Europa

Mifsud despediu-se de Malta como uma lenda das seleções nanicas, anotando o último de seus 42 gols pela equipe nacional

O futebol de seleções na Europa se despediu de um ícone nesta quarta-feira. Uma lenda que, no entanto, só costuma ser percebida por quem se interessa pelo jogo além dos grandes centros. Michael Mifsud era um nome onipresente nas partidas de Malta por duas décadas. Sua equipe quase sempre serviu de sparring aos países maiores do continente, mas o atacante carregava a honra de seus compatriotas. Afinal, mais do que protagonista de uma seleção inexpressiva, Mifsud tinha bola para causar problemas em adversários mais badalados. Assim, anotou um número alto de gols mesmo defendendo um saco de pancadas. O último desses tentos, o de número 42, veio no adeus. O camisa 9 abriu o placar na vitória por 3 a 0 sobre Liechtenstein, no amistoso derradeiro disputado nesta quarta.

Nascido na cidade de Pietà, um vilarejo de 4 mil habitantes na região central de Malta, Mifsud despontou com a camisa do Sliema Wanderers. O atacante logo começou a acumular gols no tradicional clube local e ganhou a primeira convocação quando tinha 18 anos, em 2000. Virava o herdeiro de Carmel Busuttil, atacante prestes a se aposentar e que seria eleito como melhor jogador do país nos primeiros 50 anos da Uefa. Antigo capitão do Genk, Busuttil chegou a balançar as redes de Espanha, Alemanha Ocidental, Portugal, Itália e Bélgica pela seleção. De qualquer forma, antes de assumir a titularidade de Malta, Mifsud se transferiu ao exterior. Ganhou uma chance de se provar no Kaiserslautern em 2001. Embora tenha integrado o segundo quadro na maior parte de sua estadia na Alemanha, logo o camisa 9 passaria a fazer história pela equipe nacional.

O primeiro gol de Mifsud pela seleção aconteceu em abril de 2001. Anotou o tento de honra de Malta na derrota por 4 a 1 diante da Islândia, pelas Eliminatórias da Copa de 2002. O novato ganharia a posição naquele momento, mas demorou a conseguir resultados expressivos, sem vitórias oficiais. Nas eliminatórias para a Euro 2004, foram mais três gols – nas derrotas para Chipre e Eslovênia, além do empate por 2 a 2 contra Israel, único ponto arrancado pelos malteses na campanha. Neste ínterim, o camisa 9 deixaria o Kaiserslautern e se juntaria novamente ao Sliema Wanderers.

Mifsud comemorou sua primeira vitória por Malta em fevereiro de 2004: mesmo passando em branco, seu time ganhou o amistoso contra a Estônia por 5 a 2. Pouco depois, os malteses somaram três pontos nas Eliminatórias da Copa de 2006, ao empatarem com Islândia, Croácia e Bulgária. Mifsud fez um gol, na derrota aos búlgaros. Sua carreira daria uma guinada naquele momento. Transferiu-se ao futebol norueguês e ganhou sequência pelo Lillestrom, destacando-se como artilheiro da equipe.

Pela seleção, as coisas também fluíam. Mifsud anotou mais três gols nas Eliminatórias da Euro 2008. Virou capitão e deu uma das assistências a André Schembri na vitória por 2 a 1 sobre a Hungria no Estádio Ta’ Qali, no primeiro triunfo oficial do país em 13 anos. O sucesso repercutia nos clubes e, em janeiro de 2007, o centroavante mudou-se à Inglaterra. Assinou com o Coventry City para disputar a Championship. O artilheiro começou marcando seus gols pela segundona, até protagonizar uma surpresa na Copa da Liga Inglesa 2007/08. O Coventry eliminou o Manchester United e passou às oitavas de final com o triunfo por 2 a 0 dentro de Old Trafford. Mifsud anotou dois gols contra os reservas dos Red Devils, que contavam com Gerard Piqué, Anderson e Nani entre os titulares.

Mifsud permaneceu dois anos no Coventry, com 23 gols e 10 assistências em 95 aparições. Chegou a ser o segundo na votação dos celestes ao melhor jogador da temporada em 2007/08. Depois de uma transferência frustrada ao Bristol City, seguiu no elenco até 2009, emprestado rapidamente ao Barnsley. Paralelamente, Mifsud chegou a notar cinco gols numa goleada por 7 a 1 sobre Liechtenstein em março de 2008, sua grande atuação pela seleção.

A partir de 2009, Mifsud passou a brilhar apenas no futebol de Malta. Ficou a maior parte do tempo no Valletta, com o qual conquistou dois títulos nacionais. Também seria campeão em passagem de volta pelo Sliema Wanderers. Além disso, atuaria por uma temporada na Austrália, com a camisa do Melbourne Heart. Foi ao longo da última década, já superando os 30 anos, que o centroavante assinalaria alguns dos tentos mais expressivos pela seleção.

Mifsud se destacou nas Eliminatórias da Euro 2012. Anotou três gols, em derrotas para Grécia e Croácia, assim como no empate com a Geórgia. Em 2012, chegou a fazer seis gols em três amistosos consecutivos, comandando vitórias sobre Liechtenstein, Luxemburgo e San Marino. Nas Eliminatórias para a Copa de 2014, o capitão determinou uma notável vitória por 1 a 0 sobre a Armênia, fora de casa – além de deixar o seu também no revés contra a República Tcheca. Marcaria ainda contra o Azerbaijão nas Eliminatórias da Euro 2016.

Já nos dois últimos anos, a Liga das Nações abriu portas, com Mifsud participando da primeira edição do torneio. Aos 39 anos, porém, escolheu a hora de parar pela seleção e sua última competição foi as Eliminatórias da Euro 2020, despedindo-se com gol na derrota para a Noruega. Embora continue em atividade pelo Sirens, clube que o contratou nesta temporada, o centroavante vê de longe o sucesso dos companheiros na atual edição da Liga das Nações. Malta venceu Gibraltar e Letônia, candidatando-se à promoção na quarta divisão.

Ausente das convocações mais recentes, Mifsud voltou ao time antes que os malteses disputem o acesso na Liga das Nações, fazendo a sua despedida da seleção nesta quarta. E, apesar da falta de público, viveria uma noite especial no Estádio Ta’ Qali. Recebeu diversas homenagens, com uma camisa comemorativa entregue pela federação, além de ser carregado nos braços pelos colegas. Mais importante, anotou o gol que iniciou o triunfo por 3 a 0 sobre Liechtenstein. Uma bela maneira de se exaltar o capitão e artilheiro.

Mifsud contabiliza 143 partidas pela seleção de Malta. É o 42° jogador com mais aparições por uma seleção nacional na história, empatado com Javier Zanetti e com um jogo a mais que Cafu. Entre os europeus, apenas outros 11 jogadores aparecem à sua frente. Foram 20 anos de serviços prestados ao seu país, numa longevidade entre a primeira e a última aparição que supera a de Gianluigi Buffon pela Itália. Apenas outros nove jogadores na história atuaram mais tempo por suas equipes nacionais, com a liderança do andorrano Ildefons Lima.

Já os 42 gols de Mifsud por Malta, artilheiro máximo do país, o colocam na mesma prateleira que Oleg Blokhin em seu recorde pela União Soviética ou de Alexander Frei pela Suíça. A média do maltês pode ser inferior à dos colegas, mas o nível de seu time o transforma em um grande herói. Os recordistas em gols de outras 30 seleções da Uefa não chegam à marca de Mifsud – incluindo aí países como a Itália, a Romênia, a Grécia e a Escócia. Comparando com outras seleções menores, Jari Litmanen fez 32 tentos em 137 partidas pela Finlândia, Eidur Gudjohnsen contabilizou 26 em 88 aparições pela Islândia e Mario Frick parou em 16 nos 125 jogos por Liechtenstein. Tais números enfatizam como Mifsud superou limites.

Não dá para dizer que Malta perde tanto sem Mifsud. Foram apenas 12 vitórias com o atacante em campo, três delas em jogos oficiais. Além disso, o surgimento da Liga das Nações abre oportunidades inéditas às seleções menores da Europa. Certo é que os malteses sentirão falta de uma referência e de um jogador que pareceu levar o nível do diminuto país além. Mifsud virou um nome conhecido mesmo defendendo uma equipe irrisória, de raríssimas alegrias. E isso, afinal, é suficiente para colocá-lo na história do futebol de seleções europeu.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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