Europa

Sneijder + Drogba: os sinais de uma nova era no Galatasaray

Didier Drogba, artilheiro do Chelsea em 2011/12, e Wesley Sneijder, maestro da Internazionale em 2009/10. Exceção feita a Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, o Galatasaray foi atrás dos protagonistas das últimas Ligas dos Campeões. E só não tirou Kaká, craque do Milan de 2006/07, porque as negociações com o Real Madrid emperraram. Sinais de um projeto ambicioso no ano em que os turcos comemoram o retorno aos mata-matas da competição continental após 11 anos de ausência.

Drogba e Sneijder podem não estar no auge, mas as transferências surpreendem por levar dois jogadores ainda cobiçados por grandes clubes a uma liga nacional de segundo escalão. O Cim Bom tirou proveito da situação de litígio dos craques com suas antigas equipes, economizando no valor das transações – pagou € 7,5 milhões à Inter e nada ao Shanghai Shenhua – para compensar em grandes salários.

Em ambos os acordos, a diretoria ofereceu € 6 milhões neste semestre, dos quais € 4 milhões são pela assinatura. Por temporada, Drogba receberá € 4 milhões mais € 15 mil a cada jogo, enquanto Sneijder ganhará € 3,2 milhões mais € 25 mil por jogo. Outro atrativo foram os impostos de 15% cobrados na Turquia, mínimos diante dos 50% aplicados em média por Alemanha, França, Inglaterra e Itália.

As contratações, no fim, acabam refletindo a virada vivida pelo Galatasaray a partir de 2011. Depois de fazer sua segunda pior campanha na história do Campeonato Turco, o clube adiantou as eleições presidenciais e elegeu Ünal Aysal, empresário que tinha a retomada da importância do time no continente como uma das principais plataformas. Agora, um ano e meio depois da posse, com a repercussão gerada nesta semana, fica difícil questionar o sucesso da empreitada.

Projeto sólido

O primeiro acerto de Aysal foi levar o técnico Fatih Terim, dono de quatro títulos nacionais e de uma Copa da Uefa em sua primeira passagem pelo clube, entre 1996 e 2000. Idolatrado pela torcida, o treinador montou uma comissão técnica com conhecimento sobre o ambiente do clube: Hasan Sas, Umit Davala e Taffarel, todos dirigidos por Terim quando jogadores. E o comandante ainda teve o contexto a seu favor, com o Galatasaray sendo o único dos grandes clubes do país a sair ileso de escândalo de manipulação de resultados, dando tranquilidade para o início de seu trabalho.]

Terim, Davala, Sas e Taffarel, todos campeões da Copa da Uefa 99/00
Terim, Davala, Sas e Taffarel, todos campeões da Copa da Uefa 99/00

Já no mercado de transferências, o Cim Bom mudou seu perfil. Investindo € 23,8 milhões, tanto quanto na temporada anterior, o clube deixou de apostar em destaques de ligas obscuras para buscar jogadores de renome internacional e revelações do próprio Campeonato Turco. Além disso, a equipe passou a tirar proveito de seu novo estádio, a Türk Telecom Arena, inaugurado em 2011 e que não tinha garantido bons resultados em seus primeiros meses de utilização. A soma dos fatores não poderia gerar resultado melhor, com o primeiro título da Süper Lig em quatro anos.

Para 2012/13, Terim foi ao mercado apostando novamente em jogadores que vinham de bons desempenhos no Campeonato Turco – a exceção foi Hamit Altintop. Os resultados positivos outra vez foram obtidos, com a manutenção da liderança na liga e a classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões. E os milhões injetados nas contas do clube pelos desempenhos permitiram sonhos maiores.

A fonte do dinheiro

Segundo a consultoria Deloitte, o Galatasaray teve rendimentos de € 95,1 milhões em 2012, ficando entre os 30 clubes com maiores receitas do mundo. Sem um magnata que banque suas contas, o clube tem suas finanças impulsionadas por um modelo de gestão sustentável, apostando principalmente em ações junto à torcida, estimada em 20 milhões de pessoas e famosa por seu fanatismo – como ficou provado na apresentação de Sneijder.

A maior parte do faturamento veio das bilheterias da Türk Telecom Arena, que renderam € 37,8 milhões em 2011/12 – em média de 33,5 mil espectadores por jogo, com ocupação de 63,6% das arquibancadas. Os direitos de TV também representam fatia considerável do lucro, totalizando € 27,3 milhões.

No entanto, outras fontes de receita têm se potencializado. As vendas nas lojas oficiais cresceram 250% entre abril de 2011 e abril de 2012, enquanto o número de patrocinadores subiu de 10 para 13 nesta temporada. As boas campanhas em campo também ajudam nas expectativas financeiras: foram embolsados € 15,3 milhões pelo último título turco e, até o momento, € 14,6 milhões pela campanha nesta Liga dos Campeões.

Falta o encaixe

O objetivo imediato do Galatasaray, contudo, está longe dos balanços financeiros. A principal missão de Fatih Terim será encontrar um esquema tático que equilibre o talento de suas estrelas com as qualidades do restante do elenco. Nesta temporada, o clube foi escalado no 4-4-2 em todas as partidas na Süper Lig e na Liga dos Campeões, com linhas de defesa e meio-campo bem definidas, além de dois jogadores de maior presença física no ataque.

A maior interrogação fica sobre o posicionamento de Sneijder. Em sua estreia, o holandês substituiu Emre Çolak, que costuma a atuar aberto pelo lado esquerdo do meio de campo. O mais provável, no entanto, é que Terim opte pelo 4-3-1-2 utilizado nas duas partidas da Copa da Turquia – com Felipe Melo, Selçuk Inan, Emre Çolak e Hamit Altintop disputam as três posições no resguardo do armador – ou adote o 4-4-1-1.

Duas possibilidades ao Cim Bom: 4-3-1-2 ou 4-4-1-1

Já Drogba não deve ter problemas para se encaixar no sistema utilizado pelos Aslanlar, embora tenha concorrência na posição. O ataque é o setor mais bem servido do elenco, com Umut Bulut, Johan Elmander e Burak Yilmaz, artilheiro da Champions, se revezando na posição. Porém, ninguém com moral suficiente para fazer frente ao marfinense.

E a ideia é fazer o time funcionar rapidamente. O primeiro jogo do Galatasaray pelas oitavas de final da Liga dos Campeões acontece já no dia 20 de fevereiro, em Istambul. Ao menos o adversário, o Schalke 04, não é dos mais temíveis. Uma boa oportunidade para colocar à prova o potencial do time e tentar faturar mais € 3,9 milhões pela classificação às quartas. Afinal, uma boa campanha continental também é vital para que a diretoria pague os gastos as estrelas e equilibre suas contas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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