Europa

Torcida do Celtic substitui placas de ruas com homenagens a escravagistas por nomes de símbolos do movimento negro

Principal grupo de ultras do Celtic, a Green Brigade se somou aos protestos antirracistas em Glasgow, após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. E os torcedores alviverdes foram além em sua ação junto ao movimento, que toma diversas cidades pelo mundo. Eles resolveram se contrapor também às homenagens públicas feitas a antigos escravagistas. A Green Brigade “substituiu” as placas das ruas que relembram esses indivíduos, colocando no local tributos a personalidades históricas ligadas à luta contra o racismo.

A Green Brigade é reconhecida por seu ativismo, inclusive participando de projetos sociais contra o racismo e a discriminação. Durante a pandemia, os ultras do Celtic vinham agindo principalmente para fornecer materiais de proteção às comunidades mais necessitadas e também para contribuir aos bancos de alimentos em meio à crise. Já neste final de semana, a torcida se uniu aos manifestantes nas ruas de Glasgow, relembrando que a cidade foi construída se apoiando na escravidão.

“Escravos fizeram Glasgow”, era a faixa exibida sobre um outdoor, ao lado do lema “Vidas negras importam”. Já nas ruas, os ultras da Green Brigade colocaram as novas placas em homenagem aos ativistas negros ao lado dos nomes dos escravagistas homenageados pela prefeitura da cidade.

George Floyd ganhou uma placa, assim como Sheku Bayoh, imigrante serra-leonês morto pela polícia escocesa em 2015. Também constavam referências a personagens históricos como Joseph Knight (escravo que conquistou sua liberdade na justiça britânica no Século XVIII); Harriet Tubman (americana que escapou da escravidão e lutou pelo abolicionismo, resgatando escravos); Rosa Parks (ativista do movimento de direitos civis, lembrada sobretudo por liderar o boicote a assentos de ônibus exclusivos a brancos em sua cidade no Alabama, em 1955); e Fred Hampton (um dos líderes dos Panteras Negras, assassinado em 1969).

Os nomes substituídos nas placas eram, majoritariamente, de barões do tabaco britânicos com grandes plantações nos Estados Unidos e centenas de escravos. Consultada pelo The Scottish Sun, a prefeitura de Glasgow declarou que estava ciente do protesto. O porta-voz afirmou que o município encomendou um estudo no ano passado, para apresentar as ligações de Glasgow com a escravidão. A prefeitura se comprometeu a consultar a população sobre ações possíveis, inclusive com a mudança no nome das ruas, após o relatório final.

Glasgow também foi a cidade onde despontou o primeiro jogador negro a defender uma seleção nacional. Andrew Watson era filho de uma ex-escrava e de um latifundiário escocês, rico barão do açúcar. Nascido na Guiana em 1856, 23 anos depois da abolição da escravidão no Império Britânico, Watson cresceu na Escócia e herdou a fortuna quando seu pai faleceu, ainda na adolescência. O defensor jogou no Queen’s Park, então potência local. Conquistou duas vezes a Copa da Escócia e se tornou o primeiro negro a disputar a Copa da Inglaterra. Nesta época, também jogou três partidas com a seleção, entre 1881 e 1882, inclusive usando a braçadeira de capitão. Engenheiro naval, atuaria depois em clubes de Londres e Liverpool – entre eles o Corinthian, que reunia a nata do amadorismo durante os primórdios do profissionalismo.

Não há registro de casos de racismo contra Watson nos livros da federação escocesa e, por seu passado aristocrático, o ex-defensor não costuma ser relacionado diretamente à luta antirracista no futebol. Ainda assim, sua presença no esporte de elite é um marco. Em 1920, durante uma eleição para apontar os melhores jogadores da seleção escocesa até então, Watson foi incluído no time ideal. Foram 122 anos até que outro negro atuasse pelo país, com a convocação de Nigel Quashie em 2004.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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