Terrorismo religioso

Esta semana, a polícia da Irlanda do Norte interceptou uma carta bomba no país que estava endereçada para Cairde Na H'Eireann, um grupo irlandês republicano que vive em Glasgow, na Escócia. A pergunta é: o que isso tem a ver com o futebol? Especula-se que essa tentativa de atentado está relacionada com as cartas bombas enviadas a Neil Lennon, que é treinador do Celtic, a Paul McBride, que é o advogado de Neil Lennon, e a Trish Godman, que é membro do parlamento escocês, sendo os dois últimos torcedores do Celtic.
Essa não é a primeira vez que Neil Lennon, norte-irlandês e católico, recebe ameaças de morte. Em agosto de 2002, Lennon anunciou aposentadoria da seleção norte-irlandesa antes de um amistoso com o Chipre. Na ocasião, um grupo paramilitar contatou a BBC Belfest e ameaçou Lennon, caso este atuasse pela seleção. Em janeiro deste ano, a polícia escocesa já tinha interceptado um pacote que continha balas de revólver endereçado ao técnico dos Bhoys e aos jogadores norte-irlandeses Niall McGinn e Paddy McCourt, ambos do Celtic.
Ninguém assumiu a culpa pelo terrorismo, mas suspeita-se que os artefatos explosivos tenham sido enviados pelos torcedores do Rangers. A rivalidade entre Rangers e Celtic vai além da competição de dois times da cidade de Glasgow, tendo conflitos por motivos religiosos. A maioria dos torcedores do Rangers são protestantes, sendo que alguns até chegam a levar a bandeira do Reino Unidos nos jogos do clube. O Celtic, que foi fundado por um padre irlandês que tinha a intensão de adquirir fundos para a comunidade irlandesa que vivia na Escócia, conta em sua maioria com torcedores católicos, que ostentam a bandeira da Irlanda nas partidas dos Bhoys.
“O futebol escocês deveria ser seguro e um entretenimento para os jogadores, técnicos e torcedores. Ele não deve ser usado como plataforma para intolerância religiosa ou ódio”, disse o presidente da SFA (federação escocesa de futebol), Stewart Regan.
“Eu provavelmente escuto mais conselhos de pessoas da segurança do que qualquer outra coisa”, disse Neil Lennon. “Não estou sob um guarda armado ou algo assim, mas tive que mudar algumas coisas no meu estilo de vida, o que é lamentável.”
“Se isso for longe demais, logo eu pensaria em reconsiderar a minha posição”, cogitou o técnico do Celtic. “É desconfortável ver você mesmo toda hora, todo tempo na Sky News ou na BBC. É um sentimento surreal. Não passava por isso desde as ameaças de morte, quando parei de jogar em 2002 [pela Irlanda do Norte]”, declarou o treinador do Celtic.
Como se pode ver, um dos problemas da humanidade continua sendo a intolerância, que acaba sendo manifestada em diversos campos da sociedade, até no futebol. No caso de Lennon, ele tem sido alvo de terrorismo e de ameaças de morte por conta da sua religião. Sendo norte-irlandês e católico, acaba sendo vítima de protestantes fanáticos, sejam eles escoceses e torcedores do Rangers sejam eles norte-irlandeses.



