Europa

O gigante tentou, mas não voltou: Rangers fica mais um ano na segundona

Por Bruno Cassali*, de Edimburgo-ESC

Acreditar. Por definição no dicionário é algo que se deseja ou cre muito. Na parte azul de Glasgow, Escócia, acreditar foi o verbo mais ouvido nos últimos três dias. “Keep believing, boys.” Sigam acreditando, garotos! “We can do this!” Nós podemos fazer isso! Podemos, mas… Conseguimos?

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Depois de muita turbulência, troca de comando e um início de temporada nada animador, tudo levava a crer que o Rangers ia conseguir o acesso. Bastava superar o eterno freguês Motherwell pra voltar ao convívio do Celtic na mesma tabela. Porém, nem tudo que se acredita, acontece de fato.

Caminho árduo até a decisão

A ressurreição do Rangers demoraria ao menos três temporadas. Ao ser decretada a falência em 2012, após terminar somente atrás do rival Celtic na Primeira Divisão Escocesa, os Gers caíram da primeira pra quarta divisão. Falidos, contaram com o apoio incondicional da torcida para galgar os degraus do acesso.

Acreditar foi sempre a palavra de ordem nesses três anos. Na quarta divisão, em 2012/13, terminou com 25 vitórias em 36 jogos, fazendo 83 pontos – 24 a mais que o segundo colocado Peterhead. Na terceira divisão, o domínio foi ainda mais avassalador: 33 triunfos em 36 jogos e absurdos 102 pontos – 39 a mais que o Dunfermline Athletic, vice-campeão.

A Championship (a segunda divisão escocesa) dessa temporada prometia mais disputa, afinal também estavam presentes tradicionais times como Falkirk (que terminou o ano como finalista da Copa da Escócia) e a dupla de Edimburgo – Hearts e Hibernian. Durante 2014/15, a supremacia do Hearts assustou os azuis de Glasgow. Os grenás da capital terminariam o campeonato com mais de 20 pontos de vantagem para os rivais e levaram fácil, fácil a única vaga direta pra primeira divisão.

Nesse mesmo tempo, o Rangers não tinha o desempenho esperado sob comando de Ally McCoist, que fora o comandante nos dois primeiros acessos. McCoist pediu pra sair em dezembro de 2014, com Kenny McDowall assumindo de forma interina até março. Sem a simpatia dos novos donos do clube, McDowall deu lugar ao emocional Stuart McCall em março.

Com McCall, o Rangers cresceu e terminou a temporada em alta. Bateu o Hibernian no último dos quatro turnos em Edimburgo e parecia consolidar a segunda posição. Mas dois empates nas últimas rodadas deixaram o time em terceiro, obrigando-o a disputar as quartas-de-final dos playoffs de acesso contra o Queen of the South. Em dois jogos duros, o gigante de Glasgow passou de fase com 3-2 no resultado agregado.

Na semifinal, o favorito pelo desempenho era o Hibernian. Mas era consenso entre a imprensa que o jogo físico dos Gers era o pior possível para o habilidoso time do Hibs. Na pressão de Ibrox, 2-0 Rangers. Em Easter Road, o experiente time de azul cadenciou o jogo e levou um gol somente no quarto minuto de acréscimos do segundo tempo. Mesmo perdendo por 1-0, o Rangers estava a dois jogos de voltar ao seu lugar.

Decisão em família

Mas a história tem seus caprichos. E colocou no caminho da equipe de Stuart McCall alguém bastante familiar: o Motherwell. Foi o próprio McCall quem melhor aproveitou a ausência do Rangers na primeira divisão, conseguindo resultados expressivos treinando o Motherwell. O técnico inglês foi duas vezes vice-campeão da SPL (2012/13 e 13/14), antes de deixar o clube ao final de 2013/14.

Dentro de campo, outro confronto chamaria a atenção: os irmãos Law. Nicky, carequinha camisa 7 do Rangers, é o comandante do meio-campo azul. Já Josh, apenas um ano mais novo, é o lateral direito do time que veste amarelo e grená. Seriam embates familiares, de velhos conhecidos. E que apesar de se gostarem bastante, não poderiam terminar com dois vencedores.

No primeiro jogo, em Ibrox, casa do Rangers, o time da casa sentiu falta do futebol de Nicky Law. Armado pra se defender e explorar os contra-ataques, o Motherwell fez jus ao status de time de 1ª divisão. Aproveitando duas falhas defensivas dos Gers, Lee Erwin e Stephen McManus deixaram os visitantes com dois gols de vantagem ainda no primeiro tempo. McCall e a torcida inflamaram o time na volta do intervalo, mas Stephen Pearson puxou contra-ataque finalizado com precisão pelo craque do Motherwell (e que tem nome de craque): Lionel Ainsworth. M’well 3-0.

Coube ao zagueiro do Rangers Darren McGregor diminuir faltando 10 minutos, mas a vantagem dos visitantes construída na ida era gigantesca. “O Motherwell soube capitalizar suas chances. Agora, precisamos repetir o cenário da temporada passada, quando ninguém acreditava que o Hamilton venceria o Hibernian em Edimburgo e eles foram lá e venceram”, disse Stuart McCall em coletiva. Já Ian Baraclough, técnico do Motherwell, elogiou a partida taticamente perfeita do seu time: “Fizemos de tudo e fomos perfeitos hoje. Nossos jogadores são de alto nível e provaram isso aqui. Todos estamos conectados com os objetivos do clube, que é subir à Scottish Premier League”, disse.

O espírito do domingo: acreditar

Pra fazer valer o ditado de que ela é a última que morre, os torcedores do Rangers mantinham a esperança no acesso. O “Keep believing, boys” era o lema gritado pela torcida azul. Mas o experiente time do Motherwell manteve a tática de cozinhar o jogo na primeira etapa, exatamente como fizera em Ibrox. Após um morno primeiro tempo, aos seis minutos da etapa final Marvin Johnson avançou sozinho pela esquerda e arriscou o chute. A bola desviou no zagueiro Lee McCulloch e encobriu o goleiro Bell – que não conseguiu socar a bola: M’well 1-0.

Com 4-1 contra no agregado, bateu o desespero no gigante. A pressão territorial não se materializava em chances concretas de gol e o sistema defensivo dos azuis ficava cada vez mais bagunçado. Aos 25 minutos, em outra investida pelo lado esquerdo, Johnson achou Ainsworth livre na entrada da área. O camisa 7 bateu forte de esquerda pra vencer Bell e fazer 2-0. Nos acréscimos, ainda deu tempo pro veterano John Sutton converter um pênalti e fechar o placar: 3-0 Motherwell e abissais 6-1 no resultado agregado.

A hora é de juntar os cacos. A situação do Rangers já foi mais desesperadora que agora, mas permanecer na Championship Escocesa certamente não estava nos planos. Entretanto, se mantiver Stuart McCall der tempo para o técnico montar a equipe na pré-temporada, isso poderá ser fator chave pro Rangers voltar ao convívio dos grandes. É seguir acreditando. 

*Bruno Cassali é jornalista esportivo desde 2008 e atuou em coberturas esportivas no Rio Grande do Sul até novembro de 2014. Desde janeiro de 2015, mora em Edimburgo, capital da Escócia.

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