Europa

O adeus a Andy Goram, o maior goleiro da história do Rangers – e o grande pesadelo do Celtic

Andy Goram foi um símbolo dos vitoriosos anos 1990 do Rangers, enquanto defendeu a seleção escocesa em 48 partidas - cinco delas no críquete

“The Goalie”. O apelido era simples, mas ao mesmo tempo imponente. Por bons anos, Andy Goram foi mesmo O Goleiro para a torcida do Rangers. O camisa 1 se agigantava em partidas de peso. Tinha um gosto particular pela Old Firm, sobretudo, quando praticava seus maiores milagres. E exibia uma coleção de títulos que justificava tal fama. Dos nove troféus seguidos faturados pelos Teddy Bears no Campeonato Escocês durante os anos 1990, ele esteve presente em seis. Não era um arqueiro alto e tinha problemas com a balança, mas compensava com ótimo posicionamento, agilidade impressionante e muita capacidade para crescer diante dos atacantes. Foram 43 partidas pela seleção da Escócia, titular em duas Eurocopas, mas o fato de ter sido preterido por Jim Leighton em três Mundiais custa ao seu reconhecimento internacional. Em Ibrox, porém, Goram será para sempre uma lenda dos Gers – a ponto de figurar no time ideal de todos os tempos do clube. É assim que sua memória se preserva, diante da notícia de sua morte neste sábado, aos 58 anos, vítima de um câncer no esôfago.

Andy Goram era goleiro desde o seu DNA. Seu pai, Lewis Goram, atuou na posição e jogou profissionalmente entre 1947 e 1963. Embora nascido em Edimburgo e com passagem pelo Hibernian, o grande momento de sua carreira aconteceu na meta do Bury. Foram nove anos defendendo a equipe, entre a segunda e a terceira divisão do Campeonato Inglês. Depois de se aposentar, Lewis voltou à cidade. Não à toa, Andy nasceu em Bury, região de Manchester, em 1964. Foi criado na Inglaterra, mas identificando-se como escocês por causa de sua família.

A carreira de Andy Goram começou um pouco mais ao sul, na meta do West Brom, onde ele atuou durante as categorias de base. Dispensado aos 17 anos, assinou logo depois com o Oldham Athletic. Foi onde sua trajetória realmente decolou a partir de 1981. Curiosamente, não só no futebol. Enquanto figurava na segunda divisão do Campeonato Inglês, o goleiro também atuava na liga local de críquete. Teria uma carreira respeitável na modalidade, inclusive figurando na primeira divisão. No entanto, era mesmo sob as traves que o arqueiro atingia seu melhor nível e construía sua fama.

(Bruty/Allsport/Getty Images/One Football)

O Oldham não saiu da segunda divisão enquanto Andy Goram atuou por lá, mas o goleiro marcou época. Superou os 200 jogos pelo clube e chegou a ser eleito o melhor da posição na segundona em 1986/87. Tinha a sorte de ser preparado por Alan Hodgkinson, goleiro reserva da Inglaterra nas Copas de 1958 e 1962, considerado um dos melhores treinadores de goleiros britânico do período. O veterano depois trabalharia com Goram em outros momentos da carreira. E o considerava do mesmo nível de Peter Schmeichel, seu pupilo durante os primeiros anos do dinamarquês no Manchester United.

A esta altura, Goram já era um jogador de seleção. Em 1983, o jovem de 19 anos chegou a ser convocado por Howard Wilkinson para a seleção inglesa sub-21, mas não entrou em campo “por ser muito baixo”. Desta maneira, conforme as regras da época, seguiu como uma opção para a seleção da Escócia. O primeiro a chamá-lo para a Tartan Army foi Sir Alex Ferguson, em outubro de 1985, para um amistoso contra a Alemanha Oriental. Nas arquibancadas do Hampden Park, a torcida escocesa cantava para o novo arqueiro: “Você não é mais inglês”. Goram participou da preparação à Copa de 1986 e esteve presente no México, embora fosse reserva de Jim Leighton, destaque do Aberdeen.

Em 1987, Andy Goram pôde jogar profissionalmente em seu país, contratado pelo Hibernian. Teria a chance de fazer seu nome no clube onde seu pai atuou brevemente. O arqueiro não ganhou títulos em Edimburgo, mas se colocou entre os grandes ídolos alviverdes no período. Foi capitão dos Hibs e auxiliou o clube em campanhas na Copa da Uefa. Além disso, permaneceu como um convocado frequente à seleção. Participou também da Copa de 1990, ainda como reserva de Leighton na meta da Escócia. E o mais anedótico é que seria até convocado para a seleção de críquete. Disputou cinco partidas, tornando-se o único escocês da história a ter defendido o país em ambas as modalidades no nível principal. Depois de um jogo contra a Austrália, contudo, foi multado pelo Hibernian.

O grande passo da carreira de Andy Goram aconteceu em 1991, quando o arqueiro assinou com o Rangers. Os Teddy Bears pagaram £1 milhão pela transação, um valor respeitável. O novo camisa 1 suplantava Chris Woods, reserva da seleção inglesa nas duas Copas anteriores, que tinha passado cinco anos em Ibrox. Com a criação da regra que limitava três jogadores estrangeiros por time nas competições europeias, a opção foi por um goleiro escocês. A missão de Goram era grande naquele primeiro momento, ao chegar para liderar uma equipe que vinha de três títulos consecutivos no Campeonato Escocês. O técnico Walter Smith, antigo assistente que assumia o comando dos Gers com a saída de Graeme Souness, pediria para que o arqueiro deixasse o críquete de lado e se dedicasse somente ao futebol. Viveu seu auge.

(Shaun Botterill/Allsport/Getty Images/One Football)

Durante sua primeira temporada, Andy Goram ainda levou um tempo para se afirmar, mas virou ídolo assim que deslanchou. Os Teddy Bears conquistaram o Campeonato Escocês mais uma vez e também a Copa da Escócia. Seu momento era tão bom que, enfim, se tornaria o titular da seleção da Escócia. Foi o dono da posição durante a Euro 1992. Já em 1992/93, os Gers atravessaram uma das melhores temporadas de sua história. Conquistaram a tríplice coroa nacional, com os troféus no Campeonato Escocês, na Copa da Escócia e na Copa da Liga Escocesa. Chegaram a ficar 44 partidas invictos. Em meio a isso, a campanha na Champions League foi inesquecível.

Durante a caminhada continental, o Rangers eliminou o Leeds United na segunda fase – que dava vaga num quadrangular semifinal. Em Elland Road, Andy Goram teve uma das maiores atuações de sua vida. Os Teddy Bears venceram por 2 a 1, graças ao seu goleiro. O camisa 1 realizou sete defesas difíceis, incluindo alguns milagres. Travou um duelo particular com Eric Cantona e, apesar de vazado uma vez, frustrou o francês em outras quatro oportunidades claras. E havia um gosto de vingança contra o técnico Howard Wilkinson, o mesmo que o renegara na seleção inglesa sub-21. Os Gers passaram perto da decisão naquela Champions, ficando a um ponto da classificação no quadrangular semifinal, atrás do futuro campeão Olympique de Marseille.

Andy Goram seria eleito o melhor jogador escocês da temporada em 1992/93, tamanha inspiração. Foi quando o apelido de “The Goalie” pegou. O sucesso também se sustentava pelas grandes exibições na Old Firm. O goleiro tinha um gosto especial por frustrar os atacantes do Celtic e algumas das maiores defesas de sua carreira aconteceram no clássico. Era uma época de seca aos alviverdes, que acabava maltratada pelo arqueiro. E tal nível de qualidade também auxiliava Goram a manter seu lugar preservado, mesmo acumulando episódios de indisciplina e capas de tabloide por seu gosto pela boemia. Transmitia confiança aos companheiros, por mais que recebesse o sugestivo apelido de “Hipopótamo Voador” nos vestiários.

Na temporada seguinte, Goram precisou passar por uma cirurgia no joelho e pouco atuou, com Ally Maxwell ganhando a posição no Rangers. Seu nome foi colocado na lista de transferências, também por entrar em atrito com Walter Smith por problemas disciplinares, mas o camisa 1 provaria que Ibrox era a sua casa. Já auxiliou mais na temporada 1994/95, enquanto se tornou novamente o titular absoluto em 1995/96. A esta altura, o Rangers chegava a oito títulos consecutivos no Campeonato Escocês. Mais uma vez, a Old Firm de janeiro de 1996 guardaria uma das melhores exibições de Goram pelos Gers. Depois daquela partida, Tommy Burns, técnico dos alviverdes, comentou: “Na minha lápide estará escrito: ‘Andy Goram partiu meu coração'”.

Andy Goram voltaria aos grandes palcos internacionais, outra vez na meta da seleção para a Euro 1996. Mesmo que sua disputa com Leighton se acirrasse e o concorrente tenha atuado ao longo das eliminatórias, The Goalie retomava o posto na fase final da competição. Seria uma campanha curta da Tartan Army, marcada pela derrota contra a Inglaterra na fase de grupos. Goram acabou sofrendo um dos maiores gols da história do torneio, diante de Paul Gascoigne, um de seus melhores amigos nos Gers. Em sua despedida da competição, ao menos, o goleiro operou um milagre para garantir a vitória sobre a Suíça por 1 a 0. Pelo número de gols marcados, porém, a Tartan Army estava eliminada atrás da Holanda.

Andy Goram completou os nove títulos consecutivos do Rangers no Campeonato Escocês em 1996/97. Durante aquela campanha, em novembro, o goleiro pegou um pênalti a cinco minutos do fim para garantir a vitória na Old Firm em pleno Parkhead. No entanto, na temporada seguinte, veria o Celtic quebrar a sequência de títulos e impedir o sonhado decacampeonato dos Gers. Aquele seria o seu último ano em Ibrox, dispensado em meio a uma reformulação ampla ocorrida no clube, que culminou na saída do técnico Walter Smith, bem como no adeus de outros ídolos como Ally McCoist, Stuart McCall e Brian Laudrup.

Mais um episódio amargo aconteceu às vésperas da Copa do Mundo de 1998. Convocado para seu terceiro Mundial, Goram foi avisado pelo técnico Craig Brown que Leighton seria o titular na França. Já num período de treinamentos nos Estados Unidos, Goram desistiu do torneio restando três semanas para a estreia contra o Brasil e abandonou a concentração. Segundo sua justificativa, ele preferia não arriscar uma lesão nos treinos, num momento em que precisava procurar um novo clube. O veterano não estava em sua melhor condição mental, também. Além de ter uma forma leve de esquizofrenia, lidava com o fim do casamento e com os vícios em apostas e álcool.

Aos 34 anos, Andy Goram tentou a sorte na Inglaterra. Teve uma passagem curtíssima pelo Notts County, antes de atuar em sete partidas pelo Sheffield United. Voltaria a ganhar sequência apenas quando voltou à Escócia, passando três anos como titular do Motherwell e atravessando bons momentos. Já em março de 2001, aconteceu uma oportunidade rara em sua carreira: ele foi convidado para preencher o elenco do Manchester United de maneira emergencial, após as lesões de Fabien Barthez e Raimond van der Gouw. Era um reencontro com Ferguson, que o chamou de “goleiro de jogos grandes” na apresentação. Acabou atuando em apenas duas partidas pela Premier League, sagrando-se campeão em meio ao tricampeonato dos Red Devils.

(Stu Forster/Allsport UK/One Football)

Goram não ficaria mais do que três meses no Manchester United. Depois disso, rodou por vários clubes menores da Escócia e da Inglaterra. Passou por Hamilton Academical e Coventry, antes de atuar por cinco jogos com o Oldham, sua antiga equipe. Também jogou no Queen of the South, pelo qual faria história em 2002/03: conquistou a Challenge Cup, uma copa nacional escocesa disputada pelos times das divisões de acesso, e se tornou o primeiro atleta a vencer todas as competições oficiais na Escócia. Já a aposentadoria aconteceu no ano seguinte, pelo Elgin City, aos 40 anos de idade.

Andy Goram não esteve longe do futebol após pendurar as luvas. Ele passou a trabalhar como treinador de goleiros, em clubes das divisões de acesso do Campeonato Escocês. Permanecia como um personagem muito querido, especialmente nas visitas a Ibrox. Não à toa, acabaria votado para a seleção de todos os tempos do Rangers, sem sofrer gols em 107 das 258 partidas que disputou pela agremiação. Já em 2010, teve a honra de entrar para o Hall da Fama do futebol escocês. Era essa sua dimensão na história do esporte nacional.

No fim de maio de 2022, Goram foi diagnosticado com um câncer no esôfago em estágio avançado, que não podia ser operado. Os médicos deram poucos meses de vida ao veterano. O ídolo sequer pôde receber uma última homenagem em Ibrox. Nesta semana, aos 58 anos, a lenda azul faleceu. Deixa grandes alegrias às suas antigas torcidas e memórias inexoráveis dos tantos milagres que realizou. Quando a temporada recomeçar, certamente os Teddy Bears farão um tributo à altura da lenda que tanto contribuiu ao período mais vitorioso da história do clube.

(Jeff J Mitchell/Getty Images/One Football)
(Jeff J Mitchell/Getty Images/One Football)
(Jeff J Mitchell/Getty Images/One Football)
(Jeff J Mitchell/Getty Images/One Football)
(Jeff J Mitchell/Getty Images/One Football)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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