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Panorama tático da Champions 2012/13

Entre as 32 equipes que começam nesta terça-feira a fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa, certamente cada uma delas com suas características únicas, poderemos ver diversas formações táticas sendo empregadas. Cada treinador tentará tirar o máximo de seu elenco, organizando sua equipe da maneira que lhe parecer mais adequada.

Como analisar todos os disputantes seria um trabalho muito extenso, e convidativo ao erro, esse panorama busca apenas comparar as tendências em termos de esquema inicial, sem levar em conta todas as estratégias específicas de cada equipe, mas aprofundando um pouco ao menos uma equipe para cada formação. Ao final, a conclusão é interessante e talvez possa funcionar como uma espécie de despertador para quem gosta, analisa e comenta futebol.

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4-2-3-1, o mais popular

Mesmo sendo esquema base na Espanha desde o início da década de 2000, o 4-2-3-1 teve sua massificação mundial após a Copa do Mundo de 2010. Segundo o jornalista Jonathan Wilson, em coluna no diário The Guardian, foi o espanhol Juan Manuel Lillo quem pela primeira vez, ainda no início da década de 90, utilizou conscientemente essa formação. A ideia era encontrar uma organização efetiva para recuperar a posse de bola dentro do campo adversário. Como pré-requisitos, jogadores com muita mobilidade e capacidade técnica de retenção de posse.

Pelo menos 15 dos 32 treinadores que começam a Liga dos Campeões devem formar suas equipes no 4-2-3-1. Pelo menos essa é a tendência segundo as partidas mais recentes de suas equipes. Para exemplificar, escolhi um time que joga assim há muito tempo e com sucesso.

Atual bicampeão alemão, Jurgen Klopp busca sucesso internacional com seu Borussia Dortmund. Uma equipe de extrema mobilidade e técnica, tem os jogadores perfeitos para uma execução exitosa do 4-2-3-1. A saída do japonês Kagawa foi bem suprida com a chegada de Marco Reus. A dor de cabeça de Klopp vem sendo encontrar uma maneira de utilizar Götze e Reus juntos, sem sacrificar a solidez defensiva do time.

O Dortmund defende e ataca em bloco. Normalmente, sete jogadores participam das ações ofensivas, enquanto oito lutam muito para recuperar a bola. Além do atacante Lewandowski, é justamente o meia central quem recebe mais liberdade e, por isso, é a função que vem sendo disputada pelos talentosos prodígios. Sem a mesma qualidade, mas com entrega e disciplina que garantem o funcionamento do time, Kuba e Grosskreutz vão mantendo seu lugar no time. Ainda agregam velocidade de sobra para uma transição ofensiva rápida.

Na partida de sábado contra o Leverkusen, Götze começou o jogo e funcionou muito bem, auxiliando na vitória por 3-0. Além de Reus, Perisic e Schieber são boas alternativas para essa Liga dos Campeões que começa.

Além do Dortmund, as outras equipes que tendem a utilizar o 4-2-3-1 são: Dynamo Kiev, Dinamo Zagreb, Schalke, Montpellier, Málaga, Real Madrid, Chelsea, Shakhtar Donetsk, Nordsjaelland, Bayern Munique, Valencia, Spartak Moscou e o Manchester United.

4-3-3, na esteira do sucesso

Formação mais popular no Brasil na década de 70, o 4-3-3 determinou até hoje o que o nosso inconsciente tem por ser a numeração original do futebol. 7 é o ponta direita, 11 o esquerda. 10 é o meia-esquerda e  9 o centroavante. Essa convenção é fruto da extensa utilização do esquema nos times brasileiros e também na Seleção. Identificava-se a posição do jogador pelo número. “Falcão era um 5 diferente”, cansei de ouvir. Ainda semana passada, o treinador/comentarista Mário Sérgio Pontes de Paiva afirmou que Ganso era “um 10 de antigamente”.

Infelizmente o 4-3-3 é pouco utilizado por aqui, dando lugar ao péssimo 4-2-2-2 no conceito popular. Volto a este tema na conclusão. Na Holanda, praticamente todas as equipes jogam assim e, recentemente, o Barcelona de Guardiola encantou o mundo com três atacantes e ainda inovou aplicando a Lionel Messi a função de falso 9.

Para exemplificar o 4-3-3, não escolhi o melhor, mas sim o que me está gerando maior curiosidade.

Luciano Spaletti vem sendo muito bem sucedido no comando do rico Zenit São Petersburgo. O italiano deu sequência ao trabalho do holandês Dick Advocaat e manteve o 4-3-3 como esquema preferencial.

A equipe é bem entrosada e conta com o trio de meio titular da Seleção Russa. A estratégia é marcação forte e saída em triangulações. Denisov, Zyryanov e Shirokov contribuem muito tanto para o desarme, quanto para articulação. Qualquer dos três tem liberdade de, no momento certo, infiltrar a área adversária e concluir. Os laterais titulares Anyukov e Criscito também participam bastante do movimento ofensivo e têm papel fundamental nos triângulos de lado.

Na última sexta, na derrota para o Terek Grozny, fizeram sua estreia no segundo tempo os caríssimos Hulk e Alex Witsel. O brasileiro certamente vai agregar poder de fogo, mas o belga talvez precise mostrar mais para entrar no ótimo meio-campo russo.

Com a entrada de Hulk no intervalo, Bystrov passou para o lado esquerdo, determinando a única mudança significativa na equipe. Agora os extremos devem atuar com pé invertido, ou seja, no lado contrário de sua perna preferencial de chute. Hulk jogava assim no Porto e é prudente manter a ideia para justificar os 60 milhões de euros investidos.

A imagem acima denota a perfeita movimentação da equipe para formar o triângulo de articulação do lado direito. Anyukov recebe a bola e já tem como opções de passe Shirokov pelo meio e Hulk à frente. Nota-se ainda que Denisov já se prepara para dar suporte por trás e Zyryanov avança para se aproximar do centroavante Kerzhakov. Se Hulk der o retorno que se espera, o Zenit ficará uma equipe bastante forte e com condições de chegar longe na competição.

Outras cinco equipes devem começar a Champions no 4-3-3, entre elas o Porto, antiga casa de Hulk, o novo rico PSG, o Barcelona de Tito Vilanova, Arsenal e Ajax.

4-4-2, brega mas eficaz

Quando se fala em 4-4-2, geralmente é necessária uma explicação a seguir. No Brasil, o esquema favorito dos comentaristas de rádio é esse, mas na sua versão quadrado, ou 4-2-2-2. No resto do mundo, o 4-4-2 é a versão original, àquela que aqui é descrita como sendo a formação das famigeradas duas linhas de quatro.

Sem dúvida, as duas linhas dispostas de forma compacta e com sintonia de movimentação, dão ao time uma ótima consistência defensiva, fazendo com que treinadores por vezes as utilizem quando precisam resguardar mais o time. Ainda na situação de ter um homem a menos, é sem dúvida a maneira mas fácil e eficaz de organizar a equipe.

No entanto, o 4-4-2 pode ser um esquema também ofensivo se bem empregado, como foi feito durante muitos anos pelos clubes ingleses. Hoje em dia o 4-4-2 perdeu espaço para sua versão evoluída, o 4-2-3-1, mas não desapareceu.

Quatro times deverão disputar a Liga dos Campeões assim: Anderlecht, Celtic, Cluj e o Galatasaray.

O time turco, comandado por Fatih Terim, se utiliza dessa formação com sucesso desde a temporada passada. Atual campeão a líder da liga nacional, é uma equipe pragmática que opta pelos contra-ataques e por utilizar-se de atacantes que aliam técnica a tamanho e força.

Além da compactação entre as linhas, o Galatasaray mantém algumas ideias do 4-4-2 britânico, como laterais base e meias centrais criativos. Entre esses está Felipe Melo, o vilão brasileiro da Copa de 2010. Além de combativo, o volante tem liberdade para se aproximar do ataque e, atuando com a camisa 10, é um dos favoritos da fanática torcida turca.

4-3-1-2, responsabilidade ao número 1

Lembram da Copa de 98? Zagallo introduzia na Seleção Brasileira algo que não era inovador, nem sequer novo, o 4-3-1-2. Fugindo da ideia tradicional do 4-2-2-2, o Velho Lobo armou a equipe com um volante fixo, dois apoiadores e dois atacantes. Entre eles, um homem com liberdade e aptidão para criar, o número 1! Como se fosse um super-herói de quadrinhos, o meia do 4-3-1-2 passou a ser conhecido como “o 1 do Zagallo”.

De fato, a formação exige que o jogador nessa função tenha qualidades específicas, sendo pré-requisito para bom funcionamento da equipe. Apesar dos apoiadores terem liberdade para avançar, cabe ao articulador criar e ditar o ritmo do time, sendo efetivo maestro das jogadas de ataque. Pode haver exceções, se por exemplo o time possuir um volante com alta capacidade de armação, como Andrea Pirlo.

Pois a Liga dos Campeões terá dois jogadores, pelo menos na tendência inicial, desempenhando a função de “1 do Zagallo”. Renan Bressan no BATE Borisov e Kevin-Prince Boateng no Milan.

Massimiliano Allegri já venceu uma Serie A italiana jogando assim, quando tinha Pirlo é verdade, e parece não abrir mão desta maneira de atuar. Mesmo com diversas mudanças no elenco nas últimas duas temporadas, o rubro negro italiano persiste na ideia que já foi vencedora.

Caberá  a Prince Boateng a tarefa de ser o centro da equipe, já que agora o volante já não articula e os apoiadores tem pouca qualidade ofensiva. Riccardo Montolivo foi contratado para dar esse suporte, mas o elenco não possui outro jogador com essa característica e o time tem sofrido com isso. Prince é muito mais um meia-atacante e pode funcionar bem com Montolivo e Nocerino como apoiadores, assim como pode fracassar rotundamente se for acompanhado por Ambrosini e Emanuelson.

Foi justamente o que aconteceu contra a Atalanta. A derrota em casa muito passou pela inabilidade da meia cancha rossonera em fazer a bola chegar com qualidade ao ataque. Ambrosini e de Jong são destruidores e Emanuelson é um jogador dinâmica mas de pouca produção. Bem marcado e sem ajuda, Boateng fracassou na tarefa de municiar o ataque. Allegri terá muito trabalho pela frente.

3-5-2, ditando moda na Itália, sozinho na Europa

Criada para ser uma formação ultra ofensiva, o 3-5-2 mal utilizado pode se transformar em um esquema que engessa o time. Baseado na ideia de que são necessários apenas três defensores para marcar dois atacantes e, sendo assim, é mais útil utilizar um quinto jogador no meio-campo, o 3-5-2 tornou-se uma febre na década de 90 no Brasil.

Entretanto, as varinhas mágicas dos treinadores muitas vezes falhavam e os laterais permaneciam atuando como laterais, formando um engessado 5-3-2. Ficou conceituado como um esquema defensivo, antítese da intenção original.

Antonio Conte é o único treinador que vai começar a Liga dos Campeões dessa forma. No seu país, onde é o atual campeão, vem ditando moda. Pelo menos outras quatro equipes adotaram o esquema após o sucesso da Juventus.

O 3-5-2 da Vecchia Signora é diferente dos demais. Geralmente os alas do 3-5-2 ou jogam bastante espetados ou formam uma linha de quatro com os volantes (gerando o 3-4-1-2). Conte prefere ter alas que contenham o adversário em uma linha mais alta e joga com dois apoiadores de qualidade e movimentação, todos eles ao redor de Andrea Pirlo.

Maior vencedor do futebol italiano de sua geração, Pirlo consegue dar às suas equipes característica única, pois sabe articular do fundo, permitindo permanente troca de posições dos jogadores de frente. O centro da articulação ofensiva é fundo, ampliando o campo e favorecendo as infiltrações.

Marchisio e Vidal são os jogadores chave do esquema. Tanto que contra o Genoa no dia de ontem, Giaccherini foi eleito melhor em campo pela mídia, atuando na função do chileno. Os apoiadores são perigo frequente aproveitando-se do espaço aberto pelos atacantes e da dificuldade do adversário em conter um ataque em que a bola é trabalhada longe da área.

Essa especificidade talvez seja o motivo pelo qual o 3-5-2 de Conte é bem sucedido. E também a razão porque a Juventus é a única equipe que joga assim.

4-1-4-1, melhor ataque é a defesa

Uma variação defensiva do 4-4-2, o 4-1-4-1 tem pro objetivo impedir que o adversário tente aproveitar o espaço entre as linhas, utilizando um volante como base da linha de meio. Apenas os gregos do Olympiakos tendem a atuar dessa forma.

O português Leonardo Jardim arma seu time para defender com solidez e busca o ataque aproveitando a capacidade ofensiva de seu lateral-direito. Dessa forma, ao atacar, o meia-extremo do lado direito fecha para o centro, abrindo espaço para o apoio. Na esquerda, Abdoun é muito agudo e o parceiro mais frequente do centroavante Djebbour.

Sem os titulares Torosidis e Maniatis, na partida do sábado, Jardim teve de mudar a formação para vencer o PAS Giannina pela liga nacional. Somente após adicionar um segundo atacante que a equipe abriu caminho para a vitória.

Enquanto estava empate em zero, o Olympiakos era um time previsível que insistia pelo meio. Tanto Machado quanto Ibagaza são jogadores com cacoete de jogar pelo centro e na lateral estava o zagueiro improvisado Papazoglou.

Na Liga dos Campeões, dificilmente os gregos conseguirão ter efetividade, mas a formação deve ser mantida, até pela necessidade de ter uma defesa mais consistente.

As incógnitas

Três equipes começam a Liga dos Campeões sem que seus treinadores demonstrem uma tendência de formação tática preferencial.

Desde que perdeu Sergio Agüero, Roberto Mancini perdeu também o seu chão. Desde que o argentino foi para o estaleiro, os Citizens marcam menos gols e sofrem mais, por consequência, vencem menos, empatam e perdem mais.

Desde então, Mancini utilizou o 4-2-3-1 da temporada passada e ainda testou o 3-5-2 e o 4-4-1-1. Se tivesse que apostar, eu diria que o City irá para a estreia contra o Real Madrid com a mesma estrutura que enfrentou o Stoke City. O elenco ainda conta com o versátil David Silva, que poderia entrar na vaga de Sinclair ou na de Balotelli, avançando Tévez.

Outra equipe que parece indefinida após uma perda é o Lille. Eden Hazard era o craque do time e, agora que partiu para o Chelsea, deixou uma lacuna que parece estar sendo difícil de ser preenchida por Rudi Garcia.

A campanha irregular na temporada pode ser reflexo da rotação de jogadores, incomum na temporada passada, com ainda tinha a sorte de ter Hazard (perdoem-me pelo trocadilho sonoro infame). Salomon Kalou é um acréscimo de qualidade, assim como Marvin Martin, mas ambos ainda não estão entrosados na equipe. De certo é que Garcia irá optar pelo 4-3-3 ou pelo 4-2-3-1.

Contra o Troyes, no empate do último sábado, Kalou e Mavuba ficaram de fora, mas não acredito que isso irá acontecer na estreia da fase de grupos. Eu apostaria no 4-3-3, com Martin atuando no tripé de meio ou ficando no banco. Na frente, Kalou, Payet e Tulio de Melo.

A maior dor de cabeça, no entanto, é a do português Jorge Jesus. Nas últimas duas semanas, o Benfica vendeu seus dois melhores volantes e perdeu seu capitão por suspensão. Javi García, agora no City, e Witsel, reforço do Zenit, eram os jogadores que sustentavam a ideia do 4-1-3-2 de Jorge Jesus.

Na última partida de Witsel, já sem Javi, os encarnados já não tiveram a mesma compactação e tiveram sorte em sair de campo sem sofrer gols. A vitória passou muito pela fragilidade do adversário. O belga foi deslocado para a função mais defensiva do meio, mas guarda muito menos posição do que Javi García. Além disso, Carlos Martins é um articulador nato, pouco afeito ao desarme, deixando a equipe bem mais exposta.

Se Jesus decidir dar sequência a sua estratégia de jogo, o sérvio Matic deve tornar-se titular. Mas sem os volantes e com o capitão Luisão suspenso pelos próximos dois meses, seria mais prudente que o treinador revisse os conceitos e encarasse a Liga dos Campeões com mais cautela.

Conclusão

Sem ter a pretensão de analisar os 32 times, esse panorama ajuda a compreender um pouco melhor a diversidade tática que o futebol vive hoje. É fundamental entender que não há regra pétrea no futebol. Toda estratégia é válida e pode ser bem sucedida desde que agregue treinamento e se adapte às melhores características dos jogadores.

Um time pode ser campeão com três volantes (Milan), com três zagueiros (Juventus), com três meias (Real Madrid) ou com três atacantes (Barcelona). Ou alguém afirmaria hoje que não?

Certamente ao longo do torneio variações ocorrerão ou quem sabe muitas das tendências apresentadas aqui nem se confirmem. Outra competição, outro adversário muitas vezes significa outra ideia de jogo.

Escuto muito de jornalistas da mídia especializada, aos quais respeito e alguns até admiro, que futebol é simples e os times devem ter sempre dois zagueiros, dois laterais, dois volantes, dois meias e dois atacantes. A eles pergunto: sentiram falta do 4-2-2-2? Pois ninguém joga assim na Europa e lá ninguém reclama.

Para quem, como eu, aprecia o entendimento do futebol como jogo, a Liga dos Campeões é o que há de melhor e certamente essa que começa será sensacional. Die Meister, Die Besten, Les Grandes Équipes, The Champions!

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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