Europa

Milan Kundera: dez trechos em que o futebol é mencionado nos seus livros

Não há registros de entrevistas de Milan Kundera falando sobre futebol, mas o esporte aparece de passagem em seis de seus livros

Milan Kundera deixou um profundo legado à literatura. O romancista, nascido na Tchecoslováquia e radicado na França após ser exilado, possui tantas obras aclamadas mundialmente e destacadas por um estilo singular de escrita. Kundera definia-se como um “um hedonista preso em um mundo politizado ao extremo”. Suas ficções andam de mãos dadas com a filosofia. Oferecem reflexões sobre diversos temas comuns ao cotidiano, sobretudo em relação à própria identidade e aos ciclos da sociedade. Tratam de sua dura realidade, após ser uma voz importante na Primavera de Praga em 1968 e acabar perseguido pela censura da ditadura. Sua obra é única e torna sua perda ainda mais sentida, nesta quarta-feira, aos 94 anos.

Os livros de Milan Kundera são universais. Inclusive, alguns personagens do futebol são seus leitores ávidos. De Sócrates a Roy Hodgson, figuras importantes do esporte têm o romancista entre seus autores preferidos. Enquanto isso, não há declarações expressas de Kundera, ao menos em registros online, sobre sua relação com o futebol – algo compreensível pela aspereza com que lidava com a imprensa. Ainda assim, é possível inferir a influência que o esporte exerceu sobre o escritor. E não se nega que ela existiu: é algo perceptível em menções presentes em vários de seus livros. Seis de suas obras possuem trechos em que o futebol é pelo menos citado de passagem. Não deixava de estar em seu imaginário.

Kundera viveu por mais de 40 anos na Tchecoslováquia, um dos centros mais influentes do futebol na Europa Central. Tinha cinco anos de idade quando o vice-campeonato mundial aconteceu em 1934; era só dois anos mais velho que Josef Masopust, Bola de Ouro e líder do time vice-campeão na Copa de 1962; exilou-se meses antes que os tchecoslovacos conquistassem a Euro 1976. O escritor era natural de Brno, cidade do Zbrojovka, clube tradicional que chegou a ser campeão nacional em 1977/78. Já na França, provavelmente a bola cruzou seu caminho enquanto vivia em Paris ou lecionava em Rennes.

Abaixo, reunimos dez trechos dos livros de Milan Kundera em que o futebol é mencionado. Os contextos podem não ficar tão claros, dentro de recortes de obras maiores. No entanto, tais menções reforçam a noção de que Kundera entendia o futebol como fenômeno social e como elemento importante dentro da vida cotidiana. Um destaque especial fica para as vezes em que o futebol serviu de metáfora para o escritor – são os sinais mais claros de que, mais do que respeitar a bola, também conhecia seus caminhos e era um interessado pelo assunto. Não é qualquer um que faz um paralelo entre conquistas amorosas e jogadores de futebol do interior, afinal.

Todos os trechos abaixo são retirados dos livros de Milan Kundera, nove deles da edição em português da Companhia das Letras. Fica também o convite para conhecer a obra.

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A insustentável leveza do ser

Os gestos de Tereza se tornavam cada vez mais bruscos e incoerentes. Haviam se passado dois anos desde que descobrira as infidelidades de Tomas e tudo ia de mal a pior. Não havia saída.

Ele não podia pôr fim a suas amizades eróticas? Não. Isso o teria destruído. Não tinha força para controlar o apetite por outras mulheres. Além do mais, isso lhe parecia inútil. Ninguém melhor do que ele sabia que suas aventuras não representavam nenhum risco para Tereza. Por que se privar delas? Essa eventualidade lhe parecia tão absurda quanto deixar de ir a jogos de futebol.

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A insustentável leveza do ser

Sabina tinha se deixado convencer a ir a uma reunião de seus compatriotas. Mais uma vez, a discussão girava em torno de saber se deveriam ou não ter lutado com armas na mão contra os russos. Evidentemente, ali, abrigados pela emigração, todos proclamavam que teria sido necessário resistir. Sabina disse: “Pois bem, voltem e lutem!”.

Não era coisa que se dissesse. Um homem de cabelos grisalhos ondulados artificialmente levantou um indicador comprido para ela: “Não fale assim. Todos vocês têm alguma responsabilidade pelo que aconteceu. Você também. O que é que fazia contra o regime comunista no país? Pintura, só isso…”.

Nos países comunistas, a inspeção e o controle dos cidadãos são atividades sociais essenciais e permanentes. Para que um pintor obtenha autorização para expor, para que um cidadão consiga um visto para passar férias à beira-mar, para que um jogador de futebol seja aceito na seleção nacional, é preciso em primeiro lugar que se reúnam todas as espécies de relatórios e de certificados que lhe digam respeito (do porteiro, dos colegas de trabalho, da polícia, da célula do partido, do comitê da empresa em que trabalha), e esses atestados são em seguida completados, avaliados, recapitulados por funcionários especialmente destinados a essa tarefa. O que é mencionado nesses atestados não tem nada a ver com a aptidão do cidadão para pintar ou chutar bola, ou com seu estado de saúde, que pudesse justificar uma temporada à beira-mar. Só importa uma coisa, o que se chama “perfil político do cidadão” (o que o cidadão diz, o que pensa, como se comporta, se participa das reuniões ou dos desfiles do Primeiro de Maio). Tendo em vista que tudo (a vida cotidiana, a promoção e as férias) depende do modo como o cidadão é julgado, todo mundo é obrigado (para jogar futebol na seleção nacional, fazer uma exposição ou passar férias à beira-mar) a se comportar de maneira a ser bem julgado.

Era nisso que Sabina pensava ao ouvir o homem de cabelos grisalhos. Ele não estava absolutamente interessado em saber se seus compatriotas jogavam bem futebol ou pintavam com talento (nenhum tcheco jamais se interessara pelo que ela pintava); só uma coisa lhe interessava: saber se eram opositores ativos ou passivos ao regime comunista, da primeira ou da última hora, para valer ou por fingimento.

A ignorância

A pergunta era justa: por que a mãe, ao reencontrar sua filha depois de tantos anos, não se interessa pelo que ela mostra, pelo que ela diz? Por que Michelangelo, que ela viu com um grupo de turistas tchecos, a encanta mais do que Rodin? E por quê, durante esses cinco dias, não lhe faz nenhuma pergunta? Nenhuma pergunta sobre sua vida, e tampouco sobre a França, sobre sua culinária, sua literatura, seus queijos e seus vinhos, sua política, seus teatros, seus filmes, seus automóveis, seus pianistas, seus violoncelistas, seus jogadores de futebol?

Os testamentos traídos: ensaios

Estamos habituados a associar a noção de êxtase aos grandes momentos místicos. Mas existe o êxtase cotidiano, banal, vulgar: o êxtase da raiva, o êxtase da velocidade ao volante, o êxtase do atordoamento pelo barulho, o êxtase nos estádios de futebol. Viver é um pesado esforço contínuo em não se perder a si mesmo de vista, em estar sempre solidamente presente em si mesmo, em sua stasis. Basta sair um pequeno instante de si mesmo para tocarmos o domínio da morte.

Os testamentos traídos: ensaios

As duas metades da história da música europeia cobrem cerca de mil anos (se eu tomar como seu início os seus primeiros experimentos na polifonia primitiva). A história do romance europeu (se eu tomar como ponto de partida as obras de Rabelais e Cervantes) cobrem cerca de quatro séculos. Quando eu considero essas duas histórias, não posso deixar de perceber que elas desenvolveram ritmos que lembram, por assim dizer, os dois tempos de um jogo de futebol. As cesuras, ou intervalos dos jogos, na história da música e do romance coincidem. Na história da música, a ruptura se estende durante uma grande parte do Século XVIII (o simbólico apogeu do primeiro tempo ocorre na Arte da Fuga de Bach, e o início do segundo tempo nos trabalhos dos primeiros compositores clássicos); a ruptura na história do romance ocorre um pouco mais tarde: entre os séculos XVIII e XIX – isto é, entre Laclos e Sterne de um lado e, do outro, Scott e Balzac. Essa assincronia mostra que as causas mais profundas que regem o ritmo da história das artes não são sociológicas, ou políticas, mas estéticas: ligadas à natureza intrínseca de uma ou outra arte; como se a arte do romance, por exemplo, contivesse duas potencialidades diferentes (duas formas diferentes de ser um romance) que não pudessem ser trabalhadas ao mesmo tempo, paralelamente, mas apenas sucessivamente, uma depois da outra.

Risíveis amores

É isso que Martim chama de rastreamento. Com sua vasta experiência, chegou à conclusão de que o mais difícil, para qualquer um que tenha grandes exigências numéricas nesse campo, não é tanto seduzir uma jovem quanto conhecer um número suficiente de jovens que ainda não tenham sido seduzidas.

Acha assim que devemos constantemente, em todos os lugares e em todas as circunstâncias, proceder ao rastreamento sistemático de mulheres ou, em outras palavras, anotar num caderno ou em nossa memória o nome das mulheres que nos agradaram e que um dia poderemos abordar.

A abordagem é um grau superior de atividade e significa entrar em contato com esta ou aquela mulher, conhecê-la e facilitar a aproximação delas.

Aqueles que, com presunção, gostam de se voltar para o passado, insistem no número de mulheres conquistadas; mas aqueles que olham para a frente, para o futuro, devem primeiro se preocupar em dispor de um número suficiente de mulheres rastreadas e abordadas.

Além da abordagem, só existe um único e último grau de atividade, e quero acentuar, para agradar a Martim, que aqueles que aspiram somente a este último grau são homens miseráveis e inferiores, os quais lembram os jogadores de futebol do interior que vemos se lançar de cabeça baixa na direção do gol do adversário, esquecendo-se de que para marcar um gol (ou muitos gols) não basta o desejo frenético de chutar, mas é preciso primeiro jogar em campo um jogo consciencioso e sistemático.

“Você acha que algum dia vai ter oportunidade de ir vê-la em Puzdrany?”, perguntei a Martim, quando estávamos novamente na estrada.

“Nunca se sabe”, respondeu ele.

“Em todo caso”, observei, “o dia está começando bem para nós”.

A imortalidade

Sente certa melancolia quando houve a risada de sua filha, que ignora o grande poeta e se deleita com inépcias televisionadas. Depois pergunta a si mesmo: na realidade, por que ele amou tanto Rimbaud? Como chegou a esse amor? Foi enfeitiçado por seus poemas? Não. Naquela época Rimbaud confundia-se em seu espírito com Trotsky, com Breton, com Mao, com Castro, para formar uma única amálgama revolucionária. O que ele conheceu primeiro de Rimbaud foi o slogan reprisado por todo mundo: mudar a vida. (Como se, para formular tal banalidade, precisássemos de um poeta genial…) Sem dúvida, Paul depois leu os versos de Rimbaud; sabia alguns de cor e atuava-os. Mas nunca leu todos os poemas: só tinha gostado daqueles que haviam sido mencionados por sua turma, que por sua vez os mencionara graças à recomendação de outra turma. Portanto, Rimbaud não foi seu amor estético e é possível que ele nunca tenha conhecido um amor estético. Enrolou-se na bandeira de Rimbaud como nos enrolamos sob uma bandeira, como aderimos a um partido político, como se torce por um clube de futebol. Na verdade, o que lhe tinham acrescentado os versos de Rimbaud? Nada mais do que o orgulho de ser um dos que amavam os versos de Rimbaud.

A vida está em outro lugar

E como passava muito tempo com um lápis e um papel, os cães passaram a ser também o principal objeto de seus desenhos: havia neles um número incalculável de cenas épicas em que os cachorros eram generais, soldados, jogadores de futebol e cavaleiros. E como eles não podiam apoderar-se desses papéis humanos com a morfologia de quadrúpedes, Jaromil representava-os com corpo de homem. Era uma grande invenção! Quando tentava desenhar um ser humano, encontrava na verdade uma grande dificuldade: não chegava a desenhar um rosto humano; por outro lado, conseguia fazer perfeitamente a forma alongada da cabeça canina com a mancha do nariz na extremidade, de maneira que seus sonhos e sua inépcia fizeram nascer um universo estranho de homens cinocéfalos, um universo de personagens que se podia simples e rapidamente desenhar e associar a partidas de futebol, a guerras e a histórias de salteadores. Jaromil desenhava aventuras em série e assim encheu uma quantidade de folhas de papel.

A vida está em outro lugar

O que pôs no lugar? Talvez uma fotografia de Karl Marx?

De jeito nenhum. Ele pendurou na parede vazia uma fotografia de seu pai. Era uma fotografia de 1938, da época da triste mobilização, e nessa foto o pai usava uniforme de oficial.

Jaromil amava aquela fotografia que lhe mostrava um homem que conhecera tão pouco e cuja imagem começava a se esfumaçar em sua memória. Tinha cada vez mais saudades daquele homem que fora jogador de futebol, soldado e banido. Aquele homem lhe fazia muita falta.

A vida está em outro lugar

No país de Jaromil, na época de que falamos, a elegância era um delito político; as roupas que então se usavam (aliás, a guerra terminara havia ainda poucos anos e ainda havia penúria) eram muito feias; e a elegância em matéria de roupa íntima era considerada para aquela época de austeridade como um luxo repleto de culpa! Os homens a quem a feiura das cuecas então à venda incomodava (cuecas largas que desciam até os joelhos e que eram enfeitadas por uma abertura cômica na barriga) usavam, em seu lugar, pequenas sungas de algodão destinadas à prática de esportes, ou seja, nos estádios e ginásios. Era estranho: naquela época, na Boêmia, os homens entravam na cama da amante vestidos de jogadores de futebol, iam à casa da amante como quem vai ao estádio, mas do ponto de vista da elegância não era tão mau assim: as sungas de ginástica tinham certa elegância esportiva e eram de cores alegres – azul, verde, vermelho, amarelo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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