Europa

Um coro que não cala

O que era de se esperar aconteceu. Não demorou muito para os escândalos sobre a manipulação de resultados na Turquia começassem a afetar a seleção do país. A prova de fogo veio no amistoso realizado semana passada, contra a Estônia. Não que a crise atrapalhasse o resultado contra um time bem mais frágil. A vitória por 3 a 0 foi construída ainda no primeiro tempo. Contudo, a insatisfação dos torcedores por toda a situação vivida no país era visível – ou melhor, audível.

A maior prova da fúria dos turcos foi dada logo aos oito minutos de jogo, quando o meia Emre Belözoglu marcou o gol inaugural da partida. Justamente ele, um dos principais suspeitos de arquitetar o esquema entre os jogadores do Fenerbahçe. A desconfiança sobre Emre é tamanha que, no início deste mês, ele foi interrogado por conta da troca de mensagens com Kagan Soylemezgiller, jogador do Ankaragükü e adversário do Fener na última rodada da Süper Lig. Segundo a polícia, uma das mensagens dizia: “Não deixe meu presidente bravo. Não faça o seu melhor jogo”. Mesmo assim, o meia foi convocado para partida e recebeu a braçadeira de capitão.

Após o tento, o jogador foi copiosamente vaiado pela torcida presente na Türk Telecom Arena e sequer comemorou o feito. Ainda que o fato de ter jogado em um campo rival, no estádio do Galatasaray, tenha contribuído para o descontentamento, o ato nas arquibancadas deixa evidente o tom de crítica sobre o escândalo que joga a fama do futebol do país no limbo. Os outros dois gols da partida foram marcados por Kazim Richards, jogador do Gala que, até provem o contrário, não está envolvido na questão e por isso mesmo teve os seus ouvidos poupados.

Quem também precisou lidar com as críticas foi o Selçuk ?ahin, também do Fenerbahçe. E a pressão pareceu mesmo afetar o desempenho do atleta nas quatro linhas, com uma atuação longe de lembrar o que fez durante a última temporada. Outro jogador dos Sari Kanaryalar em campo era o volante Gökhan Gönül, que, ao lado de Kazim, foi um dos poucos a se apresentar bem. Único representante do Trabzonspor, o atacante Burak Yilmaz não pareceu muito abalado, mas tampouco foi efetivo ao longo do encontro.

Guus Hiddink aproveitou a ocasião para promover as estreias do goleiro Sinan Bolat e do meia Gökhan Töre. No elenco, o técnico ainda contava com Mehmet Ekici, Cenk Tosun e Tunay Torun, todos com menos de 21 anos. Representantes da nova geração preparada na Turquia, possíveis redentores da moral do país e que, por conta do nervosismo evidente de seus companheiros com mais experiência, pouco puderam mostrar na partida.

Além do mais, nem mesmo o próprio Hiddink vem gozando de muita moral junto aos fanáticos torcedores turcos. Primeiro, o holandês acenou com um possível retorno ao Chelsea, antes de André Villas-Boas ser confirmado no cargo. Depois disso, ainda concedeu uma entrevista a um jornal holandês afirmando que romperia o seu contrato se a manipulação de resultados fosse provada. Algo que vai na contramão do projeto pretendido em sua chegada. Na cabeça dos torcedores, atitude típica de quem não está realmente comprometido com o desenvolvimento da seleção nacional.

O próximo desafio para Hiddink colocar a equipe nos eixos acontece no início de setembro, quando os turcos recebem o Cazaquistão, em embate válido pelas eliminatórias da Euro 2012. A equipe é a terceira no Grupo A, um ponto atrás e com um jogo a menos que a Bélgica, vice-líder da chave. A primeira colocação é da Alemanha, que tem dez pontos de vantagem e dificilmente perde a vaga direta à fase final do torneio. Resta à Turquia sonhar com a repescagem. Para chegar lá, além de Cazaquistão, a partida fácil da seqüência é contra o Azerbaijão, na última rodada. Entre uma baba e outra, os turcos pegam fora de casa Áustria – que, três pontos atrás, também ameaçam – e a Alemanha em Istambul.

Antes de pensar diretamente na classificação, porém, é preciso acertar a casa. O psicológico dos jogadores não é dos melhores e, sob as vaias da torcida (da qual eu não tiro a razão), as coisas só tendem a piorar. A possibilidade para Hiddink é, por ora, afastar jogadores investigados no escândalo. Talvez até mesmo radicalizar e evitar os atletas dos clubes envolvidos, por mais que isso enfraqueça o time. De todo o jeito, o papel do holandês é evitar que essa maré de sujeira afete os resultados em campo – antes que ele próprio deixe a nau à deriva, temendo manchar sua imagem de técnico vencedor.

Retorno sob desconfiança

Principal clube longe fora dos limites de Atenas e Tessalônica, o OFI Creta está de volta à elite do futebol grego após uma prolongada briga pelo acesso. A participação na Super League deste ano só foi confirmada após batalhas financeiras, judiciais e, enfim, campais. Depois de tantos esforços, porém, o Omilos precisa de cautela nesta reestréia para mostrar que pode fazer uma campanha digna dentro e fora de campo.

Rebaixados em 2008-09, os cretenses tiveram que disputar a sua primeira temporada na segunda divisão após 33 anos. E a participação na Beta Ethniki seguinte não foi das mais felizes. A equipe chegou em terceiro na tabela geral, mas acabou ficando dois pontos atrás do Panserraikos no quadrangular que daria a última vaga à Super League.

A segunda tentativa de subir finalmente foi concretizada, mas após a equipe passar por diversas provações. A temporada regular foi relativamente tranqüila, apesar de o OFI ficar cinco pontos atrás da vaga direta à elite. Em terceiro, o time teria que enfrentar o quadrangular de classificação mais uma vez. Contudo, antes mesmo de começar a disputa, os cretenses foram barrados pela federação grega, que apontou deficiências nas contas do clube. Os problemas financeiros não permitiam que a equipe disputasse uma temporada na primeira divisão.

Somente após semanas de brigas judiciais e diversos recursos é que o Omilos conseguiu assegurar o direito de disputa por uma vaga. A Justiça Desportiva grega reavaliou as finanças do clube, que estava livre para disputar o quadrangular. Quase dois meses depois, a competição que deveria começar no fim de maio teve o seu pontapé inicial. Por fim, o OFI pôde comemorar o acesso encerrando o mini-torneio de forma invicta, deixando para trás Levadiakos, Doxa Drama e Diagoras.

O OFI Creta, no entanto, permanece tímido nas movimentações antes do início da Super League. Até o momento, a única contratação foi a do meia Panagiotis Zorbas, que já estava no clube e apenas foi adquirido em definitivo. Por outro lado, treze atletas do grupo partiram, entre eles Anestis Agritis, artilheiro do time na Beta Ethniki, além do meia Konstantinos Kiassos e do zagueiro Frantz Bertin, titulares absolutos na campanha vitoriosa.

Sem tantas peças, os cretenses retornam à primeira divisão com o elenco mais enxuto de toda a liga (apenas vinte atletas), além disso, o mais envelhecido, com média de idade superior a 28 anos. Por causa dos problemas financeiros, o Omilos possui os jogadores com menor valor de mercado na Super League.

No fim das contas, os destaques cretenses se limitam ao meia Zeljko Kalajdzic e aos atacantes Leonidas Kampantais e Shaibu Yakubu. Mais que se preocupar com os resultados em campo, o OFI ainda precisa fechar as contas em dia. Se o recurso judicial valeu na Beta Ethniki, o rebaixamento do Iraklis já demonstrou que a situação é um pouco mais rígida entre os clubes da Super League. Preocupações de sobra para uma equipe que não teve nem tempo de comemorar o acesso.

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Equipe Trivela

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