Europa

Shakhtar cobra € 50 milhões da Fifa, após decisão que teria interrompido vendas de jogadores estrangeiros

A Fifa permitiu que jogadores estrangeiros em clubes ucranianos e russos suspendessem unilateralmente seus contratos a partir de 30 de junho e assinassem com outros clubes para a temporada 2022/23

O Shakhtar Donetsk está cobrando € 50 milhões de indenização da Fifa e entrou com um processo na Corte Arbitral do Esporte contra uma decisão da entidade que permite que jogadores e treinadores estrangeiros suspendam seus contratos com clubes ucranianos a partir de 30 de junho para a temporada 2022/23. A decisão, que também vale para agremiações russas, ampliou a exceção que a entidade havia aberto em março para 2021/22 por causa da guerra na Ucrânia.

Se por um lado a Fifa tem a responsabilidade de preservar a segurança dos jogadores, e permitir que eles decidam seguir a carreira longe de uma zona de guerra, a maneira como a a decisão foi tomada desagradou o Shakhtar Donetsk, que tinha 14 jogadores estrangeiros em seu elenco e estava negociando taxas de transferências para vendê-los. Segundo o The Athletic e a BBC, dois exemplos práticos são Manor Solomon, que deve defender o Fulham, e o brasileiro Tetê, que acertou sua permanência no Lyon por mais um ano após um empréstimo provisório.

A decisão foi anunciada em 21 de junho, cerca de uma semana antes do prazo estabelecido pela Fifa. Isso não deu muito tempo para o CEO do Shakhtar Donetsk, Sergei Palkin, negociar e concretizar uma dúzia de transferências. E de qualquer maneira, a disposição de gastar dinheiro dos clubes interessados ficou muito menor quando eles descobriram que poderiam contratar aqueles jogadores de graça se tivessem um pouquinho de paciência.

Os negócios são oficialmente empréstimos de uma temporada, o que significa que os jogadores podem voltar ao Shakhtar Donetsk daqui a um ano, mas temos dois problemas. Como nos casos de Solomon e Tetê, eles retornariam a seis meses do fim dos seus vínculos, o que praticamente inviabiliza a negociação por uma taxa de transferência considerável. Além disso, o Shakhtar e seus colegas ucranianos precisam imediatamente de receitas para pagar as contas e, com o Campeonato Ucraniano paralisado, a venda de jogadores é uma das únicas vias restantes.

Em uma carta à Corte Arbitral do Esporte vista pela BBC e pelo The Athletic, o Shakhtar calcula que perdeu € 50 milhões que receberia pela transferência de quatro jogadores estrangeiros e também está recorrendo da decisão da Fifa de permitir a suspensão dos contratos. “Todo mundo acredita que somos uma família do futebol. Essa decisão simplesmente cancelou esse slogan. Não somos uma família do futebol porque ninguém se importa com clubes ucranianos. É uma grande pena. A Fifa não se importa conosco”, disse Palkin, ao The Athletic.

Palkin afirma que teria ficado satisfeito se a decisão fosse anunciada para agosto, porque teria mais de um mês para negociar as transferências, e acredita que vários jogadores estrangeiros já tem acordos fechados que serão anunciados no próximo mês. Segundo ele, a Fifa mentiu ao dizer que havia consultado todas as partes envolvidas antes de tomar a sua decisão, porque nenhum grande clube da Ucrânia, nem a Federação Ucraniana, participou dessa conversa. Ele também está especialmente irritado com a dificuldade para acessar dirigentes da Fifa para discutir a situação.

Em contato com o The Athletic, um porta-voz da Fifa disse que esteve em “contato regular com personagens chaves da Ucrânia e do futebol global” e que a decisão é o “resultado de várias reuniões, especificamente com o envolvimento da Associação dos Clubes Europeus, o órgão independente que representa diretamente os clubes de futebol europeus”. No entanto, segundo Palkin e fontes da ECA ouvidas pelo The Athletic, a Fifa apresentou a sua decisão como fato concebida à ECA, em vez de abrir uma conversa. A Fifa não respondeu quem ela consultou no futebol ucraniano.

“Eu leio que a Fifa disse que comunicou com os principais personagens envolvidos. Não é verdade. Completamente não é verdade. Eles não se comunicaram com a Federação Ucraniana de Futebol. Não se comunicaram com os grandes clubes ucranianos. Eles tomaram uma decisão completamente sem nosso envolvimento. Eles não consideraram que precisavam entrar em contato com esses clubes. Nesta guerra, todos apoiam a Ucrânia e as organizações ucranianas. Então como é possível que a Fifa, o órgão dizendo ‘somos uma família do futebol’, não tenha prestado atenção a nós?”, disse Palkin.

O dirigente disse que estava negociando uma transferência de € 7,5 milhões por Solomon, quando o Fulham simplesmente pulou fora, e calcula que levaria cerca de € 20 milhões por Tetê. “Como é possível me darem uma semana para fechar negócios com 14 jogadores estrangeiros? Quando você está lidando com clubes, jogadores a gentes. É técnica e fisicamente impossível fazer tudo isso em uma semana. É uma decisão ridícula, mas quando a Fifa emitiu a decisão, em dois dias, perdemos acordos diretos de no mínimo € 26 milhões”, contou.

“Nós estávamos quase trocando contratos (com o Fulham) e fechamos tudo, mas quando a Fifa anunciou a decisão, eles nos enviaram um e-mail dizendo que por causa da decisão da Fifa estavam retirando nossos contratos e condições e tudo e levariam o jogador. Não há absolutamente nada que podemos fazer para impedir. Ele assinou contrato com eles e é um jogador do Fulham. Ficou brutal. Todos eles retiraram suas propostas e condições e é isso. Eu entendo o clube. Por um lado, você pode levar um jogador de graça, e por outro lado, tem que pagar € 10 milhões ou € 20 milhões por ele. O que você escolhe? Você leva de graça. É completamente culpa da Fifa”, acrescentou.

E sabe quem pode se dar muito bem com isso? “O outro fato é que a decisão deixará os empresários muito mais ricos. Você não imagina quanto dinheiro eles podem receber por essa decisão. Tudo que nós receberíamos, quase tudo, pode em vez disso ir para os agentes. Quando a Fifa emitiu a decisão, (ouvi que) agentes estavam dizendo aos clubes ‘pague para nós 70/80 por cento do que estão propondo e fechamos esse acordo’. Acho que eles vão receber bastante dinheiro”, encerrou Palkin.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo