Europa

O adeus a Walter Smith, o treinador que representou o Rangers como raríssimos e conseguiu elevar a grandeza de um clube gigante

Falecido aos 73 anos, Walter Smith conquistou dez títulos escoceses em pouco mais de 11 anos à frente do clube e seguirá venerado em Ibrox

A Escócia possui um lugar privilegiado entre as nações que mais geraram técnicos míticos para o futebol. Matt Busby, Bill Shankly e Alex Ferguson construíram suas carreiras fantásticas sobretudo na Inglaterra. Já no Campeonato Escocês, se Jock Stein costuma ser bastante celebrado como o primeiro britânico a faturar a Champions, em seu período vitoriosíssimo no Celtic, Walter Smith compartilha um lugar parecido no coração da torcida do Rangers, como o principal mentor dos feitos do clube nas últimas décadas. A partir dos anos 1990, em suas duas passagens por Ibrox, o veterano enfileirou 21 títulos em pouco mais de 11 anos, incluindo nada menos que dez troféus do Campeonato Escocês. Seu nome pode nem ser o mais mencionado fora do Reino Unido, mas o status de lenda é bastante celebrado pelos compatriotas, especialmente em Glasgow. Um gigante do futebol que faleceu nesta terça-feira, aos 73 anos, após meses com a saúde debilitada.

Walter Smith conhecia a paixão pelo Rangers desde a infância. Nascido em Lanark, ele pôde cultuar os ídolos dos Teddy Bears desde cedo, levado pelo avô às arquibancadas de Ibrox. Inclusive, em seus primeiros anos como torcedor, acompanhou os últimos anos de trabalho de Bill Struth – o treinador mais vitorioso da história do clube, uma espécie de “mito fundador” das glórias dos Gers e um parâmetro ao que o próprio Smith faria décadas depois. De 1920 a 1954, Struth somou 30 títulos totais, sendo 18 na liga nacional. O mais capaz de alcançá-lo seria exatamente Walter Smith, com uma assiduidade de conquistas até maior.

Como jogador, porém, Walter Smith nunca cumpriu o sonho de vestir as cores do Rangers. Seria um defensor de carreira mais modesta, ligada sobretudo ao Dundee United, onde costumava figurar entre o primeiro e o segundo quadro. Versátil, Smith ganhou as primeiras chances como profissional em 1967, logo após completar 19 anos. A partir dos anos 1970, tornaria-se um pupilo de Jim McLean, outro treinador venerado na Escócia por transformar o patamar dos Tangerines, rumo às primeiras taças faturadas pelo clube numa frutífera década de 1980, e que infelizmente também faleceu há pouco tempo, em dezembro de 2020.

Walter Smith e Jim McLean

Smith disputou a primeira decisão de elite do Dundee United, em derrota para o Celtic na final da Copa da Escócia de 1973/74. O defensor chegou a ter uma passagem breve pelo Dumbarton, antes de ser levado de volta por McLean ao Tannadice Park em 1977. Contudo, sua carreira acabaria abreviada por uma lesão pélvica e o defensor pendurou as chuteiras em 1980, aos 32 anos. Ainda teve tempo de compor o elenco que conquistou a Copa da Liga Escocesa em 1980, antes de disputar sua última partida pela equipe principal em setembro daquele mesmo ano.

Tão logo se despediu dos gramados, Walter Smith já iniciou sua jornada à beira do campo. Bastante estudioso e com uma personalidade forte, o ex-defensor foi assistente de Jim McLean e contribuiu para as maiores façanhas do Dundee United, com o título inédito no Campeonato Escocês em 1982/83 e a campanha até as semifinais da Champions na temporada seguinte. Ao mesmo tempo, Smith também passou a desenvolver talentos nas seleções escocesas de base. Como treinador da equipe sub-18, o veterano seria campeão europeu da categoria em 1982. Depois, também comandaria o time sub-21 da Tartan Army. Nesta época, chegou a dirigir Steve Clarke, que se tornaria o atual treinador da seleção.

Nos corredores da federação escocesa, Walter Smith teve contato com Jock Stein, então comandante do time principal. E depois do trágico falecimento da lenda, às vésperas da Copa do Mundo de 1986, o novato seria promovido a assistente de Alex Ferguson no Mundial do México. Pôde absorver um pouco mais de outro gigante do futebol, às vésperas da mudança de Sir Alex a Old Trafford, embora também tenha transmitido seus conhecimentos e suas virtudes nos meses de parceria. A amizade, acima disso, perduraria para sempre.

Walter Smith e Souness

Walter Smith chegou a ter um breve período como dirigente do Dundee United. Já em abril de 1986, antes mesmo de trabalhar na Copa do Mundo, acabou convidado para ser assistente do Rangers. Smith se tornaria o braço direito de Graeme Souness, contratado para ser jogador-treinador dos Teddy Bears no final de sua carreira. Apesar do status que possuía no Dundee United, o auxiliar não recusaria a oportunidade de estar em Ibrox e viver por dentro o clube de seus amores. Mais do que isso, Smith foi um dos grandes responsáveis por impulsionar o Rangers em uma das eras mais vitoriosas da agremiação, após anos de mediocridade.

Souness foi o responsável por encerrar um jejum do Rangers no Campeonato Escocês que durou nove anos, com o título de 1986/87. Walter Smith, ainda assim, era uma figura recorrente à beira do campo enquanto o treinador principal seguia atuando em campo. E o braço direito também contribuiu para as taças em 1988/89 e 1989/90. Já em abril de 1991, Souness aceitou o convite para dirigir o Liverpool, clube do qual é um dos maiores ídolos. Com o tricampeonato nacional na mira, Smith tornou-se o sucessor natural à frente dos Gers e não desperdiçou a oportunidade de levantar mais uma taça, vencendo o confronto direto com o Aberdeen na reta final. Com o ex-assistente, a hegemonia se consolidou e atingiu um patamar inédito ao clube.

Pela primeira vez em sua história, o Rangers conseguiu faturar nove títulos consecutivos do Campeonato Escocês. Walter Smith esteve presente em todos eles, nos sete últimos como o comandante principal. Sua segunda temporada completa em 1992/93, aliás, guardou outros feitos especiais. Os Teddy Bears levaram a tríplice coroa doméstica, o que não acontecia na Escócia desde 1978. Também alcançaram o quadrangular semifinal da Champions League, ficando a um ponto da decisão, e emendaram uma sequência invicta que durou 44 jogos.

Smith, Gascoigne e Trevor Steven celebram o oitavo título escocês (Foto: Getty Images / One Football)

Cabe dizer que aqueles eram anos bastante abastados em Ibrox, com a reunião de alguns dos melhores jogadores da Escócia (a exemplo de Ally McCoist, Andy Goram ou Stuart McCall) e mesmo de estrelas de seleções estrangeiras – como Paul Gascoigne, Brian Laudrup e Mark Hateley. Enquanto o Celtic atravessava um período de crise, o Rangers tinha no Aberdeen seu principal concorrente, até que os alviverdes se restabelecessem na segunda metade da década de 1990. Nada que diminua o trabalho gigantesco de Walter Smith, capaz de gerir todas as estrelas em seu grupo e de montar equipes de bastante poderio, com defesas seguras e ataques baseados no talento individual.

Além das virtudes táticas, de quem sabia muito bem ler uma partida para mudar seus rumos e conquistar vitórias, Walter Smith se destacava por sua capacidade de gestão. O treinador mantinha uma relação calma e afável com os jogadores, mas não perdia sua autoridade dentro dos vestiários. A lealdade e o comprometimento eram chaves para o seu sucesso, conquistando também seus comandados e ajudando a desenvolvê-los. Além disso, a mentalidade competitiva era um diferencial para sustentar a hegemonia do Rangers por tanto tempo seguido, e com constantes renovações no elenco.

O fim da primeira passagem de Walter Smith pelo Rangers aconteceu em 1997/98. Naquele momento, o treinador vinha pressionado por não corresponder com frequência na Champions League e anunciaria com meses de antecedência seu adeus para o final da temporada. E foi exatamente naquela edição do Campeonato Escocês que o Celtic, estrelado por Henrik Larsson, impediu o inédito decacampeonato dos maiores rivais. Os Teddy Bears até levaram a Copa da Escócia, mas não foi isso que tirou o gosto amargo na despedida de seu histórico treinador. Aquela história, de qualquer forma, ainda não estava acabada.

Walter Smith, na primeira passagem pelo Rangers (Foto: Getty Images / One Football)

Walter Smith chegou a anunciar sua aposentadoria do futebol, aos 50 anos, mas mudou de ideia quando o Everton o convidou para viver sua primeira experiência na Premier League. Porém, numa fase conturbada dos Toffees, o escocês precisaria contornar as limitações no Goodison Park. A diretoria não cumpriu todas as promessas de reforçar a equipe, vendeu ídolos sem consultar o comandante e os resultados foram modestos em campo. O Everton se acostumou a figurar na parte inferior da tabela por três temporadas sob as ordens de Smith, lutando contra o rebaixamento, até sua demissão em março de 2002. Seu substituto seria outro escocês, David Moyes, que viveria um período bem mais satisfatório em Liverpool.

A relação de Walter Smith com Sir Alex Ferguson ainda o levou para o Manchester United, tornando-se novamente assistente por um breve período em 2004, até aceitar o convite para dirigir a seleção da Escócia. Após um período de declínio da Tartan Army, os bons resultados do novo comandante foram suficiente para uma renovação de ares e de nomes, por mais que o time não tenha registrado grandes feitos. A equipe escocesa não se classificou para a Copa do Mundo de 2006 e também ficou pelo caminho na tentativa de se garantir na Euro 2008, mesmo vencendo a França nesta caminhada. O veterano, entretanto, nem terminou a campanha no qualificatório continental. Em 2007, ele aceitou um chamado de volta para casa.

Em janeiro de 2007, o Rangers convidou Walter Smith para reassumir o clube e o treinador aceitou, largando a seleção escocesa. “Esse clube sempre esteve em meu sangue”, foi sua justificativa. Tal gesto por si já representa o tamanho de sua consideração pelos Teddy Bears. Aquele era seu lar, com a esposa, os dois filhos e os netos constantemente vistos nas instalações da agremiação. E de novo o velho ídolo emendaria conquistas em Ibrox.

Walter Smith, na segunda passagem pelo Rangers (Foto: Getty Images / One Football)

O sinal de que o Rangers voltava aos prumos aconteceu em 2007/08, com a conquista da Copa da Liga Escocesa e também a campanha até a decisão da Copa da Uefa – deixando pelo caminho Panathinaikos, Werder Bremen, Sporting e Fiorentina, até a derrota na final para o Zenit. Mesmo sem a glória europeia na galeria de títulos de Smith, a trajetória na competição já surpreendeu, num time dos Gers que não se aproximava da força dos anos 1990 (já com os problemas financeiros que se agravariam em pouco tempo) e que ainda sofreu com diversos desfalques importantes para a decisão.

Se o impacto europeu acabou sendo um fato isolado, Walter Smith logo recuperaria seu trono no Campeonato Escocês. O Rangers se tornou tricampeão a partir de 2008/09, também faturando mais uma vez a Copa da Escócia e mais duas a Copa da Liga. Ao final da temporada 2010/11, Smith anunciou sua despedida do futebol aos 63 anos e passou o bastão Ally McCoist, seu antigo artilheiro em campo que virou assistente. Coincidentemente, aquele tricampeonato e o adeus da lenda antecederam a derrocada dos Gers, com a falência do clube e a reconstrução a partir da quarta divisão. Seu título foi o último antes do eneacampeonato do Celtic, até que Steven Gerrard liderasse os Teddy Bears na conquista da temporada passada, impedindo o inédito deca dos arquirrivais.

Durante os anos de penúria do Rangers, Walter Smith teve uma participação breve dentro do clube, fazendo parte da diretoria nos primeiros meses sob nova administração. Deu tempo de viver, ainda assim, o primeiro passo na ascensão, com a promoção para a terceira divisão. Mesmo sem um cargo oficial depois disso, no entanto, era impossível que a lenda se desligasse por completo de Ibrox. Seguiu como uma espécie de conselheiro, mantendo contato próximo com treinadores, e também compareceu assiduamente às arquibancadas, como um ilustre torcedor. Ele era parte da história viva dos Gers e uma relíquia dos períodos gloriosos em meio ao caos. Raríssimos entendiam o clube como ele e podiam transmitir tal grandeza, em tempos tão incertos.

As homenagens a Walter Smith em sua despedida como treinador (Foto: Getty Images / One Football)

Em março de 2021, Walter Smith precisou passar por uma cirurgia e ficou continuamente internado para tratar de sua saúde. Assim, semanas depois, tornou-se uma ausência sentida nas comemorações pela reconquista do Campeonato Escocês em 2020/21. Ao menos, o veterano pôde testemunhar os Teddy Bears de volta ao topo e recuperando a força, como tão constante em sua passagem por Ibrox. E mesmo hospitalizado, manteve contato com membros dos Gers. Nesta terça, então, veio a triste notícia de seu falecimento em decorrência dessas complicações de saúde – não especificadas na imprensa.

Atual presidente do Rangers, Douglas Park foi um dos primeiros a se manifestar: “É quase impossível resumir o que Walter significava para cada um de nós no Rangers. Ele personificava tudo que um ranger deveria ser. Seu caráter e liderança eram incomparáveis, e viverão na memória de cada um que trabalhou com ele em suas duas passagens pela equipe principal. Falei com Walter recentemente, no último final de semana. Mesmo lutando contra sua doença, ele ainda dava conselhos e apoio. Por isso, agradeço pessoalmente. Sei que ele continuava também a conversar com membros da nossa comissão técnica, incluindo nosso técnico, Steve Gerrard. Walter fará muita falta a todos nós no Rangers. Para os torcedores, ele era muito mais que um técnico. Walter era um amigo para muitos, um líder, um embaixador e, acima de tudo, uma lenda”.

Steven Gerrard, da mesma maneira, prestou tributo ao mentor: “É tudo muito recente, mas é um dia triste para todos ligados ao clube. Walter era um líder incrível, um treinador de muito sucesso no Rangers. Ele resumiu tudo o que esse clube representa. Seu DNA está ao redor do clube. Ele me apoiou desde meu primeiro dia. Tive muitos almoços, jantares, cafés, conversas e momentos privados com ele em meu escritório. Então, ele obviamente será uma grande perda. Ele é condecorado por todo o clube e será eterno, porque dedicou muitos anos ao Rangers. Ele amava o clube. Ele era honesto, genuíno e me fez uma pessoa melhor. Não tenho nada a dizer além de boas palavras. Tive a sorte de conhecê-lo e de passar um tempo com ele”.

Walter Smith e o amigo Ferguson

O velho amigo Alex Ferguson foi outro a valorizar a figura do antigo assistente: “Walter Smith era uma pessoa especial. Ele foi um grande amigo por anos e anos. Durante todo esse tempo, ele era um homem com grandes valores morais na maneira como vivia e na amizade que oferecia a tantas as pessoas. Ele tinha uma conexão maravilhosa com as pessoas porque era um grande ouvinte. Era uma de suas maiores qualidades. Ele ouvia e demonstrava interesse nas pessoas, ajudava todo mundo que podia. Sua contribuição ao futebol foi imensa. Eu sentirei bastante sua falta”.

Já Graeme Souness escreveu uma carta em conjunto com Sir David Murray, antigo presidente do Rangers no período e outra figura imensa na história do clube: “O futebol escocês perdeu um de seus melhores. Mesmo na orgulhosa história do Rangers, Walter Smith se destaca como um colosso. Walter teve um efeito profundo em nossas vidas – certamente como técnico, líder e um sábio conselheiro, mas também sempre como um próximo e estimado amigo”. Ou como pontuaria Ally McCoist, talvez o maior pupilo de Walter Smith: “Ele era como um segundo pai. Walter foi o melhor marido, pai, amigo – tudo o que você deseja de um homem. Não posso dizer como estou devastado”.

Mesmo técnicos que não tiveram ligação direta com Walter Smith o exaltaram, a exemplo de Pep Guardiola: “Eu estava, logicamente, ciente da carreira impressionante de Walter antes de vir para a Premier League, mas nos últimos cinco anos tive a oportunidade de ver que homem humilde, perspicaz e muito genuíno ele era. Sempre gostei de estar com Walter e tínhamos planejado jantar juntos novamente. Eu me sinto feliz por tê-lo conhecido e mando minhas condolências à família, que perdeu um homem muito especial”.

Walter Smith em uma de suas últimas aparições no Estádio Ibrox, em março de 2021 (Foto: Getty Images / One Football)

E talvez o maior sinal da grandeza de Walter Smith tenha vindo do outro lado da rivalidade, com o Celtic reiterando seu pesar e chamando o ex-treinador de “tremendo servidor do futebol escocês”. Por mais que encarnasse o espírito do Rangers e fosse um torcedor fervoroso do clube, de sangue azul, Smith sempre tratou com cordialidade os oponentes da Old Firm – a ponto de contribuir para a quebra de barreiras, sendo internamente um dos entusiastas na polêmica contratação de Mo Johnston em 1989. Na vigília realizada diante dos portões do Estádio Ibrox, até mesmo torcedores alviverdes levaram suas lembranças para a despedida do comandante.

É essa a estatura de Walter Smith: exaltado por amigos e adversários, mas sobretudo venerado pelos torcedores do clube que ajudou a tornar ainda mais vitorioso. São poucos os técnicos tão transformadores em equipes de passado riquíssimo como o Rangers. Mesmo entre gigantes, Smith costuma ser repetidamente incluído ao lado dos maiores do futebol escocês. Ver sua estátua em Ibrox será apenas uma questão de tempo. Só assim para suplantar a figura onipresente nos sucessos dos Gers durante as últimas três décadas e representar minimamente a memória esplendorosa que o veterano deixa na torcida azul.

Os tributos em Ibrox a Walter Smith (Foto: Getty Images / One Football)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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