O clássico da crise
Panathinaikos e AEK Atenas mantêm uma das rivalidades mais acirradas do futebol grego. O ódio entre os atenienses pode não ser tão grande quanto pelo vizinho Olympiacos, mas o histórico de confrontos e disputa por títulos é cultivado desde a década de 1920. São 31 Campeonatos Gregos e 31 Copas da Grécia divididas entre os dois clubes, que não perderam uma edição sequer da primeira divisão desde que o torneio foi unificado, em 1959/60.
Entretanto, nem o peso das camisas salva os dois gigantes da crise financeira que assola a Grécia. Os problemas vivenciados desde 2008 se amplificaram nos últimos meses e deixaram os clubes correndo sério risco de falência. Ambos sobrevivem aos rombos em suas contas, mas pagam as penitências em campo. Provavelmente os atenienses nunca fizeram um dérbi tão em baixa como o do último domingo.
Diante da crise, até mesmo o placar da partida foi econômico. O gol solitário de Toché garantiu a vitória por 1 a 0 do Panathinaikos, que foi vaiado pelo mau futebol no segundo tempo. O triunfo ajudou o Trifylli a assumir a sétima posição da Super League – desde 1959/60, o clube nunca ficou abaixo da sexta colocação na tabela. Já o AEK Atenas amarga a lanterna, novidade radical para um time que nunca ficou abaixo da sétima posição no mesmo período.
Finanças em xeque
O Campeonato Grego possui uma severa legislação em relação aos problemas econômicos dos clubes. Quem não fecha as contas corre o risco de rebaixamento, em um Fair Play Financeiro aplicado a ferro à risca. Em 2011/12, o Iraklis terminou quatro posições acima do Z-2, mas foi degolado por não ter cumprido obrigações como o pagamento de jogadores e débitos com outras equipes.
Na temporada passada, o AEK Atenas esteve muito próximo à bancarrota e, com dividas na casa de € 35 milhões, sofreu ameaça real até conseguir ter seu balanço aprovado. Sem um magnata por trás do clube, como é comum entre os grandes do país, as Dikefalos Aetos fizeram drástica redução de 65% na folha de pagamentos – de € 12 milhões para € 4,5 milhões. A solução serviu para salvar a participação na Super League, mas não garantiu a licença da Uefa para a disputa da Liga Europa, sendo substituído pelo Asteras Tripolis.
Já o Panathinaikos não correu um risco tão grande, mas precisou contar com o apoio das arquibancadas para evitar a bancarrota. Em julho, uma aliança formada por torcedores comprou 54,75% das ações do clube, encerrando a administração da família Vardinoyiannis, ligada à exploração de petróleo e no poder desde 1979. Para que o negócio saísse, os investidores tiveram que contar como o apoio de jogadores e comissão técnica, que aceitaram atrasar seus salários até que o fim da transação.
Seca no mercado de transferências
As consequências da crise continuaram foram profundas durante a última janela de transferências. Bancado por Evangelos Marinakis, empresário com negócios em transporte marítimo, o Olympiacos foi o único a ter dinheiro em caixa para fazer contratações. A Thrylos gastou € 4,9 milhões em novos jogadores, 90% do total investido pelos 16 clubes da elite, embora tenha fechado a balança no positivo, graças à venda de Kevin Mirallas ao Everton. Mesmo reduzindo a folha de pagamentos em 21,7%, o clube gasta € 18 milhões anuais com salários – mais que o dobro dos € 8,8 do Panathinaikos, o segundo da liga, e 30 vezes que o Kerkyra, o 16º.
O Pana, aliás, não fez caixa com seus jogadores durante a janela, mas aproveitou para ceder alguns dos jogadores de maiores salários. Sotiris Ninis foi cedido ao Parma, enquanto os veteranos Georgios Karagounis e Konstantinos Katsouranis acabaram dispensados. Na contramão, a média dos recém-chegados foi de 23 anos e o único gasto foi de € 88 mil, para garantir o empréstimo do atacante Ibrahim Sissoko junto ao Wolfsburg.
O AEK Atenas, por sua vez, encontrou uma solução bem mais drástica. O clube até conseguiu lucrar € 2,1 milhões com a venda de três jogadores, mas também dispensou ou cedeu outros 16 atletas e contou com a aposentadoria dos ídolos Nikos Liberopoulos e Traianos Dellas. Já pela porta de entrada, 16 novatos foram contratados – em custo total de € 450 mil – e cinco ascenderam das categorias de base.
Reflexos negativos na tabela
A saúde financeira já encaminha o Olympiacos o tricampeonato grego. Em nove rodadas, a equipe de Pireu soma oito vitórias e um empate, contando ainda com o melhor ataque e a melhor defesa. Menos abalado pela crise, o PAOK é quem tenta fazer frente, cinco pontos atrás dos líderes e com o confronto direto do primeiro turno ainda por vir.
Habitual rival, o Panathinaikos oscila no meio da tabela graças ao alto número de empates – são cinco em nove partidas. Se nos últimos anos o time se manteve na disputa pelo título graças a um artilheiro inspirado, a fórmula não surte resultados desta vez – Sebastian Leto, o matador de 2011/12, sofreu lesão séria no joelho e passará o primeiro turno no estaleiro. A defesa tem funcionado bem, com apenas sete gols sofridos, mas o ataque mantém média pífia de um tento por jogo. E, em um grupo ao lado de Tottenham e Lazio, a situação também se complica na Liga Europa, com dois pontos em três partidas.
Na lanterna, o AEK conta com o elenco com menor média de idade da Super League (22,6 anos) e somente cinco estrangeiros, mais apenas que outros três times. E a falta de experiência deve custar caro. São apenas quatro gols marcados por um time que demorou sete rodadas para alcançar a primeira vitória. Os atenienses aparecem na 16ª posição, mas, na atual situação, com um ponto já sairiam da zona de rebaixamento.
Se o Panathinaikos ainda vislumbra uma recuperação para alcançar ao menos os playoffs, que podem render vaga nas preliminares da Liga dos Campeões, o destino do AEK parece selado. Em uma temporada que prometia ser histórica pelo 40º título – e a quarta estrela no peito – do Olympiacos, ela pode se tornar ainda mais marcante, com o rebaixamento inédito das Dikefalos Aetos.



