“Puskas: Uma Lenda do Futebol” conta muito mais que os feitos conhecidos de uma lenda do futebol
Fizemos a resenha do livro, que conta a vida dentro e fora de campo de uma das maiores lendas do futebol mundial, multicampeão pelo Real Madrid e vice-campeão mundial pela Hungria
Quem é o maior artilheiro de todos os tempos em jogos de seleções? Quem comandou o primeiro time a derrotar a Inglaterra em Wembley? Quem marcou quatro gols pelo Real Madrid numa final de Copa dos Campeões? A resposta para as três perguntas é a mesma: Ferenc Puskas. Só isso já bastaria para qualificar o húngaro como um dos maiores de todos os tempos. Porém, o livro “Puskas: Uma Lenda do Futebol” mostra que os feitos do capitão da Seleção de Ouro húngara vão muito além dos citados acima.
A melhor descrição para o livro é o subtítulo de sua versão original, “The Life and Times of a Footballing Legend”, que usei como título desta resenha. Isso porque ele não se limita apenas a Puskas. Os autores descrevem todo o contexto relacionado à vida do jogador, com destaque para a formação e a trajetória da Seleção de Ouro e a instável situação política da Hungria comunista. Para o leitor desavisado, poderia parecer estranho o autor às vezes gastar cinco páginas com acontecimentos sem ligação direta com Puskas, mas são justamente esses acontecimentos que dão a dimensão da importância que teve o jogador para seu país e para o futebol.
Uma menção especial deve ser feita à descrição da evolução tática proporcionada pela Seleção de Ouro. Os autores explicam de forma clara e concisa as táticas de futebol desde seus primórdios até a década de 1950 (de maneira melhor que em muitos livros dedicados somente a esse assunto). Com isso, fica claro por que a Hungria revolucionou o futebol e por que tal revolução só foi possível graças a um grupo de jogadores especial, com uma inteligência tática única. Aparece também no livro o legado deixado para o Brasil, na forma do esquema 4-2-4 trazido por Bela Guttmann.
Outro aspecto positivo é a estrutura escolhida pelos autores. A maior parte da história é narrada pelo próprio Puskas, mas também há abundantes depoimentos de pessoas que conviveram com ele, seja na seleção húngara, no Kispest ou no Real Madrid, todos narrados usando discurso direto. As referências históricas e explicações relativas ao contexto são apresentadas separadamente, em itálico. A distinção clara entre o que é dito por Puskas, pelo autor e por terceiros não só aumenta a abrangência da obra como também revela ao leitor de maneira honesta que o que está sendo dito é a lembrança que os personagens têm dos fatos, e não necessariamente a verdade absoluta.
Para não dizer que o livro é perfeito, alguns problemas podem ser apontados. O maior deles é que a edição brasileira é uma ´tradução da tradução´: as entrevistas com Puskas foram feitas em húngaro e traduzidas para o inglês no livro original, o qual por sua vez foi traduzido para o português. É claro que nessas duas passagens algumas coisas se perdem, e em vários momentos a estrutura das frases parece pouco natural.
Outro aviso importante é que essa biografia trata quase que exclusivamente da vida profissional de Puskas. Apenas fatos muito marcantes de sua vida pessoal são contados, e mesmo assim de forma superficial. É um livro que não cria polêmicas e que em nenhum momento levanta fatos que denigram a imagem do ídolo. Isso em si não é um problema, mas vale o aviso, para que ninguém espere encontrar escândalos.
Se você se interessa pela história do futebol, não deixe de ler “Puskas: Uma Lenda do Futebol”. Você se sentirá como se estivesse batendo um papo com um dos maiores jogadores de todos os tempos – ainda com a vantagem de contar com abundantes explicações e informações de contexto.



