Europa

Terceira maior campeã da Bélgica, a Union Saint-Gilloise volta à primeira divisão após 48 anos

Depois de um longo inverno, o Campeonato Belga deu boas vindas a um dos clubes mais tradicionais do país, de volta à primeira divisão. A Union Saint-Gilloise foi uma força dominante durante a primeira metade do Século XX. Os Unionistes têm nada menos que 11 títulos da liga nacional, faturados de 1904 a 1935, além de oito vices. No entanto, os auriazuis estavam distantes da elite desde 1973. Foram 48 anos de flagelo no distrito de Forest, ao sul de Bruxelas, até que a espera finalmente se encerrasse neste sábado. Ainda melhor, o acesso foi consumado num dérbi, com a vitória por 2 a 1 sobre o rival RWD Molenbeek selando a festa.

Fundada em 1897, a Union Saint-Gilloise conquistou o primeiro título do Campeonato Belga em 1904, e levaria seis dos sete troféus disputados até 1910. As conquistas se tornaram mais esparsas a partir de então, mas os Unionistes emendariam ainda um tricampeonato consecutivo na década de 1930, quando sustentaram uma invencibilidade de 60 partidas entre 1933 e 1935. Depois disso, a equipe não voltaria a ser campeã, mas não perdeu totalmente a relevância. Tanto é que disputou as primeiras edições da Copa das Cidades com Feiras – a futura Liga Europa. Foram cinco participações de 1960 a 1965, alcançando as semifinais uma vez, além de eliminarem adversários como a Roma e o Olympique de Marseille.

Quando a Union SG foi rebaixada pela primeira vez, em 1963, ainda era o clube com mais títulos no Campeonato Belga. O Anderlecht assumiria a dianteira isolada em 1966, enquanto o Club Brugge saltaria à segunda posição somente em 2003. E mesmo com tanto tempo distante da primeira prateleira, os Unionistes permanecem na terceira colocação do quadro de maiores campeões nacionais, com um troféu a mais que o Standard de Liège. Entretanto, nas últimas cinco décadas, a tradicional agremiação passou a viver de passado.

Durante a década de 1960, a Union Saint-Gilloise caiu duas vezes, mas conseguiu subir à primeira divisão em pouco tempo. Sua última estadia na elite durou cinco temporadas, de 1968 a 1973 – quando eram treinados por Guy Thys, técnico da seleção belga em três Copas do Mundo, de 1982 a 1990, e considerado por muitos como o principal treinador da história do país. Depois da queda em 1973, porém, os Unionistes não voltariam. Chegaram a cair para a terceirona ainda em 1975 e passariam pela quarta divisão de 1981 a 1983.

A reconstrução era complicada e, até 2004, a Union SG permaneceria de maneira praticamente ininterrupta na terceirona. A partir de então, a sequência na segunda divisão se tornou mais constante, apesar de outra passagem pela terceira. Em 2015, os auriazuis voltaram de vez ao segundo nível e seguiram rondando as primeiras colocações. Até que, finalmente, o acesso fosse celebrado neste sábado.

Vale ressaltar que, a partir de 2018, a Union Saint-Gilloise teria um aporte importante. O clube foi comprado por Tony Bloom, presidente do Brighton. Na época, o inglês deixou clara sua vontade de reconstruir a agremiação e reatar os laços de sua história. “Por dois anos procurei um novo clube na Europa onde pudesse investir e tentar aplicar o que aprendi dirigindo o Brighton. Vocês não podem imaginar como procurei um clube como este no continente”, afirmou Bloom, empolgado durante sua chegada.

O valor do investimento financeiro não é tão alto para os padrões locais. O que vale mais é a experiência na gestão do futebol e o trabalho de observação para montar o elenco. Apesar da ligação entre os dois clubes, não há intenção de que a Union SG se torne um time satélite do Brighton. E uma prova contundente de que as glórias estavam voltando aconteceu logo na temporada 2018/19: os Unionistes eliminaram Anderlecht e Genk na Copa da Bélgica, parando diante do Mechelen nas semifinais. O time ainda bateria na trave por duas vezes na segundona, mas não deixou a oportunidade escapar em 2020/21.

A chamada Division 1B do Campeonato Belga conta com apenas oito equipes, que se enfrentam em quatro turnos – num total de 28 rodadas. A Union Saint Gilloise completou seu 23° compromisso neste sábado, e abriu uma vantagem de 17 pontos sobre o Seraing, sem mais chances de ser ultrapassada pelos principais perseguidores. No jogo decisivo, a Union SG recebeu o RWD Molenbeek (outro grande adormecido) no Estádio Joseph Marien – sua casa e um dos palcos das Olimpíadas de 1920. Os auriazuis venceram os rivais por 2 a 1, gols de Deniz Undav e Guillaume François. O time emendou seu 11° triunfo consecutivo na segundona, com 19 vitórias em 23 partidas.

“Tentaremos nos reconstruir passo a passo, sem nos precipitarmos ou pularmos etapas. O objetivo é voltar à primeira divisão, jogando um bom futebol. Então, uma vez lá, o clube quer competir em todas as frentes”, afirmou Chris O’Loughlin, diretor esportivo da Union SG, ao Copa 90. “A quantidade de trabalho realizado no recrutamento de jogadores é incrível. Passamos horas e horas assistindo aos atletas e fazendo relatórios. Estamos nos esforçando tanto porque queremos trazer bons futebolistas e boas pessoas. Isso é muito importante para nós: pensamos que com boas pessoas você pode fazer boas coisas”. Para a empreitada, aliás, a diretoria apostou em um técnico com bagagem: Felice Mazzù, que passou seis anos no Charleroi e também dirigiu o Genk em 2019.

O Campeonato Belga já tinha visto um renascimento recentemente, embora não tão penoso. O Royal Antuérpia voltou à primeira divisão em 2017, após 13 anos longe da elite, e nesta temporada alcançou até os mata-matas da Liga Europa. É um exemplo àquilo que a Union Saint-Gilloise pode almejar. Neste momento, a torcida quer comemorar o retorno, numa façanha inédita a diferentes gerações. Mas, por aquilo que o clube representa à história do futebol belga, merece bem mais.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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