Europa

Savicevic, 50 anos: o talento indomável que destruiu o Time dos Sonhos

Fabio Capello não tinha muita opção. Jean-Pierre Papin estava machucado. Van Basten desfrutava do seu sabático. Gianluigi Lentini estava recuperado do acidente de carro que sofreu, mas ainda não estava totalmente em forma. O adversário era apenas o Dream Team do Barcelona, comandado por Johan Cruyff. O técnico italiano teve que recorrer para um talentoso montenegrino que se recusava a se enquadrar e com quem já havia tido mais de um arranca-rabo: Dejan Savicevic, que completa 50 anos nesta quinta-feira.

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Savicevic brilhou pelo Estrela Vermelha antes de ser uma contratação badalada de Silvio Berlusconi. Jogou quatro temporadas no clube sérvio, com três títulos iugoslavos e uma incrível conquista da Copa dos Campeões, batendo o Bayern de Munique, na semifinal, e o forte Olympique Marseille na decisão. Ainda em 1991, ganhou o Mundial de Clubes, em cima do Colo-Colo, e foi segundo colocado na Bola de Ouro, atrás de Papin, do Marseille.

Aos 26 anos, era um meia cheio de talento, visão de jogo e passe apurado, aparentemente pronto para dar um passo à frente na carreira em um gigante europeu como o Milan. Foi por isso que Berlusconi desembolsou € 7,5 milhões para contratá-lo, quantia alta em 1992. O recorde de transferência, naquela época, pertencia a Lentini (€ 13 milhões), outro jogador rossonero.

No entanto, seu estilo de jogo não era muito compatível com os pensamentos de Fabio Capello, que preferia uma equipe mais rígida. Exigia um alto índice de esforço e dedicação à marcação mesmo de seus maiores talentos. E Savicevic sofreu para se adaptar. Na realidade, sofreu porque não conseguiu se adaptar (ou não quis). Disputou apenas 13 jogos na sua primeira temporada (10 na Serie A e três na Copa dos Campeões) e marcou apenas quatro vezes.

Vale lembrar que ainda havia limitação de três estrangeiros por equipe na Itália – a Lei Bosman viria apenas três anos depois -, e o Milan tinha seu trio de holandeses, formado por Rijkaard, Gullit e Van Basten, além de Papin. Savicevic estava em quinto lugar nessa ordem de preferência específica de Capello. Por isso, foi natural que ele ganhasse mais espaço na temporada seguinte (1993/94), quando Van Basten tirou um ano sabático para tentar se recuperar de seus problemas físicos, e Rijkaard e Gullit foram embora.

O acidente de Lentini deixou Capello com ainda menos opções e também houve uma ordem de cima. “Sem Berlusconi, (minha passagem pelo Milan) teria terminado rapidamente”, disse Savicevic à Gazzetta dello Sport. “Depois do primeiro ano, toda a equipe técnica era contra mim. Diziam que eu não havia me integrado, que não falava a língua. Mas Berlusconi disse: ‘fica’. Depois disso, Capello me fez jogar sempre”.

Sempre é um exagero do montenegrino. Em sua segunda temporada, Savicevic atuou 29 vezes e marcou apenas três gols, nenhum na Serie A. Mas realmente ganhou mais espaço. A ponto de ser titular nas semifinais da Copa dos Campeões, contra o Monaco, e na grande final diante do Barcelona de Cruyff, Stoichkov, Romário e companhia.

Os desfalques foram decisivos na sua escalação para o jogo do Estádio Olímpico de Atenas. Capello teve problemas até na defesa (Baresi e Costacurta estavam suspenso). Jogaram os jovens Maldini e Panucci, com Tassotti e Filippo Galli. O italiano chegou a testar Desailly na zaga, mas desistiu e o manteve no meio-campo, ao lado de Albertini, Donadoni e Boban, mais pela esquerda. O experiente Massaro foi escalado no comando de ataque, à frente de Savicevic. Gabriele Marcotti, autor da biografia Capello: o retrato de um vencedor, explica exatamente por que Capello depositou confiança no seu indolente meia, logo em um jogo tão importante.

“Depois de passar dezoito meses tentando fazer Savicevic treinar e correr tanto quanto os outros, eles (comissão técnica) entenderam que foi em vão. Algumas coisas ele simplesmente não conseguia fazer ou não queria fazer. Quando eles tinham Van Basten ou Papin (foi desfalque na final europeia de 1994 por lesão), ou até mesmo Lentini totalmente em forma, podiam ser linha dura com ele, porque havia alternativas. Mas, em janeiro daquele ano, o retorno de Van Basten não estava no horizonte, Papin continuava machucando-se, e Lentini, mesmo recuperado, ainda precisava de ritmo de jogo (e, segundo alguns, de mais vontade). O Milan precisava de qualidade e da habilidade de romper as defesas adversárias, algo que Savicevic poderia fornecer, mesmo que o custo fosse o índice de trabalho e o coletivo que Capello pregava.

‘Sem dúvidas, Savicevic é o jogador com quem eu mais tive discussões’, disse Capello, em uma entrevista, anos depois. ‘Ele praticamente não treinava, praticamente não trabalhava. E, quando estava em campo, todo mundo tinha que trabalhar em dobro para compensá-lo. Mas era um talento excepcional. E nós o transformamos em uma super-estrela’.

Essa era outra diferença entre Capello e seu antecessor (Arrigo Sacchi). É improvável que Savicevic chegasse perto do time titular do Milan na época em que Sacchi era o treinador. Mas Capello – caso você ainda não tenha percebido – é um pragmático. Ele redesenhou o Milan para encaixar este jogador, pedindo que todos seus outros homens trabalhassem mais duro para que Il Genio fizesse seu jogo”.

Ele fez. E como fez. No que foi uma das melhores atuações individuais em uma final europeia, Savicevic, na verdade, só não fez chover. Foi absurdo o que ele jogou. Logo aos 22 minutos, arrancou pela direita e deixou Massaro livre para abrir o placar. Puxou a marcação de três jogadores no segundo gol e marcou o seu próprio, no começo do segundo tempo, encobrindo Zubizarreta a partir da ponta direita. Ainda colocou uma bola na trave antes de Desailly fechar o caixão. Como escreveu Marcotti, depois de uma temporada de problemas, Capello “soltou-o no maior jogo de todos, dando-lhe total licença para fazer o que quisesse”.

Não serviu para mudar totalmente sua lógica dentro do elenco do Milan. Em suas quatro temporadas restantes (três com Capello, meia com Óscar Tabárez e meia com Arrigo Sacchi, com quem seria “improvável” que ele fosse titular), continuou sendo pouco utilizado. Foi 27 vezes titular em 1994/95, 26 em 1995/96, 15 em 1996/97 e oito na sua última temporada em Milão. Só uma vez passou dos dez gols (1994/95, quando fez 11). Mas e daí? Sua atuação contra um dos melhores times da história nunca será esquecida.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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