O clube que se tornou um símbolo da reconstrução turca após o devastador terremoto de 1999
Mais de 17 mil pessoas morreram no Terremoto de Izmit, em agosto de 1999; três anos depois, o Kocaelispor, clube da cidade onde ocorreu o epicentro, conquistou a Copa da Turquia com goleada sobre o Besiktas na final

O futebol é uma das últimas preocupações no sudeste da Turquia neste momento. Dezenas de cidades na região estão sob escombros, após a sequência de terremotos da última segunda-feira. As equipes de resgate correm contra o tempo, enquanto o número de mortos passa dos 21,5 mil. Clubes como o Hatayspor e o Yeni Malatyaspor estão diretamente envolvidos na tragédia, sob a perspectiva de que sequer retomem as atividades nos próximos meses. A federação turca possui em seu regulamento uma cláusula que permite aos times afetados por terremotos se licenciarem temporariamente, sem o risco de rebaixamento. Mas, caso queiram seguir em frente, as agremiações possuem um exemplo forte dentro da própria Turquia. Em março de 1999, depois de um terremoto igualmente trágico nos arredores de Istambul, o Kocaelispor simbolizou a reconstrução de Izmit, a cidade onde ocorreu o epicentro do tremor. Três anos depois, o time seria capaz de um feito imenso, com a conquista da Copa da Turquia de 2001/02. Goleou o Besiktas por 4 a 0 para erguer a taça.
O chamado Terremoto de Izmit, em agosto de 1999, foi o maior da Turquia em seis décadas – e, desde então, superado apenas pelos abalos sísmicos desta semana. O tremor de magnitude 7.6 afetou a região central do país, nas proximidades de Istambul. O epicentro ocorreu na província de Kocaeli, onde se concentrou o maior rastro de destruição. Dos mais de 17 mil mortos pelo desastre, cerca de 10 mil moravam na província. Além disso, o número de desabrigados chegava às centenas de milhares, numa região na qual a população girava ao redor de 1,5 milhão de pessoas.
Naquela época, Izmit já tinha um clube consolidado na primeira divisão do Campeonato Turco. O Kocaelispor foi fundado em 1966, num momento em que a criação ou a unificação de clubes era incentivada pelo interior da Turquia, e se tornou um dos principais símbolos de sua cidade. A localidade a 100 quilômetros de Istambul possui sua importância desde a Grécia Antiga, então chamada de Nicomédia, e também chegou a ser a capital da porção oriental do Império Romano até a mudança para Bizâncio, a atual Istambul. Desenvolvida mais recentemente como uma cidade portuária e industrial, Izmit passou a abrigar uma das universidades mais importantes da Turquia a partir dos anos 1990. Tornou-se um lugar multicultural, no qual uma das principais raízes era justamente o clube de futebol.
O Kocaelispor chegou à elite nacional em 1980. Seriam oito temporadas consecutivas na primeira divisão, até o rebaixamento em 1988. Já o retorno em 1992 marcou o período mais relevante da agremiação. Logo em sua volta à elite, o Clube do Golfo terminou a temporada numa ótima quarta colocação. O time ganhou 10 dos 15 compromissos do primeiro turno em 1992/93 e ocupou a liderança até o início da segunda metade do campeonato. Porém, o Kocaelispor perdeu fôlego na reta final, com tropeços nos confrontos diretos contra os três grandes de Istambul – que, paralelamente, passaram a assediar os jogadores dos azarões, oferecendo transferências, e atrapalharam o ambiente dos concorrentes. Apesar da frustração, a presença na Copa da Uefa de 1993/94 já era um feito, com a eliminação imediata diante do Sporting. E a equipe continuou frequentando a parte de cima da tabela na Süper Lig. O técnico Mustafa Denizli saiu de Kocaeli direto para o comando da seleção em 1996, por exemplo.
Em 1996/97, o Kocaelispor iniciou uma relação especial com a Copa da Turquia. O Clube do Golfo se tornou um inédito campeão do torneio naquela temporada. A equipe surpreendeu o Besiktas nas semifinais e faturou o troféu em cima do Trabzonspor. Era uma façanha para a cidade de Izmit, já que apenas outros dez clubes do país tinham faturado o caneco até então. A equipe disputou a Recopa Europeia de 1997/98, na qual eliminou o National Bucareste, antes da queda diante do Lokomotiv Moscou. O alto nível competitivo era uma constante em Kocaeli.
Durante a temporada 1998/99, o Kocaelispor se destacou no Campeonato Turco. Não dava para competir com o Galatasaray naqueles tempos, mas a quinta colocação do Clube do Golfo era ótima. Rendia pelo menos uma vaga na extinta Copa Intertoto e mantinha o ritmo exibido ao longo da década. Todavia, o Terremoto de Izmit aconteceu logo no início da temporada seguinte. Haviam sido realizadas duas rodadas do Campeonato Turco de 1999/00 quando o desastre se deu. Seriam três semanas de paralisação da Süper Lig, com os óbvios esforços nos resgates e, posteriormente, na reconstrução de Kocaeli.

Naquele momento, a federação turca ofereceu ao Kocaelispor a opção de desistir do campeonato de 1999/00 sem ser rebaixado, em nova cláusula adicionada em seus regulamentos. Se assim preferisse, seria uma decisão até compreensível da agremiação, que teve seu estádio severamente destruído pelo terremoto e o centro de treinamentos devastado, a ponto de não ser mais possível sequer utilizá-lo. Na segunda divisão, o Sakaryaspor e o Düzcespor optaram por esse afastamento temporário das atividades. Entretanto, os responsáveis pelo Clube do Golfo quiseram seguir em frente. O Kocaelispor não abandonaria sua empreitada, enquanto também poderia servir de alento dentro de sua província. O presidente da instituição era também o prefeito de Izmit e priorizou esse significado local do time. Com a decisão, a única facilidade oferecida ao Clube do Golfo era a chance de disputar a maior parte do primeiro turno como visitante, enquanto seu estádio era reformado.
Kocaeli se transformou numa província de milhares de casas pré-fabricadas, uma solução rápida para acolher as famílias desabrigadas. Os escombros estavam espalhados por Izmit e nem todo mundo queria continuar inserido na difícil realidade de reconstrução da cidade. O Kocaelispor permitiu que seus jogadores rescindissem seus contrato se assim preferissem. Quatro atletas romperam os seus vínculos, também sob o temor de que outros desastres acontecessem na região. Entre estes, saíram o zagueiro Mert Korkmaz e o atacante Tarik Dasgün, ambos com passagem pela seleção. Já entre os que ficaram estava o meio-campista Ahmed Hassan, lenda da seleção egípcia.
Não seria um recomeço fácil para o Kocaelispor, naturalmente. O time ainda voltou com bons resultados, incluindo uma goleada por 4 a 0 na segunda rodada após a retomada da Süper Lig. Entretanto, a coisa degringolou rápido, enquanto o Clube do Golfo era obrigado a repetidamente viajar pelo país em seus compromissos consecutivos fora de casa. A partir da quinta rodada, o Kocaelispor sofreu 11 derrotas em 12 partidas, com um triunfo isolado sobre o Altay. O time era o solitário lanterna, com míseros nove pontos, a oito de sair da zona de rebaixamento. O segundo turno estava prestes a começar e as perspectivas eram péssimas.
“Os diretores tomaram uma corajosa, talvez imprudente, decisão de seguir em frente apesar das dificuldades. Se o time for rebaixado, serão vítimas da própria coragem em recusar tomar o caminho mais fácil”, escreveu na época o jornal Turkish Daily News. Um ponto de virada para o Kocaelispor se deu com a reabertura de seu estádio, após a reforma das estruturas. O primeiro sinal animador aconteceu no final do primeiro turno, com a vitória por 3 a 2 no confronto direto com o Bursaspor. A partir de então, o Clube do Golfo decolou para uma emblemática salvação.
O Kocaelispor perdeu apenas uma partida, contra o Besiktas, nas primeiras oito rodadas do segundo turno. Empatou inclusive com o Fenerbahçe. Já o momento-chave aconteceu no duelo contra o Vanspor, que assumira a lanterna da competição. O Clube do Golfo goleou por 6 a 1 e não só afundou os oponentes, como deixou a zona de rebaixamento após 13 rodadas consecutivas. Depois disso, o Kocaelispor não mais retornaria ao Z-3 da Süper Lig e manteve a consistência, mesmo que as derrotas tenham se tornado um pouco mais frequentes no final. A mera manutenção na primeira divisão já era uma façanha, por todas as condições.
O Kocaelispor terminou aquele Campeonato Turco de 1999/00 no 12° lugar, três pontos acima da zona de rebaixamento. A diferença do desempenho em casa, no segundo turno, era notável: o Clube do Golfo tinha a sétima melhor campanha como mandante. Foram nove das 11 vitórias dentro do próprio estádio, com 31 pontos dos 37 totais. A federação turca ainda destinou a vaga na Copa Intertoto à equipe, o que auxiliaria um pouco mais na renda. Apesar disso, o time caiu logo de cara para o Atlantas, da Lituânia.
Na temporada de 2000/01, o Kocaelispor fechou o Campeonato Turco no 13° lugar. De novo fez um péssimo primeiro turno e recuperou-se no segundo, a ponto de abrir uma vantagem confortável de 17 pontos da zona de rebaixamento. Isso até que viesse a histórica temporada de 2001/02. Um sinal positivo aconteceu já na pré-temporada, quando a equipe goleou por 4 a 1 o fortíssimo Arsenal, num amistoso. Não que os turcos tenham feito tanto na liga nacional. O 11° lugar na Süper Lig não chamava tanta atenção, embora a tabela equilibrada deixasse o Clube do Golfo a apenas cinco pontos de distância do quinto lugar. O time agora largou bem no primeiro turno e ocupou as primeiras colocações, mas depois perdeu fôlego posteriormente. O que importava na reta final, de qualquer maneira, era a Copa da Turquia. Foi por lá que o Kocaelispor concluiu de forma heroica seu processo de reconstrução.

O Kocaelispor aproveitou um chaveamento acessível para prevalecer. O time encarou só um adversário da primeira divisão nas primeiras fases, mas despachou o Gençlerbirligi nas oitavas de final. O Clube do Golfo depois superou o Erzurumspor e o Adanaspor, até retornar à finalíssima depois de cinco anos. O Besiktas pintava pelo caminho, com a oportunidade de uma revanche após aquela semifinal de 1996/97. Entretanto, o Kocaelispor conseguiu reafirmar a freguesia dos alvinegros.
A decisão da Copa da Turquia aconteceu na cidade de Bursa, diante de 22 mil torcedores. Caravanas de fanáticos de Kocaeli atravessaram os 130 km de estrada, assim como a torcida do Bursaspor resolveu se juntar aos azarões nas arquibancadas. Ali, prevalecia uma união dos provincianos contra o poderio de Istambul. Mesmo os torcedores de cidades próximas a Izmit, como Antalya e Eskisehir, decidiram apoiar o Clube do Golfo. Presenciariam um resultado pra lá de inesperado, com a goleada por 4 a 0 do Kocaelispor.
O grande nome do Besiktas na época era seu treinador, o alemão Christoph Daum, que já tinha sido campeão pelos alvinegros na década anterior e tentava retomar seu status após admitir publicamente a dependência química de cocaína – o que custou seu emprego na seleção alemã. Em campo, os raros estrangeiros eram o goleiro norueguês Thomas Myhre, o zagueiro brasileiro Ronaldo Guiaro e o meia tunisiano Zoubeir Baya. Já a legião turca incluía vários nomes de seleção, entre eles dois que logo brilhariam na Copa do Mundo de 2002. O volante Tayfur Havutçu era uma liderança no meio-campo das Águias, enquanto Ilhan Mansiz comandava o ataque. Seria ele o autor do gol que botou os turcos na semifinal do Mundial, contra Senegal. Não teve a mesma sorte na final da Copa da Turquia.
O Kocaelispor era treinado por Hikmet Karaman, antigo prata da casa do clube. O comandante fez sua formação como técnico na Alemanha e voltou para ser assistente de Mustafa Denizli, antes de assumir o Clube do Golfo em dezembro de 2000. Foi um dos principais responsáveis pelo renascimento da agremiação. As vagas para estrangeiros eram ocupadas pelos búlgaros Aleksandar Aleksandrov e Zdravko Lazarov, assim como pelo egípcio Ayman Abdel-Aziz e pelo polonês Roman Drabowski, todos jogadores com passagens por suas seleções. Outro forasteiro à disposição, já naturalizado turco, era o veterano Kwame Ayew – o irmão de Abedi Pelé, que jogou Olimpíadas por Gana e tinha feito sucesso em Portugal nos anos 1990. Entre os turcos, três jogadores chegaram à seleção: o meia / lateral Cihan Haspolatli, o zagueiro Orhan Ak e o lateral esquerdo Nuri Çolak – este presente no time desde 1994, dono da braçadeira de capitão.
O estádio em Bursa empurrava o Kocaelispor. O Besiktas até pressionou algumas vezes pelo primeiro gol, mas o placar seria aberto pelos azarões aos 44 minutos. Foi um contra-ataque lindo, especialmente pelo início da jogada com Nuri Çolak, que fez um desarme limpo, arrancou até o campo de ataque e acertou uma linda inversão, no peito de Aleksandrov. O búlgaro cruzou e Cihan Haspolatli estava dentro da área para concluir. E se a situação das Águias era ruim para o segundo tempo, piorou aos sete minutos, quando Ibrahim Üzülmez foi expulso, ao levar o segundo amarelo de forma infantil por um toque de mão na intermediária.
Em vantagem numérica, o Kocaelispor arreganhou os dentes e abriu a goleada. Aos 15 minutos, um contra-ataque garantiu o segundo gol. Aleksandrov deu um lindo passe de primeira e deixou Lazarov na cara do gol. O camisa 11 driblou o goleiro Myhre antes de concluir à meta escancarada. Já no final, o Clube do Golfo dobrou o placar. Kwame Ayew tinha vindo do banco e preparou o contragolpe para a conclusão de Kaan Dobra, aos 37. Um minuto depois, Ahmed Arslaner disparou pela linha de fundo e cruzou para Serdar Topraktepe liquidar o Besiktas.
Que algumas pessoas imaginassem ser possível uma vitória do Kocaelispor, dificilmente alguém previu um placar tão contundente. Era como se um ciclo se completasse, com a consagração definitiva do clube depois de superar todas as dificuldades provocadas pelo terremoto e conceder um motivo de festa a Kocaeli. “Uma cidade e uma região que sofreram um grande desastre há dois anos precisavam de uma grande alegria como esta”, declarou Sefa Sirmen, presidente da agremiação e prefeito de Izmit, na época. Olhando em retrospectiva, o troféu se torna mais significativo pelo contexto do futebol turco, com a volta da seleção a uma Copa do Mundo depois de 48 anos e a campanha fantástica que rendeu a semifinal. O Clube do Golfo se colocou num lugar privilegiado dos livros.
O Kocaelispor disputou a Copa da Uefa de 2002/03, eliminado logo na primeira fase pelo Ferencváros, com duas derrotas. No entanto, se a reconstrução foi marcante, a queda se tornou repentina. O Clube do Golfo terminou rebaixado logo na temporada seguinte, no Campeonato Turco de 2002/03. A equipe terminou com a lanterna da liga e ficou a 14 pontos de escapar do descenso. Seriam cinco temporadas na segundona, até um breve retorno em 2008/09. Todavia, o time permaneceu na zona de rebaixamento o campeonato praticamente inteiro e foi rebaixado na penúltima posição. Não auxiliou nem a presença do veterano Taner Gulleri, vice-artilheiro da liga com 18 gols.
A partir de então, aconteceu uma derrocada com seguidos rebaixamentos. Com dívidas na casa das centenas de milhões de liras turcas, o clube chegou a ter o fornecimento de água e luz interrompidos por falta de pagamento. O Kocaelispor estava no equivalente à quinta divisão já em 2014, com sérios problemas financeiros. Houve inclusive uma tentativa de refundar a agremiação, com a transferência de outro clube em situação mais saudável para Izmit – o que saiu pela culatra, já que a torcida não abraçou a mudança. O Kocaelispor chegou a disputar as divisões de acesso com uma equipe juvenil e mesmo assim manteve seus fiéis nas arquibancadas. Os torcedores não se esqueciam do que o clube fez por Izmit. O time bateu até recorde na quinta divisão, com 20 mil presentes nas tribunas.
Durante as últimas temporadas, o Kocaelispor conseguiu se reconstruir de forma gradativa. Conquistou o acesso na quinta divisão em 2016, na quarta divisão em 2020, na terceira divisão em 2021. O Clube do Golfo foi rebaixado em 2021/22, mas indica ao menos um pouco mais de perspectivas para uma escalada de volta à elite. O atual status na liderança da terceirona não transmite totalmente o que já foi o Kocaelispor em seu período áureo entre 1992 e 2002. Mais do que isso, nem mesmo a reaparição na primeira divisão poderá explicar a importância que o time teve à sua região e ao sentimento de reconstrução após uma das maiores dores que o povo turco já viveu.



