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O pesadelo acabou: Depois de quatro anos de luta, o Rangers está de volta à elite escocesa

De uma hora para outra, o clube com mais títulos nacionais acabou jogado no limbo. Centenas de torcedores devem ter experimentado uma sensação de morte quando se anunciou a queda do Rangers à quarta divisão escocesa. Não que fosse uma surpresa, diante dos anos de problemas internos e descaso financeiro. Mas a caminhada que se desenhava seria longa. O gigante precisaria do apoio de seus fiéis para caminhar, passo a passo, rumo a uma reconstrução consistente, buscando voltar à primeira divisão. Uma longa trajetória que demorou quatro temporadas e teve seu fim nesta terça. Com a vitória sobre o Dumbarton por 1 a 0, os Gers conquistaram o título da segundona e confirmaram o retorno à elite.

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Apesar de sua grandeza, a missão do Rangers desde 2012/13 foi bastante dura. Na quarta e na terceira divisões, os acessos vieram com certas sobras, apesar de todas as turbulências nos bastidores, com diferentes mudanças na direção. Só que a segundona guardou uma tabela indigesta para os Teddy Bears: os tradicionais Hearts e Hibernian haviam sido rebaixados na temporada anterior. E a dupla de Edimburgo vinha para a Championship mais estruturada financeiramente. Por fim, o Rangers teve que disputar os playoffs de acesso e terminou engolido pelo Motherwell, penúltimo colocado da primeira divisão.

Em sua segunda tentativa, porém, os Gers não deram margem ao erro. Buscando jovens talentos em clubes ingleses por empréstimo e outras opções nas divisões inferiores do país vizinho, o Rangers teve uma campanha sem sobressaltos na segundona. Venceu as 11 primeiras rodadas, o que já lhe garantiu folga na ponta da tabela. E a confirmação do acesso vem com quatro rodadas de antecedência. Festa preparada no Estádio Ibrox, que explodiu com o gol decisivo de James Tavernier. Ao longo da trajetória, os azuis sofreram apenas três derrotas em 32 rodadas.

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O principal responsável pelo título nesta temporada é o técnico Mark Warburton. O inglês chegou a Glasgow após bom trabalho no Brentford e vem revolucionando o Rangers, com um futebol bastante ofensivo. O comandante realizou mudanças significativas na equipe, especialmente após as derrotas decisivas para o Motherwell na temporada passada e colhe os resultados. Ainda que a segundona escocesa não seja grande parâmetro, o time tem média de 2,6 gols marcados por partida e não passou em branco em um jogo sequer da liga.

Além disso, o início da estabilização nos bastidores do Rangers ajudou a equipe. Após meses de mudanças e incertezas administrativas, a chegada do empresário Dave King ao comando diminuiu os conflitos. O dinheiro pode não ser abundante, mas permitiu a construção de um elenco competitivo. E, depois de já disponibilizar mais de £ 9 milhões em empréstimos sem juros, o milionário poderia dobrar o valor com o retorno à elite. De qualquer maneira, todos os passos dos Gers dependem de muita serenidade – sobretudo depois do passado recente que levou o clube à falência.

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O Rangers permanece dependendo dos procedimentos da justiça e só com permissão pode colocar novas ações para vender, o que vem tendo efeito graças ao engajamento dos torcedores. Assim, seus fundos saem basicamente das bilheterias, dos patrocínios e dos bolsos de seu dono – e o lado bom é que, ao contrário do que aconteceu com a administração anterior, a torcida não está boicotando a diretoria. É preciso dar um passo além na volta à elite, mas que não seja maior do que as pernas. De qualquer maneira, a campanha digna do Hearts no retorno à primeira divisão, mesmo sem grandes gastos, serve de exemplo. Por mais que o Rangers, por sua grandeza, já almeje brigar pelo título logo de cara. Desta maneira, a confiança passa muito por Warburton, que demonstrou em seu primeiro ano uma capacidade para reconhecer talentos.

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Ainda assim, a mera presença do Rangers já serve de enorme estímulo para a primeira divisão do Campeonato Escocês.  Sem o rival para competir e acender a disputa, o Celtic vinha estimando uma perda de £ 10 milhões por temporada. Um dos maiores clássicos do mundo recupera o interesse na liga nacional, que sofre com a falta de competitividade – algo refletido com a queda do Celtic também nas copas europeias. E uma boa prévia do que acontecerá no próximo ano está marcada para o próximo dia 17, quando a Old Firm vale pela semifinal da Copa da Escócia. Um jogo para ser histórico.

Durante os próximos dias, o Rangers e sua torcida têm todo o direito de comemorar. Não foi fácil passar quatro temporadas seguidas longe da elite do futebol escocês – e mais ainda sustentando médias de público superiores a 42,6 mil pagantes nas três campanhas do acesso. Mas o momento também é de manter o controle sobre o que virá. Depois de uma queda tão abrupta, a recuperação precisa ser sustentável. A participação dos torcedores, tão presentes desde aqueles dias obscuros em 2012, será fundamental para isso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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