Europa

O futebol derruba o último muro da vergonha europeu

A história do Chipre é marcada pela divisão. A ilha do Mar Mediterrâneo é um dos símbolos das disputas entre Grécia e Turquia no sudeste europeu. Mesmo antes da independência do Império Britânico, em 1960, as duas etnias já entraram em colisão por seus anseios nacionais. Em 1974, depois de diversos de episódios de violência, os gregos deram um golpe de Estado, seguido pela invasão do norte do país pelos turcos. Uma divisão que se mantém até hoje. E que o futebol está ajudando a mudar.

Nesta terça-feira, Fifa e Uefa patrocinaram um protocolo entre a Federação do Chipre e a Federação do Chipre Turco, que se tornarão uma entidade só. O acordo em prol da unificação do país se limita ao esporte, deixando claro que “não abre qualquer precedente para a questão política” e que é provisório “até que seja encontrada uma solução para o Chipre”. Chipre do Norte continua sendo um ‘país-fantasma’, reconhecido apenas pela Turquia. Ainda assim, é uma abertura que precisa ser comemorada pelas duas metades do país.

Introduzido no país no início do Século XX, o futebol cipriota não possuía divisões étnicas. Ela começou apenas depois da Segunda Guerra Mundial, em uma separação da Federação Cipriota provocada pelos gregos. O esporte voltou a se unificar em 1953, mas os problemas não tardaram a ressurgir. Único clube turco a disputar o Campeonato Cipriota, o Çetinkaya Türk foi expulso das competições nacionais. Foi a deixa para que a Federação do Chipre do Norte e a Birinci Lig, a liga étnica dos turcos, fossem criadas.

Depois de 1974, com a invasão do norte, alguns clubes gregos migraram para cidades do sul. O maior exemplo é o Anorthosis Famagusta, então dono de seis títulos nacionais. Os alviazuis mantêm o nome da antiga cidade, hoje em posse dos turcos, mas desde a separação fazem os seus jogos em Larnaca. Um simbolismo tão grande que o Anothorsis foi convidado para visitar sua antiga casa nesta terça, com a assinatura do acordo entre as federações.

Com a filiação dos clubes turcos, o Campeonato Cipriota não deve ganhar tanto com os novos agregados. A seleção cipriota é quem tende a ser mais beneficiada. Afinal, a seleção do Chipre do Norte quase sempre se destaca entre os países não filiados à Fifa. A equipe foi campeã da FIFI Wild Cup, em 2006, e vice da VIVA World Cup, no ano passado.

A unificação das federações no Chipre tornará as barreiras entre os dois países apenas formais. A Organização das Nações Unidas administra a Linha Verde, uma zona desmilitarizada que percorre a ilha da costa norte à costa sul, em extensão de 180 quilômetros. Já a capital Nicósia ainda possui um muro que a isola em duas regiões. Para o futebol, separações que não significarão nada. E que talvez estimule a união dos setores restantes do país, algo que vem sendo rechaçado por gregos e turcos há tanto tempo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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