Europa

Uefa alerta sobre Fair Play Financeiro: “PSG deve ter feito bem as contas”

As especulações sobre a ousada contratação de Neymar pelo Paris Saint-Germain causa reações fortes em relação ao Fair Play Financeiro, programa da Uefa que prevê que os clubes precisam operar dentro do seu faturamento. A possibilidade do PSG pagar a cláusula de rescisão de Neymar de € 222 milhões levantou suspeitas sobre o funcionamento do sistema, mas o responsável pelo Fair Play Financeiro da Uefa, Andrea Traverso, disse que a entidade irá monitorar o balanço dos clubes.

LEIA MAIS: O que é o Fair Play Financeiro da Uefa?

O PSG foi um os times punidos pelo Fair Play Financeiro quando as regras começaram a valer, em 2014. Cada time foi punido com multa de € 60 milhões, além de terem o elenco reduzido de 25 para 21 inscritos por uma temporada. Os dois times cumpriram punições por três temporadas, tendo as contas monitoradas e qualquer infração significaria punição maior.

Para Andrea Traverso, o PSG será cuidadoso porque uma segunda violação das regras pode implicar em uma punição mais pesada, como a exclusão de competições europeias por uma temporada. “O PSG não está mais sob essas restrições, mas isso não significa que eles podem fazer o que quiserem”, afirmou o dirigente. “Eles devem respeitar as regulações do Fair Play Financeiro, como todos os outros na Europa. Eles devem mostrar que podem ter prejuízo que não ultrapasse € 30 milhões por três anos”, explicou Traverso.

“Eu noto que o impacto de uma possível chegada de Neymar a Paris teria um efeito que seria sentido por muitos anos. Mas é muito difícil julgar esse tipo de operação antecipadamente. Eu não sei o plano deles”, declarou ainda o dirigente da Uefa. “A janela de transferências não está fechada. Eles podem ter planejado vender um, dois, três ou quatro jogadores por um valor equivalente ou maior. Nós veremos como fica no final. Eu acho que eles fizeram bem as contas”, analisou.

Desde que passou a ter como dono a Qatar Sports Investment, em 2011, o PSG se tornou uma potência na Europa. Apesar do status que ganhou, Traverso diz que os grandes clubes europeus não recebem tratamento diferente da entidade. “Nós não fazemos uma distinção. Todos os clubes são tratados do mesmo jeito”, afirmou Traverso.

“Vocês dizem que o PSG e o Manchester City foram punidos. Eu posso dizer que Internazionale e Roma também receberam restrições. Grandes clubes, na Turquia, foram punidos de forma pesada. Clubes pequenos, médios e grandes são tratados do mesmo jeito”, disse o responsável pelo Fair Play Financeiro.

Depois do que passou, o PSG deve ter aprendido a lição, segundo Traverso. “Foi um longo tempo desde então [as punições]. As regras tinham acabado de serem introduzidas. Agora, todo mundo as conhece bem. Eu acredito que tudo será feito dentro das regras. Mas eu entendo muito bem que algumas pessoas tem se questionado muito sobre isso”, opinou o dirigente.

“Manchester City e Paris Saint-Germain respeitam o acordo: eles têm receitas enormes, então podem contratar. Olhem para o City”, afirmou Traverso. “As regras são as mesmas para todos, se um clube contrata, então nós assumimos que eles têm o seu balanço equilibrado. Se não tiver, eles serão punidos, mas nós não podemos impedir que contratem”, explicou ainda o dirigente.

O Manchester City se tornou um dos maiores faturamentos do mundo. Entre os clubes europeus, segundo o relatório Football Money League 2017, o Manchester City teve o quinto maior faturamento entre os clubes da Europa, com € 524,9 milhões, atrás de Manchester United (€ 689 milhões), Barcelona (€ 620,2 milhões), Real Madrid (€ 620,1 milhões) e Bayern de Munique (€ 591 milhões). O Paris Saint-Germain é o sexto da lista, com € 520,9 milhões.

Veja a lista dos times com maior faturamento na Europa:

 “A tendência está piorando”

Traverso também falou sobre o Milan, que já gastou € 220 milhões neste mercado de transferências. O dirigente diz que o clube italiano não será poupado de eventuais punições, caso infrinja alguma das regras do Fair Play Financeiro. O Milan irá apresentar um planejamento financeiro voluntariamente para a Uefa, de forma a provar que está cumprindo as regras.

“O Milan não será uma exceção no Fair Play Financeiro, porque nenhum clube será exceção”, disse Traverso. “O Fair Play faz um controle posterior, nós não podemos dizer o que fazer e o que não fazer. Todo mundo é livre, então há consequências”, explicou. “Certamente o Milan não pode fazer o que quiser, se eles estão comprando é porque eles têm intenção de faturar mais”.

Uma das críticas ao sistema de Fair Play Financeiro é que ele impede que clubes menores, com donos ricos, possam crescer e competir com os grandes. A Uefa sustenta, porém, que o FFP diminuiu muito o tamanho dos rombos financeiros dos clubes.

“Nós estamos satisfeitos com o Fair Play Financeiro, nós conseguimos resultados sem precedentes nos últimos anos. Em 2010, o prejuízo dos clubes foi de € 1,7 bilhão, agora está abaixo de € 300 milhões”, argumenta o dirigente. “O sistema está crescendo, é financeiramente sustentável, mas… Nos últimos dois anos, algo imprevisível mudou. Os riscos estão mais riscos e os pobres estão mais pobres. O mundo está indo nessa direção e o futebol não é exceção, mas o futebol é uma indústria como nenhuma outra, é uma competição”, afirmou.

“O futebol cresce 10% todo ano. Todo mundo está obcecado com os números por Neymar, mas as receitas dos clubes cresceram e, presumidamente, suas contas irão permitir que gastem. A tendência está piorando, com poucos clubes ganhando as coisas, e nesse caso, as receitas de longo prazo irão cair. Mas a competitividade tem que começar nas ligas”, afirmou ainda o dirigente.

A grande questão para a Uefa com o seu Fair Play Financeiro é como analisar as receitas dos clubes. Há muitas denúncias de patrocínios, naming rights e receitas inchadas artificialmente, por exemplo, com empresas do próprio dono do clube patrocinando as camisas e pagando um valor acima do mercado.

A Uefa já afirmou que isso também é monitorado, mas esse tipo de avaliação é muito mais difícil de ser feita. De qualquer forma, esse é o mecanismo mais importante para passar um pente fino nas receitas dos clubes e descobrir se os números não estão sendo manipulados. Se não, o Fair Play Financeiro acaba sendo aplicado apenas para os clubes médios e pequenos, enquanto os grandes acabam usando manobras para driblar as regras

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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