Europa

Esses são os motivos para a Rússia tirar cada vez mais os talentos do futebol brasileiro

Premier League Russa conta com 29 brasileiros registrados na atual temporada; nenhum outro país estrangeiro tem tantos jogadores na liga

A Rússia continua sendo um destino popular — e, surpreendentemente, em expansão — para jogadores brasileiros, mesmo sob sanções internacionais e excluída das principais competições da Uefa desde o início da guerra contra a Ucrânia, em 2022.

Na temporada 2020/21, eram 11 atletas brazucas atuando na Premier League Russa, segundo o “Transfermarkt”. Em 2022/23, esse número subiu para 21.

Na atual temporada, até a publicação desta matéria, a liga conta com 29 brasileiros registrados em dez times diferentes — um dos maiores contingentes dos últimos anos, representando um aumento de 163% em cinco anos.

Em plena contração global do futebol russo, o fluxo verde-amarelo não somente resistiu, como cresceu. E promete não parar por aí. Recentemente, o Zenit, considerado um dos maiores clubes do país, demonstrou interesse em mais três brazucas, são eles: Kaio Jorge, atacante do Cruzeiro, Kaiki, lateral-esquerdo do Cruzeiro, e Riquelme Fillipi, atacante do Palmeiras.

O isolamento geopolítico da Rússia provocou uma verdadeira debandada de atletas estrangeiros. Se na temporada 2021/22, que terminou em maio de 2022 — três meses após a guerra na Ucrânia ser iniciada —, o Campeonato Russo chegou a registrar 157 estrangeiros (sem contar brasileiros), na temporada seguinte (2022/23) esse número caiu para 138, refletindo a saída de jogadores motivada pelas incertezas políticas e restrições internacionais.

Ainda assim, a Premier League Russa conseguiu manter uma atratividade particular para os brasileiros — seja pela estabilidade contratual, a remuneração em euro, ou pelo papel de destaque que muitos jogadores assumem rapidamente nas equipes.

Casos como o de Malcom, que brilhou no Zenit antes de se transferir por cifras milionárias para o Al-Hilal, da Arábia Saudita, ajudam a explicar tal tendência. Mais recentemente, nomes como Nino (do Fluminense para o Zenit), Luiz Henrique (do Botafogo para o Zenit) e Bitello (do Grêmio para o Dínamo Moscou) seguem essa trilha, reforçando o elo duradouro entre o futebol brasileiro e os clubes russos — ainda que em tempos de guerra, sanções e restrições diplomáticas e esportivas.

Nino, zagueiro do Zenit
Nino, zagueiro do Zenit (Foto: Imago)

Os motivos por trás da escolha de brasileiros pelo futebol da Rússia

Mesmo à margem das principais competições internacionais, a Rússia ainda exerce forte apelo entre os jogadores brasileiros — e boa parte disso passa pelo aspecto financeiro.

Os clubes locais, geralmente sustentados por empresários influentes ou grandes conglomerados econômicos, como a estatal russa de gás natural Gazprom (no Zenit) e a gigante petrolífera russa Lukoil (no Spartak Moscou), oferecem salários elevados e bônus para lá de generosos.

Embora esses valores não superem os montantes pagos por equipes da Arábia Saudita ou da elite europeia, são o bastante para garantir segurança financeira, estabilidade de vida e um futuro confortável fora dos gramados. Muitos atletas definem as propostas como “irrecusáveis”. Gerson, por exemplo, deixou o Flamengo, dono de um dos maiores orçamentos do futebol brasileiro, para receber um salário três vezes maior no Zenit.

— Além do salário ser muito bom no mercado russo, os bônus também são bastante atrativos. Tem também o fato de ter duas férias na temporada, os bônus que variam muito a cada jogo e isso acaba ficando bastante atrativo para os atletas — avalia Roberto Dantas, empresário de Douglas Santos, lateral-esquerdo do Zenit e da seleção brasileira, à reportagem da Trivela.

Os contratos são estabelecidos em euros, o que traz uma vantagem considerável aos jogadores, já que o rublo russo está bastante desvalorizado em relação à moeda europeia. Isso acaba ampliando o poder de compra dos brasileiros enquanto estão na Rússia.

Na hora de mandar dinheiro para o Brasil, no entanto, surge um desafio: os bancos russos estão fora do sistema internacional de transferências financeiras. Assim, as remessas geralmente são feitas por meio de outros países, com o suporte dos próprios clubes para facilitar o processo.

Gerson durante treino do Zenit
Gerson durante treino do Zenit (Foto: Imago)

Além da questão monetária, há também um fator de confiança envolvido. Apesar de não estar num grande centro do futebol europeu, a Premier League Russa já tem uma estrutura consolidada, o que transmite maior segurança aos jogadores. Ao contrário do que ocorreu em mercados como o chinês, onde atrasos salariais e abandono de projetos se tornaram comuns, os clubes russos costumam honrar seus compromissos. Isso pesa na hora da escolha.

Outro atrativo importante é a qualidade de vida. O calendário da liga permite duas pausas significativas ao longo do ano, o que garante tempo de descanso e preparação. A segunda pré-temporada, geralmente realizada em países do Oriente Médio para escapar do rigoroso inverno russo, é vista com bons olhos pelos brasileiros, que valorizam tanto o planejamento físico quanto os momentos de folga.

— Os atletas têm praticamente duas férias durante a temporada, o que não é comum nos grandes mercados. Jogar fora do Brasil e passar Natal e Réveillon em casa com a família, agrada muito. Muito se fala do frio, mas como eles param no inverno, acaba que o atleta/família não pega o frio extremo do país — continua Roberto.

Essa combinação de boa remuneração, segurança contratual e rotina organizada ajuda a explicar por que, mesmo em tempos de crise e isolamento, a Rússia segue sendo um destino viável — e até desejado — para muitos jogadores do Brasil.

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Por que o mercado brasileiro é atrativo para a Rússia?

Bitello em ação pelo Dínamo Moscou
Bitello em ação pelo Dínamo Moscou (Foto: Imago)

O futebol brasileiro sempre foi reconhecido como um dos maiores exportadores de talentos do mundo, e a Rússia há muito se beneficia dessa condição. A tradição formadora de clubes brasileiros garante um fluxo constante de jogadores tecnicamente qualificados, a maioria deles ainda jovens e com potencial de valorização.

Para os times russos, trata-se de um mercado que reúne qualidade, diversidade de perfis e preços relativamente acessíveis em comparação a centros tradicionais da Europa. E isso se acentuou ainda mais a partir da guerra contra a Ucrânia e as sanções impostas. Com o isolamento do país em relação às competições da Uefa e a dificuldade em atrair jogadores europeus de ponta, o futebol da Rússia voltou-se com ainda mais intensidade para a América do Sul, sobretudo o Brasil.

Nesse contexto, o talento brasileiro passou a ser não somente uma opção de reforço, mas uma necessidade estratégica para manter o nível competitivo do futebol local e, ao mesmo tempo, investir em ativos com potencial de revenda futura.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin faz sinal positivo em evento
Presidente da Rússia, Vladimir Putin faz sinal positivo em evento (Foto: Icon Sport)

Há ainda o fator cultural. Historicamente, os atletas brasileiros criaram raízes na Rússia, deixando boas impressões dentro e fora de campo. Essa presença contínua construiu uma espécie de “ponte”, que facilita a chegada de novos jogadores.

Quem desembarca agora encontra compatriotas, um ambiente já familiar e até mesmo uma rede de apoio para lidar com a adaptação ao idioma e ao clima. Algo que é visto com bons olhos pelos dirigentes e comissões técnicas do país. O histórico de brazucas que se destacaram em solo russo gera confiança nos clubes para investir mais nesse mercado.

— Enxergo um mercado muito atrativo. Obviamente, as sanções devido à guerra, atrapalham muitas coisas. Mas é um mercado que gosta muito dos brasileiros e os clubes dão uma excelente assistência para os jogadores — destaca Roberto.

Como é o processo de transferência para um país tão “peculiar”?

Douglas Santos está no Zenit desde 2019
Douglas Santos está no Zenit desde 2019 (Foto: Imago)

A escolha de se transferir para a Rússia envolve mais do que apenas aspectos esportivos ou financeiros. Para muitos jogadores, a decisão passa também pelo bem-estar da família e pela compreensão da realidade local, incluindo clima, cultura e situação geopolítica.

Nesse cenário, os agentes desempenham papel fundamental, fornecendo informações detalhadas e acompanhamento constante para que os atletas tomem decisões conscientes e seguras. É o que Roberto explica à reportagem.

— Tenho jogador também em Israel, na Ucrânia, e essas sanções e o isolamento pesam bastante. A decisão final sempre será do jogador e da família. Eles que estarão no dia a dia e precisam entender bem como está a realidade no país que está indo, na cidade do país, em tudo. Ficamos sempre atentos às notícias para tentarmos estar sempre cientes em tempo real o que está acontecendo para informá-los.

Os clubes russos também investem em acompanhamento próximo e suporte prático aos estrangeiros. Desde a chegada, há canais de comunicação diretos para esclarecer dúvidas, protocolos de segurança e assistência em situações inesperadas, garantindo que os jogadores e suas famílias tenham respaldo constante. Esse cuidado contribui para que se sintam amparados e confiantes, facilitando a adaptação e permitindo que o foco permaneça no desempenho dentro de campo.

— Os clubes se preocupam muito e passam a segurança para que em caso de precisarem sair do país onde estão, o clube seja o primeiro a ajudar. Falando exclusivamente da Rússia, Douglas (Santos) vive em São Petersburgo, falo com ele e a esposa toda semana e nunca me relataram nenhum problema maior. Todo ano desde a chegada deles lá, eu vou pelo menos uma vez por ano para Rússia. É sempre bom estar por perto.

Apesar da prestatividade e bom senso no trato com jogadores e famílias, os times russos são notoriamente rígidos na mesa de negociação. Seja para a compra ou venda de atletas, ou para definir contratos, os dirigentes costumam ir até o limite para defender os interesses da instituição.

— Eles são duros sim. É difícil ganhar uma quebra de braço com os russos. Muitas vezes vão no limite da negociação e acaba que, para finalizar, dificulta muito, inviabilizando vários negócios que estavam dando como certo. Mas é ter paciência, ir no tempo deles e as coisas acontecem — conclui Roberto.

Alerrandro, ex-Atlético-MG e RB Bragantino, celebra gol pelo CSKA
Alerrandro, ex-Atlético-MG e RB Bragantino, celebra gol pelo CSKA (Foto: Imago)

Todos os brasileiros da liga russa hoje

  • Nino (Zagueiro, Zenit)
  • João Victor (Zagueiro, CSKA)
  • Diego Costa (Zagueiro, Krasnodar)
  • Vítor Tormena (Zagueiro, Krasnodar)
  • Jubal (Zagueiro, Krasnodar)
  • Lucas Fasson (Zagueiro, Lokomotiv)
  • Marcelo Alves (Zagueiro, Sochi)
  • Douglas Santos (Lateral-esquerdo, Zenit)
  • Moisés (Lateral-esquerdo, CSKA)
  • Gerson (Meio-campista, Zenit)
  • Wendel (Meio-campista, Zenit)
  • Bitello (Meio-campista, Dínamo Moscou)
  • Rubens (Meio-campista, Dínamo Moscou)
  • Douglas Augusto (Meio-campista, Krasnodar)
  • Matheus Alves (Meio-campista, CSKA)
  • Fernando Costanza (Meio-campista, Krylya Sovetov)
  • Ismael Silva (Meio-campista, Akhmat Grozny)
  • Du Queiroz (Meio-campista, Orenburg)
  • Luiz Henrique (Atacante, Zenit)
  • Pedro (Atacante, Zenit)
  • Henrique Carmo (Atacante, CSKA)
  • Gustavo Mantuan (Atacante, Zenit)
  • Marquinhos (Atacante, Spartak)
  • Ronaldo (Atacante, FK Rostov)
  • Alerrandro (Atacante, CSKA)
  • Arthur Gomes (Atacante, Dínamo Moscou)
  • Víctor Sá (Atacante, Krasnodar)
  • Gustavo Furtado (Atacante, Krasnodar)
  • Alexandre Jesus (Atacante, Orenburg)

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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