Europa

Sturm Graz e Basel: campeões da regularidade

Se num campeonato de pontos corridos da maneira tradicional como o conhecemos, em turno e returno, a regularidade é fundamental para a definição do campeão, imagine então a importância de ser regular uma competição de quatro turnos.

Pois foi assim, mantendo o equilíbrio e sempre figurando na ponta, que o Sturm Graz conquistou o título austríaco de 2010/2011. O time só não esteve entre os três primeiros colocados depois de três rodadas e ainda assim logo no início da competição (a 4.ª, a 5.ª e a 6.ª). Ficou na vice-liderança em 18 rodadas, ou seja, exatamente a metade do campeonato. Ainda foi terceiro colocado em seis e líder em nove, incluindo a última, que lhe deu o título.

Vale lembrar que, embora conte com apenas dez times, o Campeonato Austríaco consegue ter 36 rodadas, pois as equipes jogam entre si quatro vezes ao longo da competição.

A arrancada dos alvinegros do Sturm ao título nacional começou na 30.ª rodada, com uma goleada por 5 a 0 sobre o KSV Superfund. Comandado fora de campo pelo técnico Franco Foda e dentro dele pelo capitão Mario Haas e pela estrela e artilheiro Roman Kienast, o Sturm assumiu a ponta e não a deixou mais.

O famoso e cobiçado prato da Bundesliga austríaca entra na sede do Sturm pela terceira vez e volta à galeria do clube depois de 11 anos de espera. O time havia sido bicampeão nacional em 1997/98 e 1998/99. A conquista deste ano marca a redenção da centenária equipe de Graz, que apesar de toda a tradição e dona de umas das maiores torcidas da Áustria, esteve perto de fechar as portas no final da década passada, por conta de uma grave crise financeira.

O sofrimento ao longo dos anos de espera e a alegria por levantar a Bundesliga não foram pouca coisa. Fundado em 1909 – portanto, mais que centenário – o Sturm Graz conta com uma torcida de aproximadamente 360 mil pessoas, segundo o instituto alemão de pesquisas Sport + Markt. É verdade que ter conquistado a Copa da Áustria no ano passado amenizou um pouco a dor de ficar na fila, mas nada se compara à importância de faturar o campeonato nacional.

Muito dos méritos da conquista do Sturm são do seu técnico, o alemão Franco Foda que foi, com o perdão do trocadilho infalível, exatamente o que a leitura em português do seu sobrenome indica. No cargo desde 2006, Franco passou por temporadas complicadas e conviveu com a saída de importantes jogadores até formar o elenco que conquistaria o título, com sete estrangeiros – entre eles seu filho Sandro.

O alemão, inclusive, tem uma história estreita com o Sturm. Ainda como jogador, participou das duas conquistas do século passado. E a alegria pelo tricampeonato – o primeiro como treinador – foi tanta que permitiu que os próprios jogadores cortassem seu cabelo, como pagamento de promessa pelo título.

Depois dos 2 a 1 sobre o Wacker Innsbruck, vitória que garantiu o título na última rodada, Franco afirmou estar realizando um sonho e orgulhoso dos jogadores, “que se entregaram nas últimas semanas”. “Ninguém esperava que disputássemos o título. Os jogadores tiveram altos e baixos durante a temporada, mas no final merecemos ganhar o campeonato”, disse.

A consolidação da conquista da Bundesliga, aliás, não saiu sem emoção na UPC Arena (antigo estádio Arnold Schwarzenegger, nome do mais famoso cidadão de Graz, uma cidade de 252 mil habitantes, capital do Estado da Estíria). O Sturm contou com o apoio de 15,4 mil pessoas que lotaram as arquibancadas, muitas delas carregando réplicas em papel do prato que simboliza a conquista da Bundesliga. Houve até quem pintasse as sobrancelhas de preto e branco, as cores do time.

Quando Andreas Hölz abriu o placar para o Sturm aos 14 minutos, o caldeirão explodiu. A festa, porém, teve o ímpeto diminuído pouco tempo depois, aos 29’, quando Alex Hauser empatou para o time visitante. O resultado de igualdade – combinado ao empate entre Áustria Viena e Red Bull Salzburg – ia dando, ainda assim, o título aos alvinegros. Mas a apreensão da torcida aumentou no momento em que a equipe de Viena fez 2 a 1 sobre a de Salzburg, pois, àquela altura, bastaria sofrer um gol e o Sturm deixaria escapar a conquista.

A preocupação, no entanto, durou pouco: três minutos depois o Áustria Viena sofreria o empate. E quase ao mesmo tempo em que o Red Bull alcançava a virada e a segunda colocação, Samir Muratovic fazia, aos 39 minutos do segundo tempo, o gol derradeiro, da vitória do Sturm e de uma festa que as ruas de Graz vão demorar para esquecer.

E se Franco Foda foi fundamental para a conquista histórica, o mesmo vale para alguns jogadores. Um deles é o capitão Mario Haas, um dos principais ídolos da história recente do Sturm. O tamanho da idolatria da torcida pelo veterano jogador, de 36 anos de idade, pode ser medida pela presença dele em todos os títulos do campeonato nacional e da Copa da Áustria (1995/96, 1996/97, 1998/99 e 2009/10) que a equipe de Graz conquistou. Tanto que, apenas um dia antes da rodada final do Austríaco, o clube anunciou a renovação do contrato do “Super Mario”, como é conhecido, por mais um ano.

Outro é o atacante Roman Kienast, na equipe desde o ano passado. Foram dele 19 dos 66 gols marcados pelo Sturm, o melhor ataque da Bundesliga. Isso sem falar no goleiro Christian Gratzei, eleito o melhor jogador de sua posição no campeonato e responsável direto pelo Sturm ter a segunda melhor defesa da competição, com média de 0,9 gol sofrido por jogo.

A conquista do Sturm recoloca o time entre os principais do futebol austríaco. Resta saber, agora, se ele seguirá ocupando as primeiras colocações e brigando por títulos ou se a torcida voltará a sofrer nos próximos anos.

Na Suíça, deu Basel

Na Suíça, o campeonato nacional também é disputado em quatro turnos, com desgastantes 36 jogos para cada time, quatro vezes contra cada um dos adversários. E quem soube administrar melhor a maratona e manter a regularidade foi o Basel, campeão suíço pela 14.ª vez em sua história e pela segunda temporada consecutiva.

A regularidade apresentada pelo time da Basileia, aliás, é de botar inveja em qualquer equipe que dispute um campeonato de pontos corridos mundo afora. Afinal, foram vinte rodadas, ou seja, mais da metade da temporada, ocupando a primeira colocação – inclusive uma incrível sequência de 12 rodadas consecutivas na ponta, entre a 19.ª e 30ª.

É bem verdade que o Basel vacilou na reta final e quase viu o título escapar para seu grande rival. O Zürich assumiu a primeira posição na reta final, mas também bobeou e, três rodadas antes do término do campeonato, permitiu que o Basel se tornasse líder novamente.

A presença do atacante Alexander Frei, maior artilheiro da história da seleção suíça, ajuda a explicar um pouco a superioridade da equipe. Ele foi o autor de 27 dos 76 gols que fizeram do Basel o melhor ataque da Super League. Foi dele, inclusive, o gol que abriu caminho, logo aos oito minutos para a vitória sobre o Luzern por 3 a 0, na rodada de encerramento. Xherdan Shaqiri e Jacques Zoua Daogari marcaram os outros e levaram à loucura os 37,5 mil torcedores que lotaram o St. Jako-Park.

Se Frei tem grande parcela de responsabilidade no título do Basel, outra boa parte dos méritos pode ser dada ao técnico alemão Thorsten Fink, bicampeão nacional com o clube (também conquistou a Copa da Suíça da temporada passada). Quando as coisas apertaram, especialmente na 31.ª rodada com a perda da liderança devido à derrota para o Sion por 3 a 0, Fink conseguiu acalmar os ânimos dos jogadores e fazer com que eles seguissem jogando em busca da conquista. Deu certo.

“Minha equipe mostrou mais uma vez que tem bons nervos. Conseguimos encontrar o tão difícil equilíbrio”, exaltou o treinador, um dos que ergueu o troféu perante milhares de apaixonados torcedores no Barfüsserplatz, tradicional ponto de comemorações no centro da Basileia.

A questão emocional foi trabalhada por Fink durante todo o campeonato. Os jogadores ganharam grande motivação, por exemplo, com a boa campanha na fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa, terminando em terceiro lugar no grupo com direito à vitória sobre a Roma em pleno estádio Olímpico.

Outro ponto forte do time foi o goleiro argentino Franco Constanzo. Símbolo de garra e determinação e ídolo da torcida, Constanzo encerrou seu ciclo de cinco anos no Basel justamente ao final da temporada, após mais de 200 jogos pelo clube. No jogo decisivo, foi substituído poucos momentos antes do final da partida e ovacionado por todo o estádio.

“Fico feliz e sem palavras com esses incríveis torcedores. É difícil sair do Basel. É algo que você não vai encontrar em qualquer outro lugar do mundo”, disse o goleiro, ponto de referência da segunda melhor defesa do Campeonato Suíço, com 1,3 gol sofrido por jogo, em média.

Na próxima temporada, o Basel tentará chegar pela primeira vez em sua história ao tricampeonato consecutivo. E se o Zürich (clube com o qual vem dominando a Super League há oito anos) não abrir os olhos, isso de fato tem grandes chances de ocorrer. Basta lembrar que na temporada recém-encerrada, a diferença entre eles chegou a ser de dez pontos favorável ao time da Basileia, sem dúvida, o dono da bola na Suíça.

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Equipe Trivela

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