindo também como uma desculpa para atenuar as críticas sobre os trabalhos recém-iniciados por Luis Enrique e Roberto Mancini. Por fim, os rebaixamentos geram decepções naturais. Os meses ruins de Islândia e Polônia tornam a queda um tanto quanto óbvia, mas não à Croácia, atual vice-campeã do mundo e pouco competitiva em uma chave contra adversários de respeito. Para a sorte dos croatas, existe a Alemanha para roubar os holofotes, em mais uma jornada vexaminosa ao peso de sua camisa.

Seleção que mais se destacou: Holanda

Inglaterra, Portugal e Suíça possuem seus méritos na classificação. Mas nada se compara à superação da Holanda no Grupo A. Os holandeses eram vistos naturalmente como azarões, não apenas por quem enfrentariam, mas também pelos desempenhos ruins recentes e por atravessarem uma nova era sob as ordens de Ronald Koeman. Não começaram tão bem, com uma derrota contundente ante a França. Mas logo produziram atuações memoráveis: os 3 a 0 inapeláveis, contra a Alemanha; os 2 a 0 sobre a França, se impondo sobre os campeões mundiais; e o épico 2 a 2 em Gelsenkirchen, que valeu a vaga na fase final. Mesmo sem os craques de outros anos recentes, a Oranje aproveita as individualidades à disposição e ganha consistência. Vaga mais do que merecida.

Seleção que mais decepcionou: Alemanha

Fica difícil superar o vexame ocorrido na Copa do Mundo de 2018, mas a Alemanha se esforçou para isso. Joachim Löw ganhou um crédito da federação e seguiu à frente do Nationalelf, mas o que se viu em setembro e outubro foi uma bagunça só. Um time mal montado, repetindo erros e insistindo em certos medalhões. Apesar do bombardeio contra a França, não foi capaz de vencer a estreia e se afogou com as duas derrotas seguintes. Terminou rebaixada com uma rodada de antecipação. Quando já não valia mais nada e finalmente o treinador investia em novas peças, os germânicos tiveram sua melhor atuação, mas se enroscaram no segundo tempo e cederam o empate à Holanda. Fica o recado sobre o processo complicado e a necessidade de rever realmente as diretrizes de Löw. Pior, o desempenho ruim implicará no sorteio das eliminatórias da Euro 2020: os alemães ficaram apenas no Pote 2.

Segunda divisão (Liga B)

Promovidos: Ucrânia, Suécia, Bósnia, Dinamarca
Rebaixados: Irlanda, Irlanda do Norte, Turquia, Eslováquia

O equilíbrio da segundona da Liga das Nações foi considerável. Alguns grupos não possuíam necessariamente favoritos, mas algumas seleções fizeram campanhas acima das expectativas. Bósnia e Dinamarca foram as únicas a manter a invencibilidade, buscando o acesso. Terminando acompanhadas pela Suécia, mantendo a série de bons resultados recentes e superando a Rússia no confronto direto; e pela Ucrânia, a primeira a se garantir, sem tomar conhecimento de Eslováquia e República Tcheca nas três primeiras rodadas. Os dinamarqueses, aliás, merecem destaque especial. Mesmo com a crise interna na federação, pela falta de um acordo coletivo aos jogadores que culminou em greve, os astros mantiveram o compromisso e fizeram sua parte.

Por outro lado, as seleções “das ilhas” concentraram as decepções. Gales não foi páreo à Dinamarca. A Irlanda do Norte não somou um mísero ponto, dilacerando as esperanças após as campanhas na Euro e nas Eliminatórias para a Copa de 2018. E a Irlanda só acumulou dois empates, gerando mudanças no comando técnico logo após o descenso. A Turquia é outra rebaixada que reclama, depois de surgirem rumores sobre uma arbitragem fraudulenta em sua derrota recente para a Suécia, dentro de casa. Segundo o atacante Marcus Berg, durante o intervalo ele foi reclamar com o árbitro István Kovács sobre uma penalidade não marcada no primeiro tempo. O romeno teria dito que “marcaria duas” se estivesse mesmo errado. Ao final, os escandinavos triunfaram com um tento de pênalti de Andreas Granqvist. Relegaram os turcos e, nesta terça, consumaram a classificação ao baterem os russos.

Seleção que mais se destacou: Bósnia

Desde a classificação à Copa do Mundo de 2014, a Bósnia faz campanhas apenas razoáveis em eliminatórias. Ficou em terceiro nas campanhas à Euro 2016 e à Copa de 2018, insuficiente para a classificação. Por isso mesmo, sua imposição no Grupo 3 merece ser ressaltada. Tudo bem, Áustria e Irlanda do Norte estavam abaixo do que a chave poderia oferecer na segunda divisão. Mas os bósnios fizeram sua parte com três vitórias e um empate, sem tomar conhecimento dos oponentes. Edin Dzeko comandou a equipe, autor de três dos cinco gols anotados, mas a defesa também possui seus méritos, ao ser vazada somente uma vez.

Seleção que mais decepcionou: Gales

Gales teve chance de acesso até a última Data Fifa e passou longe do rebaixamento. Ainda assim, depois das semifinais da Euro 2016, esperava-se mais da equipe. Há um processo de renovação em curso desde a chegada de Ryan Giggs, com a ascensão de vários novatos. Também é verdade que as lesões de seus astros continuam sendo fantasmas aos britânicos. Mas era para terem feito mais nos confrontos diretos com a Dinamarca, engolindo duas derrotas, principalmente em Cardiff, no confronto direto pela classificação. É um time que parece ter parado no tempo, após atingir o ápice.

Terceira divisão (Liga C)

Promovidos: Escócia, Finlândia, Noruega, Sérvia
Rebaixados: Estônia, Chipre, Eslovênia, Lituânia

Com a maioria dos grupos compostos por quatro seleções, a dedicação neste semestre foi praticamente máxima à Liga C. Afinal, o torneio pode se tornar um atalho importante à Euro 2020, considerando as seleções que nem sempre figuram nos torneios continentais. Neste sentido, o alívio à Escócia é notável. Dominou o grupo com Israel e Albânia, avançando depois de um jogo emocionante nesta terça. De virada, a Tartan Army bateu os israelenses por 3 a 2 em Glasgow, com tripleta de James Forrest. Destaque também ao goleiro Allan McGregor, que operou um milagre nos minutos finais e evitou o empate, que daria a vaga aos visitantes. Os albaneses, aliás, se beneficiaram com o fato de este ser o único grupo com três times na Liga C. Por isso, um dos terceiros colocados das chaves com quatro participantes poderia se dar mal. O Chipre acabou pagando caro, com menos pontos conquistados contra os dois adversários acima na tabela.

No Grupo 2, a surpresa ficou por conta da Finlândia, deixando para trás Hungria, Grécia e Estônia. Fizeram o simples, mas com uma campanha em casa que valeu a classificação. Em uma chave equilibrada, a Noruega comemorou ante Bulgária, Chipre e Eslovênia, também se garantindo pelos pontos faturados como mandante. Já no Grupo 4, a Sérvia realizou a melhor campanha da divisão. Depois da Copa do Mundo razoável, o time não perdeu um jogo sequer na chave contra Romênia, Montenegro e Lituânia. O centroavante Aleksandar Mitrovic carregou o time, autor de seis gols em seis partidas. Os romenos merecem menção honrosa, ao também ficarem invictos, mas com uma vitória a menos que os sérvios.

Seleção que mais se destacou: Finlândia

O acesso já é algo acima das expectativas aos finlandeses. Mas, sem dúvidas, a passagem à repescagem da Euro 2020 se torna valiosíssima a uma seleção que nunca esteve na competição continental. Presente no Pote 3 da Liga C, a equipe não dava muitos indícios de competir pela liderança – até porque foi figurante nas Eliminatórias da Copa de 2018. Ainda assim, aproveitou-se da bagunça constante de Grécia e Hungria para superar os favoritos, batendo ambas em casa e acumulando os seis pontos contra a Estônia. O elenco possui alguns jogadores de valor, como o goleiro Lukas Hradecky e o atacante Teemu Pukki. Três dos quatro triunfos, aliás, foram por 1 a 0 com gols do camisa 10. Sem dúvidas, o herói da epopeia.

Seleção que mais decepcionou: Eslovênia

Com uma população irrisória e uma tradição no futebol que não era tão considerável assim nos tempos de Iugoslávia, a Eslovênia sempre se supera nas eliminatórias pela Europa. Nunca foi um time de encher os olhos, mas contou com gerações competentes para superar favoritos e avançar a competições internacionais. Por isso mesmo, o rebaixamento dos balcânicos até assusta, pela maneira como se deu. Presente no Pote 1, não conseguiu uma vitória sequer contra três oponentes teoricamente inferiores de seu grupo – Noruega, Bulgária e Chipre. Nem mesmo sua defesa funcionou desta vez, com oito gols tomados em seis partidas. Mas há uma explicação plausível para o mau desempenho atrás: Jan Oblak não é convocado desde março. O goleiro entrou em rota de colisão com a federação e sem dúvidas foi uma ausência sentida na Liga das Nações.

Quarta divisão (Liga D)

Promovidos: Kosovo, Geórgia, Macedônia, Belarus

Os maiores beneficiados pela Liga das Nações são os 16 times da quarta divisão. Há, claro, uma chance inimaginável de avançarem à Eurocopa – sendo a Letônia a única presente nesta divisão com uma participação anterior no torneio continental. No entanto, tão importante quanto a oportunidade é a possibilidade de muitas dessas seleções enfrentarem adversários de seu nível e não serem meros sacos de pancadas, como acontece em quase todas as eliminatórias. Não à toa, mesmo times que não se classificaram acabaram conquistando resultados históricos, a exemplo da primeira vitória oficial de Gibraltar ou da excelente sequência de Luxemburgo no ano. Ficar na lanterna não foi necessariamente uma vergonha e somente San Marino passou os seis compromissos sem pontuar.

Três dos quatro times do Pote 1 prevaleceram em suas chaves. No Grupo 1, a Geórgia monopolizou as vitórias. Foram cinco triunfos no quadrangular, que ainda contava com Cazaquistão, Letônia e Andorra – fazendo um festival de empates entre si. Curiosamente, o único tropeço dos georgianos se deu ante os andorranos. No Grupo 2, apenas San Marino foi carta fora do baralho. Belarus terminou com uma campanha invicta, mas seguida de perto por Moldávia e (sobretudo) Luxemburgo. Não fosse a derrota dos luxemburgueses contra os bielorrussos no Estádio Josy Barthel, o milagre seria deles. O Grupo 4 também contou com uma imposição da Macedônia, com 15 pontos. Sofreu apenas uma derrota, em goleada engolida na visita à Armênia, mas se recuperaram. O problema dos armênios, aliás, esteve nos duelos com os nanicos. Dava para esperar mais da ex-república soviética, mas a derrota histórica em casa para Gibraltar e o empate fora contra Liechtenstein frustraram os planos. Os gibraltarinos, aliás, sequer terminaram em último, já que também bateram o principado no Estádio Victoria.

Seleção que mais se destacou: Kosovo

A menção honrosa, aliás, vai ao líder do Grupo 3. Kosovo também se candidatava a ser saco de pancadas. Aceita pela Uefa a partir de 2016, a seleção somou apenas um ponto nas Eliminatórias para a Copa de 2018 – curiosamente, empatando com a Finlândia. Por isso mesmo, era a antepenúltima no Ranking da Fifa entre as seleções europeias, acima apenas de San Marino e Gibraltar. Mas não tomou conhecimento de seus adversários, superando Azerbaijão, Ilhas Faroe e Malta. Os kosovares venceram quatro de seus compromissos e empataram os outros dois. A maior noite do futebol na nação foi celebrada nesta terça. Precisando apenas de um empate contra os azeris, os anfitriões golearam por 4 a 0 em Pristina. Provocaram uma enorme comemoração, com direito a queima de fogos pelo resultado inesquecível. Possuem uma boa geração que, com baixa média de idade, pode evoluir durante os próximos anos. Arbër Zeneli foi o destaque, com uma tripleta no jogo do acesso.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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