Torre de Babel

Diz a Bíblia que, na tentativa de chegar ao céu, os homens construíram uma torre de proporções gigantescas para que não fossem espalhados por toda a terra. Deus, então, confundiu suas línguas, para que um não entendesse o outro e a construção não pudesse continuar. A narrativa da Torre de Babel serve muito bem para demonstrar como tem sido a temporada do FC Sion, bicampeão suíço que amarga a briga contra o rebaixamento desde o início do campeonato: muitos jogadores têm conseguido destaque em suas seleções nacionais, mas não rendem o esperado no clube.
Nas dez rodadas disputadas em 2009, foram apenas duas vitórias e três empates. O último, em casa contra o FC Luzern, lanterna durante todo o campeonato e favorito disparado ao rebaixamento. O gol do nigeriano Adeshina, que livrou o time de uma derrota vexatória (seria o primeiro triunfo do Luzern fora de casa na temporada), só saiu graças a uma falha da zaga na cobrança de escanteio. Pior que isso, só o fato de que os visitantes abriram o placar num erro ainda pior do goleiro Beney, que espalmou uma falta fácil nos pés de Schwegler. A defesa ficou só olhando.
A falta de comunicação é até certo ponto compreensível. Afinal, o Sion possui em seu elenco jogadores de 16 nacionalidades diferentes – número comparável a grandes clubes como Inter de Milão, Chelsea e Real Madrid. A globalização, entretanto, não surtiu os efeitos esperados no time com o terceiro maior orçamento da Swiss Super League para 2008/09: o entrosamento não veio até agora e a equipe sofre com as constantes experiências de Christian Constantin, presidente do clube e que assumiu o cargo de treinador em novembro, inicialmente de forma provisória: todos os 27 jogadores, inclusive os três goleiros, já foram considerados titulares absolutos em algum momento da temporada.
Na última rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo, o Sion teve sete atletas convocados, quase o mesmo que os grandes europeus. Nenhum deles, entretanto, apareceu na lista de Ottmar Hitzfeld para os confrontos da Suíça ante a Moldávia. Foram seis seleções diferentes, além de Kali, zagueiro angolano que disputou amistosos. E mais: tirando o atacante Álvaro Saborio, que esquentou o banco nas duas partidas da Costa Rica, todos os outros foram titulares.
Essam El Hadary foi o goleiro do Egito no empate em casa com Zâmbia; Vanczak é titular absoluto da zaga húngara, com grande campanha no Grupo 1 europeu; o volante Ahoueya é figura carimbada na seleção do Benin, que perdeu para Gana por 1 a 0; e no empate entre Nigéria e Gana, o Sion esteve representado nos dois lados: Paíto pelos visitantes e Obinna Nwaneri como capitão nigeriano. O detalhe é que ele ainda não jogou por seu clube em 2009 – recém-recuperado de uma contusão, não tem sido aproveitado por Constantin, que quer vendê-lo para fazer caixa. As Super Águias contariam ainda com Mohammed Yusuf, que acabou se machucando e foi cortado. Yusuf, ironicamente, não joga pelo Sion este ano: não foi inscrito devido ao limite de jogadores estrangeiros.
Mesmo com goleiro e zagueiro titulares em suas seleções, o Sion tem a terceira pior zaga do campeonato. “Não há explicação para isto. Se houvesse, já teria mudado muita coisa, mas o fato é que o elenco é quase o mesmo há dois anos e os resultados não aparecem”, afirma um resignado presidente/técnico, que lembra ainda que o colombiano Álvaro Dominguez era um nome constante em sua seleção até o ano passado.
Não é nem uma questão nova, pois a política de contratar estrangeiros e se transformar numa verdadeira “Seleção da ONU” vem desde a época em que o Sion ainda era chamado Olympique des Alpes. Talvez os jogadores estejam mais acostumados a jogar perto dos cenários de sol, praia e palmeiras do que do bucólico interior montanhoso. E o trabalho fica mais difícil com um técnico que não se faz entender, talvez falando grego nesta Torre de Babel – sem haver nenhum grego para traduzir.
100%
Pela primeira vez nestas Eliminatórias, Suíça e Áustria venceram todos os seus compromissos da rodada. A Nati venceu a Moldávia duas vezes por 2 a 0, aproveitou os confrontos diretos entre Grécia e Israel e assumiu a liderança com 13 pontos, ao lado dos gregos. Nos dois jogos, a dupla formada por Alexander Frei e Blaise N’Kufo comandou as ações ofensivas e garantiu os seis pontos. Enquanto o atacante do Borussia Dortmund anotou um em cada partida e chegou a quatro neste qualificatório, o veterano do FC Twente guardou o seu em Chisinau e já tem cinco, aparecendo em terceiro na artilharia (o bósnio Edin Dzeko tem sete).
O jogo de ida, na Moldávia, levantou suspeitas de autoridades de apostas na Rússia por causa de um alto número de palpites corretos na vitória por 2 a 0 – o segundo gol foi marcado nos acréscimos. Entretanto, o serviço de investigação da Fifa analisou o caso e afirmou não constatar irregularidades. Em setembro, a Suíça recebe a Grécia no jogo que vale a liderança e, provavelmente, um lugar na Copa.
Já a Áustria, desfalcada de mais de meio time titular, se superou para bater a Romênia de virada em Klagenfurt e continuar sonhando. O técnico Didi Constantini, estreando no cargo após a demissão de Karel Brückner, não pôde contar com jogadores importantes como o artilheiro Marc Janko, o goleiro Manniger e o zagueiro György Garics. Logo de cara, uma falha bisonha do arqueiro Michael Gspurning, do Xanthi, da Grécia, que deu a bola nos pés de Cristian Tanase e levou um belo gol por cobertura. Foi então que brilhou a estrela do jovem Erwin Hoffer, atacante do Rapid Viena.
Logo na saída, o time da casa foi para cima e contou com a contribuição da zaga. No bate-rebate, a bola sobrou para Hoffer marcar seu primeiro gol pela seleção principal austríaca. A virada veio antes do intervalo, após uma verdadeira blitz que durou vinte minutos. Gspurning lançou da intermediária, Pehlivan escorou de cabeça e a bola sobrou livre para Hoffer invadir a área e tocar na saída de Lobont.
A classificação austríaca é muito improvável. Ainda que falte todo o segundo turno, jogos fora de casa contra Sérvia, França e Romênia não dão muitas perspectivas a um elenco jovem, que promove uma reformulação. Como as duas primeiras posições devem ficar com franceses e sérvios, um terceiro lugar num grupo tão parelho poderá ser considerado um resultado digno, reacendendo a euforia causada na época da Euro. O jogo em Belgrado, no mês de junho, mostrará o verdadeiro potencial austríaco para agora – e para o futuro.



