Europa

Saindo de cena

Foi-se o tempo no qual o AEK era, sem pestanejar, uma das três grandes forças do futebol grego. Os Dikefalos não desfrutam do protagonismo há algum tempo e, pelo desempenho recente, isso não irá acontecer em breve. A última notícia que traz incertezas ao clube ateniense foi o pedido de demissão de Dusan Bajevic, um dos técnicos mais vitoriosos da história dos aurinegros, que estava em sua terceira passagem pelo banco de reservas.

Na última coluna, é verdade, exaltamos o desempenho do AEK na Liga Europa. Apesar de atuar de maneira arriscada, atacando muito e se expondo a contra-ataques, a equipe venceu o encontro diante do Hajduk Split. O jogo de arbitragem confusa terminou com vitória de 3 a 1 dos gregos, que ainda desperdiçaram um pênalti quando o confronto ainda estava empatado.

Pois bem. Se a vitória na Liga Europa, ocorrida depois de um trunfo contra o Panserraikos, deu novo ânimo ao time, os resultados na Super League que viriam na sequência o desestabilizaram ainda mais. Primeiro veio o empate em casa contra o Asteras Tripolis por 2 a 2. E o resultado contra o time que está na metade inferior da tabela poderia ser ainda pior, não fossem os gols salvadores de Djebbour e Ignácio Scocco, marcados nos últimos dez minutos de partida. Já neste final de semana, o revés contra o ascendente Olympiakos Volos conseguiu piorar o clima.

Os Dikefalos foram inoperantes durante todo o primeiro tempo da partida. Além de levar um gol de Sankaré, o time da capital sofreu várias investidas nos 45 minutos iniciais. Depois do intervalo, conseguiu levar algum perigo e até marcou um tento com Liberopoulos, mas não tardaram a sucumbir. A defesa, sem velocidade alguma para acompanhar a linha atacante adversária, já tinha sinalizado qual era o caminho do ouro. Nos últimos minutos, os atenienses permitiram dois gols do Olympiacos Volos. Revoltados, os torcedores arremessaram objetos em campo ao apito final.

Dusan Bajevic percebeu que o seu terceiro trabalho no AEK estava encerrado. Sem clima desde a pré-temporada, quando foi agredido por torcedores e bancado pela diretoria, o treinador pediu para sair. Vivia mais de seu passado, quando fora tetracampeão nacional no início dos anos noventa, do que do presente. Nas últimas duas temporada em que comandou o clube, perdeu o posto de terceiro time grego para o PAOK e não conseguiu a classificação para a Champions League via playoffs.

Pode-se dizer até mesmo que Dusan Bajevic demorou a pedir o chapéu. Desde a sua segunda passagem no clube, não tinha tanta simpatia da parte mais fanática da torcida. Tudo porque, enquanto o time vivia uma sequência de títulos, o comandante foi para o rival Olympiacos, iniciando uma verdadeira dinastia no Campeonato Grego. Sem apoio desde a pré-temporada, só conseguiria evitar a pressão se implantasse uma verdadeira revolução na equipe.

Os próprios jogadores também aparentavam o desgaste com Bajevic. Ismael Blanco e Leonardo, tidos com potenciais estrelas, não renderam o esperado nos encontros mais recentes. E o treinador, famoso por ter lançado para o futebol boa parte dos gregos campeões na Euro 2004, deixou de lado a aposta em jovens jogadores. Exceção feita a Konstantinos Manolas, o sérvio não apresentou mais nenhuma nova promessa nas últimas duas temporadas.

O problema do clube, no entanto, é muito mais intenso do que um desprestígio técnico. Desde que o ex-jogador Demis Nikolaidis deixou a presidência do AEK, o departamento de futebol sofre uma grande ingerência. Se Nikolaidis colocou as finanças em ordem e deu lucros na casa de 16 milhões de euros, em contrapartida, os administradores seguintes acabaram abandonados pelos acionistas. E sem um magnata patrocinando contratações e salários, como acontece com Panathinaikos e Olympiacos, não é possível se equiparar aos rivais.

Stravos Adamidis, atual presidente dos Dikefalos, ainda procura uma solução para as questões econômicas do clube. Mas seu maior medo, por enquanto, é que a saída de Bajevic agrave ainda mais a situação em curto prazo. Nos próximos dias, Bledar Kola ainda fica interinamente no comando da equipe. Já são especulados, entretanto, os primeiros candidatos a salvadores do AEK.

Os principais nomes são espanhóis. Manolo Jiménez, Marcelino Toral e Juan Ramón López Muñiz foram alguns dos citados, assim como o italiano Roberto Donadoni. Mas, segundo a imprensa grega, duas reuniões decidiram quatro alvos primordiais: o argentino Diego Simeone, o português Paulo Sousa, o croata Slaven Bili? e o já mencionado Manolo Jiménez.

Jiménez, aliás, aparece com um perfil ideal para se encaixar no AEK. Jovem, fez sucesso nas últimas temporadas no comando do Sevilla, mas acabou demitido depois de acumular algumas derrotas no início deste ano. Sua principal qualidade, porém, é quanto à descoberta de jovens talentos. Nos sete anos em que permaneceu no Sevilla B, ajudou a projetar, dentre outros, Sergio Ramos e Jesus Navas. Fazendo trabalho parecido em Atenas, poderia não apenas trazer alternativas ao elenco, como também fazer o clube lucrar com a venda de hot prospects.

Por enquanto, o técnico que assumir o time terá que lidar com um elenco experiente, mas sem tanta energia. Dellas, Kafes, Liberopoulos e Bouba Diop já tiveram destaque internacional e agora se preparam para encerrarem as suas carreiras. Os brasileiros Leonardo e Roger Guerreiro, além do argentino Ismael Blanco, estariam no auge de suas formas físicas, mas ainda não fizeram por merecer alguma consideração. Para salvar a reputação, apenas Ignácio Scocco e Rafik Djebbour, oásis nos primeiros jogos da temporada.

Com tantas dores de cabeça, é possível entender por quê Dusan Bajevic não segurou a bomba. Quem chegar, além de solucionar as questões técnicas, terá que saber como reconstruir o elenco e driblar a escassez de recursos financeiros. Será preciso um trabalho hercúleo para evitar outra temporada frustrante do AEK. E muito mais do que isto para recolocar o clube novamente no topo do futebol grego.

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Equipe Trivela

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