Futebol europeu

México e Argentina desafiam Uefa e se alinham a Infantino em ‘guerra’ na Fifa

Enquanto a Uefa articula ofensiva contra Gianni Infantino após a crise do projeto de venda de participações comerciais da Copa do Mundo, México e Argentina declararam apoio ao presidente da Fifa

A crise política que envolve a Fifa ganhou um novo capítulo nesta semana. Enquanto a Uefa lidera uma pressão por mudanças na governança da entidade após o fracasso do projeto Fifa Forward Enterprise (FFE), duas das principais federações das Américas decidiram tomar um caminho oposto: México e Argentina declararam apoio público a Gianni Infantino.

O movimento aprofundou a divisão dentro do futebol mundial e isolou ainda mais a confederação europeia, que vinha tentando construir uma frente ampla contra o presidente da Fifa.

A informação foi publicada originalmente pelo jornal britânico “The Guardian”, que revelou que a Federação Mexicana de Futebol rompeu com a postura adotada pela Concacaf ao defender publicamente Infantino. A confederação continental havia pedido uma revisão completa dos processos de governança da Fifa após a tentativa frustrada de criar uma estrutura de investimento privado envolvendo participações comerciais da entidade.

México e Argentina desafiam suas próprias confederações ao apoiar Infantino

Segundo o Guardian, a Concacaf ainda não havia acompanhado a Uefa na ameaça de boicotar competições da Fifa caso suas exigências não fossem atendidas, mas vinha demonstrando preocupação com o episódio. A posição mexicana, porém, indicou uma divisão interna.

Em comunicado divulgado nesta semana, a Federação Mexicana de Futebol (FMF) afirmou que defende o respeito aos processos institucionais da Fifa e rejeitou qualquer tentativa de mudança de liderança fora das regras previstas pela entidade.

“A Federação Mexicana de Futebol está convencida de que o futebol é seu valor fundamental e que sua melhor defesa está na integridade institucional e no respeito à governança e aos processos que a protegem”, afirmou a entidade.

Infantino é o presidente da Fifa. Foto: IMAGO / STEINSIEK.CH

A FMF também declarou apoio à liderança de Infantino e destacou o trabalho realizado pelo suíço desde que assumiu a presidência da Fifa, em 2016. A manifestação ganhou peso pelo tamanho do México dentro da Concacaf. O país é uma das principais forças políticas e esportivas da região, ao lado dos Estados Unidos, e sua posição contrasta com a postura mais crítica adotada pela confederação.

O cenário ainda abriu espaço para especulações sobre uma possível mudança do México para a Conmebol, algo que já foi discutido em outros momentos pela proximidade esportiva entre o futebol mexicano e sul-americano. A possibilidade, porém, não passa de uma especulação. Uma eventual troca de confederação dependeria de complexas negociações envolvendo Fifa, Concacaf e Conmebol.

Poucas horas depois do posicionamento mexicano, a Associação Argentina de Futebol (AFA) também publicou uma manifestação de apoio a Infantino. A entidade comandada por Claudio Tapia reconheceu que o projeto de venda de participações comerciais da Fifa gerou dúvidas dentro da comunidade do futebol, mas elogiou a decisão da organização de abandonar a iniciativa.

“Devemos reconhecer a decisão da administração de retirar um projeto que gerou, desde o início, muito mais incertezas do que certezas”, afirmou a AFA.

A federação argentina também destacou que a gestão de Infantino promoveu uma “profunda transformação” na Fifa e defendeu que o futebol continue sendo conduzido com base nos processos democráticos previstos nos estatutos da entidade.

Diferentemente da Concacaf, a Conmebol tem mantido uma postura amplamente favorável ao presidente da Fifa. A entidade sul-americana foi uma das principais aliadas de Infantino durante sua gestão e deve continuar apoiando sua permanência no cargo.

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A batalha pelo futuro da Fifa

O conflito começou após a tentativa de implementação do chamado Fifa Forward Enterprise, plano que previa a entrada de investidores privados em receitas comerciais ligadas à Copa do Mundo e outros torneios organizados pela entidade.

A proposta envolvia nomes ligados ao mercado financeiro e ao círculo político dos Estados Unidos, incluindo Joshua Kushner, fundador da Thrive Capital, além de investidores como Greg Maffei, ex-CEO da Liberty Media. A iniciativa provocou forte reação da Uefa, que considerou o projeto incompatível com os princípios de governança do futebol.

A entidade europeia chegou a ameaçar medidas mais duras, incluindo a possibilidade de boicote à Copa do Mundo, caso Infantino levasse o plano adiante. Posteriormente, a Fifa abandonou o projeto. Mesmo com a retirada da proposta, a crise política permaneceu.

A Uefa passou a defender mudanças na estrutura de comando da entidade e, segundo o jornal inglês “Telegraph”, chegou a notificar Infantino e outros envolvidos sobre a possibilidade de ações judiciais relacionadas ao projeto.

Agora, o presidente da Fifa conta com o apoio declarado de importantes federações da América Latina e da África, enquanto enfrenta resistência principalmente na Europa. A próxima grande disputa política deve acontecer no Congresso da Fifa, previsto para 2027, quando a entidade definirá os próximos rumos de sua liderança. Infantino, que assumiu a presidência após a queda de Sepp Blatter em 2016, busca ampliar sua influência após uma década no comando do futebol mundial.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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