Futebol europeu

‘Completamente diferente’: Como Jorge Jesus pode transformar a seleção portuguesa

Técnico português assume maior desafio da carreira com objetivo de renovação, tratar situação de Cristiano Ronaldo e potencializar jogadores

Para Portugal, ter caído nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 para a Espanha, que seria campeã mundial, em um jogo parelho, não deveria ser vergonha nenhuma. A questão é como a trajetória dos portugueses foi truncada e de quase nenhum brilho sob o comando de Roberto Martínez. A federação local, após esse fracasso, já sabendo que trocaria de técnico, escolheu Jorge Jesus como substituto.

O experiente treinador, conhecido no Brasil pelo sucesso que teve no Flamengo, ganha a maior oportunidade da carreira com o objetivo de uma transição na seleção lusa. Dá para dizer que o último Mundial foi a chance da melhor geração portuguesa da história recente se consagrar junto de Cristiano Ronaldo, aos 41 anos.

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A primeira convocação de JJ, porém, não trouxe muitas novidades em relação à lista da Copa. Apenas quatro nomes diferentes foram chamados: o goleiro Samuel Soares, o lateral-esquerdo Nuno Tavares, o meio-campista João Palhinha e o atacante Fábio Silva.

No restante, a base está mantida. Jesus argumentou que conhece boa parte deles — treinou diretamente 13 jogadores por clubes –, usou o bom momento para chamá-los e também à adaptação tática ao novo estilo de jogo, o qual definiu como “completamente diferente” ao de Martínez.

CR7, pelo menos por enquanto, continua como parte do projeto. Entre aspectos táticos, Cristiano, jovens e o futuro na Copa do Mundo de 2030, entenda o que esperar da seleção portuguesa com Jorge Jesus.

Primeira convocação de Jorge Jesus na seleção portuguesa

  • Goleiros: Diogo Costa (Porto), Rui Silva (Sporting) e Samuel Soares (Benfica);
  • Defensores: João Cancelo (Barcelona), Diogo Dalot (Manchester United), Rúben Dias (Manchester City), Tomás Araújo (Benfica), Renato Veiga (Villarreal), Gonçalo Inácio (Sporting), Nuno Mendes (PSG) e Nuno Tavares (Lazio);
  • Meio-campistas: João Palhinha (Benfica), Rúben Neves (Al-Hilal), Vitinha (PSG), João Neves (PSG), Bernardo Silva (Real Madrid) e Bruno Fernandes (Manchester United);
  • Atacantes: Francisco Conceição (Juventus), Francisco Trincão (Al-Ahli), Rafael Leão (Galatasaray), Pedro Neto (Chelsea), João Félix (Al-Nassr), Cristiano Ronaldo (Al-Nassr), Gonçalo Ramos (Milan) e Fábio Silva (Borussia Dortmund).

Jorge Jesus e Roberto Martínez realmente pensam diferente

As coincidências nas listas têm mais a ver com a convocação para a Copa ter sido justa para os melhores jogadores do que com uma possível proximidade em forma de pensar dos treinadores. Roberto Martínez, espanhol, vem de uma escola do jogo posicional, com funções mais fixas.

Isso ficou evidente no Mundial, tendo sido uma das grandes críticas a pouca liberdade que os jogadores tinham — em especial Vitinha e João Neves, dupla que brilha em um PSG muito móvel, apesar de adepto à mesma filosofia de Martínez. Foi um time muitas vezes estatístico com a bola, sem mobilidade nos atletas sem a posse.

Jorge Jesus, no entanto, pensa de outra forma. “Ele tinha uma ideia e eu tenho outra completamente diferente, independentemente de olharmos para as características de cada jogador”, disse na entrevista coletiva que anunciou a convocação.

— [Para a convocação] Olhei para a qualidade dos jogadores, para os que estiveram no Mundial e para os que não estiveram no Mundial. Olhei para as características deles e para a ideia de jogo que queremos para a seleção. Foi por aí que me guiei — completou.

JJ, como visto no Brasil, é um técnico que não possui tantas amarras posicionais. Permite um jogo mais fluido, com aproximações no setor da bola e com menos obrigações de ocupação dos espaços. Também tem uma preferência clara por um esquema com dupla de ataque em vez do 4-3-3/4-2-3-1 que vinha sendo usado.

Ele se mostrou aberto a usar Rafael Leão, João Félix e Francisco Trincão nessas funções, além, claro, de Cristiano Ronaldo e Bruno Fernandes.

Félix, inclusive, retomou a boa fase na carreira com Jesus na Arábia Saudita e recebeu a confiança de seu técnico. “O João vai ser sempre um segundo atacante e um centroavante. Com o tempo, vai ser um camisa 9, não tenho dúvidas nenhuma. Tem capacidade de finalização e criação, no espaço dele, com muita qualidade”.

Jorge Jesus e João Félix
Jorge Jesus e João Félix (Foto: IMAGO / VCG)

No meio-campo, recheado de opções, o experiente treinador deu outra pista. Assumiu a necessidade de um meio-campista “mais posicional”, que “tem de ter um conhecimento do jogo nas duas fases, ofensiva e defensivamente” e “muita responsabilidade taticamente em relação ao que penso”. Nesse quesito, entram Vitinha, Rúben Neves e João Palhinha.

No aspecto defensivo, a intensidade deve ser um princípio básico, como mostraram todas as equipes de Jesus em mais de 30 anos de carreira à beira do campo. Ele sabe que tem menos tempo e precisa ser ágil.

— A consciência que tenho é que tenho de acelerar o processo para que os jogadores possam identificar mais facilmente o que quero. Acelerar o processo tem vários componentes, não só treino de campo, mas também na sala. Acredito muito na inteligência e na qualidade dos jogadores, eles também têm de resolver por eles as situações que acontecem no jogo.

Cristiano Ronaldo não tem status garantido na seleção portuguesa

Ao fim da última Copa, Cristiano Ronaldo disse que seria seu último Mundial. Isso, porém, ainda não significou sua aposentadoria da seleção portuguesa. Ele foi novamente convocado, mas Jorge Jesus garantiu que sua titularidade não terá a ver com sua história como jogador — apesar de assumir que o atacante é diferente.

— O desempenho dele no passado não conta, conta em termos de todo o histórico que ele tem. O desempenho dele (atual) e o de todos que vão me dizer quais decisões tenho de tomar nos jogos e nos treinos. O Cris é um jogador como todos os outros. Se tem rendimento, joga. Se não tem rendimento, não joga — cravou.

— Claro que Cris tem um status diferente, tem cinco bolas de ouro. Mas isso conta para minhas decisões? Não. Mas é diferente dos outros — completou.

O maior português de todos os tempos teve sua posição questionada na Copa. Obviamente, não entregava nada no jogo defensivo, mas também não participava ofensivamente, nem concluía as raras chances que recebia. Quem sabe, melhor municiado, pode voltar a entregar em grandes palcos (entre os Mundiais de 2022 e 2026 e a Eurocopa de 2024, só marcou quatro vezes).

Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo em jogo do Al-Nassr
Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo em jogo do Al-Nassr (Foto: IMAGO / Nexpher Images)

E na Copa do Mundo 2030?

A convocação de continuação de Jesus parece uma tentativa de chegar forte no ciclo para a Euro 2028, disputada no Reino Unido e na Irlanda. No entanto, é possível imaginar a renovação de alguns nomes com o passar do tempo até um fim de ciclo definitivo, visando à Copa de 2030.

Daqui a quatro anos, provavelmente sem CR7, há dúvidas de como estarão física e tecnicamente Bruno Fernandes (31 anos atualmente), Bernardo Silva (31), Rúben Dias (29), Rúben Neves (29) e João Cancelo (32). Todos eles, pilares de Portugal e a cara desse grupo muito talentoso.

Jorge Jesus tem estado em contato com a seleção sub-21 sobre as jovens promessas de Portugal. “Este momento ainda não é a oportunidade deles”. Ele deu uma pista de que já pensa em 2030 em uma das respostas, imaginando que jogadores acima dos 30 podem não ter as mesmas oportunidades.

— Dos quatro novos jogadores convocados, três estão na faixa dos 20 e poucos anos. Quer dizer que em 2030 ainda são atletas que ainda não chegaram aos 30 anos, são jogadores de presente e futuro — disse ao falar das novidades na lista.

É um novo momento para a seleção portuguesa. Continua com craques do futebol europeu, mas com caminhos trilhados para o fim desse sucesso até 2030. Jorge Jesus terá a grande missão de encontrar possíveis novas referências técnicas enquanto escolherá quem dos experientes continuarão.

O técnico estreia no comando de seu país nesta quinta-feira (24), quando recebe País de Gales pela Nations League. Ainda serão mais três partidas pela competição até o fim da Data Fifa (Noruega duas vezes e Dinamarca).

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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