‘Cheguei aonde cheguei por ser Mourinho e vou ser Mourinho até o fim’
Pressionado, técnico sobe o tom para rebater críticas antes de clássico decisivo com o Porto pela Taça de Portugal
O Benfica enfrenta o Porto desta quarta-feira (14), no Estádio do Dragão, em um clássico pelas quartas de final da Taça de Portugal que tem contornos ainda mais decisivos para José Mourinho.
Campeão da Champions League de 2004 pelo rival, o hoje treinador das Águias chega à partida cercado de polêmicas e pressão, após uma entrevista coletiva explosiva na última semana, em que criticou seus jogadores pela eliminação para o Braga na Taça da Liga.
Mourinho chegou a dizer que esperava alguns atletas “não dormissem à noite” por conta da má atuação no tropeço. E nesta terça-feira (13), véspera do clássico com o Porto, o treinador voltou a subir o tom de suas falas.
Bem longe de colocar panos quentes no episódio, o treinador adotou novamente um discurso agressivo. Afirmou que chegou aonde chegou por “ser Mourinho” e que não mudaria a maneira com que lida com seus atletas por conta de uma eliminação.
— O diálogo [com os jogadores] correu muito bem, mas não consigo ser aquilo que vocês querem que eu seja. Nem como homem, nem como treinador. Eu não consigo jogar mal e dizer que joguei bem, eu não consigo aceitar mediocridade, nem dos outros, nem da minha parte. Cheguei onde cheguei por ser Mourinho e vou ser Mourinho até ao fim — disse Mourinho.
O técnico reforçou que as críticas foram apenas à atuação da equipe, à qual classificou como “horrível” em sua entrevista coletiva anterior. O treinador inclusive disse que não entende porque suas falas geraram uma “telenovela”.
— Não me parece que essas críticas que deram origem a uma telenovela sem fim tenham sido exatamente assim. E continuo a repetir que é um grupo, do ponto de vista humano, fantástico, eu amo aqueles gajos. Agora não consigo ser diferente, não consigo fazer o que vocês eventualmente gostam. Não consigo atirar areia para os olhos das pessoas, não consigo dizer que a minha equipa jogou muito bem quando jogou mal. Não consigo — completou.

Crise começou com entrevista após eliminação
Para entender o rompante de Mourinho nesta terça-feira (13), é preciso voltar à última entrevista coletiva do treinador, concedida após a eliminação na semifinal da Taça da Liga para o Braga, uma semana atrás.
Sem medir palavras, o técnico subiu o tom do discurso e fez críticas públicas à atuação de seus jogadores. O comandante chegou a dizer que a equipe fez uma partida “horrível”.
— Peço desculpas ao Braga e ao Carlos (Carvalhal, técnico do Braga). Não consigo dizer que o Braga mereceu ganhar. Tenho que dizer é que o Benfica mereceu perder. Fomos nós que fizemos uma primeira parte horrível. A partir do momento em que o (árbitro) João Pinheiro assinalou o pênalti que era fora da área, em vez de haver um clique positivo, houve um clique de negatividade, nervosismo, qualidade horrível em posse de bola, perdas de bola absolutamente incríveis — disparou Mourinho.
O técnico ainda foi além e revelou que teve uma conversa com os jogadores ali mesmo no vestiário — algo que não costuma fazer — para criticar a atuação coletiva da equipe na eliminação.
— Há coisas que se podem dizer internamente e que não se devem dizer exteriormente. Normalmente, não falo no vestiário depois dos jogos, mas hoje falei. Falei num tom crítico, mas calmo. Não houve portas pelo ar. Tive uma conversa, que acabou por ser um monólogo. Espero que os jogadores não durmam após o jogo. Houver performances individuais absolutamente inaceitáveis, que se traduzem numa performance coletiva muito fraca na primeira etapa — completou.
Entrevistas e declarações fortes à parte, a verdade é que a passagem de Mourinho pelo Benfica está bem aquém de seu histórico como treinador. A equipe ocupa a modesta terceira colocação no Campeonato Português, com 39 pontos — dez a menos que arquirrival Porto, que é o líder.
Além disso, o Benfica amarga a eliminação para o Braga na Taça da Liga, apesar de ter conseguido avançar nas fases prévias da Champions League. Ao todo, o treinador soma 62% de aproveitamento no clube, 16 vitórias, sete empates e seis derrotas em 29 jogos.


