Ninguém cala o chororô auri-negro

Choro, raiva, ameaças de não entrar em campo… Tudo isso parece uma situação muito familiar para aqueles que acompanham o futebol carioca, mais especificamente. Mas não. Desta vez isto aconteceu na Grécia. É o AEK que faz a versão grega do chororô, se sentindo prejudicado pelas atitudes da EPO (federação grega de futebol).
As comemorações pelo 35º título grego pelo Olympiacos ficaram de lado para a mídia grega. O que realmente chamou a atenção da mídia foram as virulentas reclamações dos dirigentes, jogadores e torcedores do AEK Atenas -que… bem, tem alguma semelhança com a reação que o Botafogo teve depois da final da Taça Guanabara.
Aliás, a trajetória recente do clube ateniense lembra um pouco a dos cariocas. De um time praticamente em ruínas, conseguiu se reerguer, sendo dirigido por um notável ligado à história do clube. E, nos últimos anos, sempre tem conseguido chegar próximo de objetivos maiores, mas acaba falhando em algum momento, por algum detalhe, frustrando a sua torcida, sedenta por glórias e alegrias.
Pois bem. Por dois pontos, o AEK foi superado pelo Olympiacos, e, pela terceira vez consecutiva, fica com o vice-campeonato da Super League. Mas neste ano, a história foi diferente do discurso tradicional de “perdemos em campo, eles foram melhores”. Tudo por conta de uma trapalhada da EPO.
A última rodada da Super League foi disputada neste final de semana, no dia 20 de abril. Mas só foi definida apenas no dia seguinte, após uma reunião da Corte de Arbitragem do Esporte, em Lauzanne, na Suíça.
Como foi citado na seção de curtas da última coluna, os esqueletos guardados dentro do armário durante a temporada realmente causaram uma grande confusão na reta final da liga grega. O centro da polêmica foi a partida entre Olympiacos e Apollon Kalamarias, disputada em fevereiro.
Relembrando o caso, a partida foi vencida pelo clube da região de Tessalônica. Porém, o austríaco Roman Wallner, que atuou pelos rossoneri, não poderia ter sido inscrito e estar em campo, já que tivera mais de duas transferências internacionais no mesmo ano.
Aqui no Brasil já houve uma situação parecida. Romário saiu do Vasco, se transferindo para os EUA e para a Austrália antes de tentar voltar para o Brasil em 2006. Porém, o atacante conseguiu provar que a sua situação era peculiar, já que a temporada brasileira não segue o calendário europeu, e conseguiu voltar a jogar pela equipe carioca no início de 2007.
Porém, um erro da EPO permitiu que Wallner entrasse em campo, dando a inscrição para o austríaco. Depois de tudo acontecer, o Olympiacos, que nada tinha com a história, se sentiu prejudicado, e acabou com a anotação de uma vitória por três a zero, ao invés de uma derrota por um a zero.
Este resultado alterou a tabela de forma decisiva. Tanto do lado de cima, dando uma forcinha para o Olympiacos -que só conquistou o título por causa deste resultado-, tanto condenando o Apollon para a Beta Ethniki (a segundona grega).
Como se fosse apenas para aumentar as acusações de que o Olympiacos é sempre beneficiado pelas decisões da EPO, a federação grega protelou a decisão deste caso o quanto pode. E, quando fez o pedido para a Corte de Arbitragem decidir o que fazer com o caso –na semana passada-, o cenário já estava definido.Tanto o Apollon não tinha mais chance de escapar da degola, quanto o título já estava nas mãos dos Thrylos.
E este foi um dos argumentos extra-oficiais para que a CAS não mexesse nos resultados da Super League a principio. Obviamente, o AEK, um dos prejudicados indiretos, chiou, reclamou, esperneou. Mas não teve jeito. E o título, mais uma vez, foi para Pireu.
O Playoff
Um dos motivos para o AEK não reclamar muito mais, nem estender a briga pela espera da definição da CAS foi a disputa do Playoff para as vagas européias.
Disputado pela primeira vez, esta série final reúne os quatro times que ficaram entre a segunda e a quinta colocações da liga grega (AEK, Panathinaikos, Aris e Panionios), num sistema de mini-liga. A grande surpresa desta lista é o Panionios, que superou o Asteras Tripolis apenas na última rodada, graças a uma derrota do clube do Peloponeso para o AEK e uma vitória dos Istorikos sobre o Atromitos.
O campeão desta mini-liga receberá a chance de disputar a Uefa Champions League, o vice seguirá para a Copa da Uefa, e o terceiro ficará com a vaga na Intertoto.
Obviamente, quem chega à frente tem as suas vantagens nesta fase. Assim, os Dikefalos saem com oito pontos nesta fase final, seguidos por Panathinaikos, com sete, Aris, com dois, e o Panionios, sem pontos.
Tudo na mesma
Como uma seqüência de um filme ruim, o roteiro se repete na Grécia. E, como já era esperado, o Olympiacos conquistou o título da Super League grega. A vitória na última rodada, tranquila, por três a um sobre o Iraklis, de Tessalônica, apenas confirmou a festa dos torcedores alvi-rubros no estádio Giorgios Karaiskakis.
Assim, o Olympiacos termina um ano que, no balanço dos resultados alcançados, acaba um pouco acima da média dos últimos anos. Afinal, este é, como o caro leitor já deve estar careca de saber, o décimo primeiro título grego em doze anos. Uma dominação impressionante dos alvi-rubros no território helênico.
Além disso, a alegria dos torcedores do Olympiacos pode aumentar ainda mais. Afinal, no próximo dia 17 de maio, os Thrylos enfrentam o Aris Tessalônica no estádio Kaftanzoglio (na cidade do rival), no jogo decisivo da Copa da Grécia, o que pode garantir mais uma dobradinha para o clube.
É verdade que nesta temporada os alvi-rubros não foram tão impiedosos internamente. Enfrentaram algumas dificuldades, e quase se complicaram no campeonato nacional.
Porém, em compensação, tiveram uma campanha européia como há muito tempo não tinham. Apesar da partida que marcou a despedida dos Thrylos dos gramados europeus nesta temporada não ter sido daquelas que serão lembradas com orgulho pelos seus torcedores, a campanha atual foi uma das melhores campanhas da história do clube. As vitórias sobre Werder Bremen e Lazio foram as primeiras do clube grego fora do território helênico, e não serão esquecidas tão cedo pelos fanáticos torcedores.
Assim, mais pela campanha internacional do que pela nacional, a temporada 2007/8 que termina agora para os Thrylos deverá ser lembrada de forma positiva. E momentos complicados, que quase entornaram o caldo, como a saída do técnico Panagiotis “Takis” Lemonis e a goleada para os rivais do AEK (4 a 0) na reta final do campeonato (27ª rodada de 30), podem ser relevados.
Assim, se deduz que muito da tranquilidade acontece por causa do gol que praticamente garantiu o título para os Thrylos, marcado no último minuto do jogo contra o Larisa (na penúltima rodada). Aos 45 do segundo tempo daquele jogo dificil, Kostas Mitroglou praticamente selou a conquista, decidindo aquele jogo. E, nas duas últimas partidas do campeonato, o Olympiacos não vacilou mais, e garantiu o 35º título para os alvi-rubros.



