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Lino: “Nunca vi uma relação de fanatismo como na Grécia”

O futebol grego, como um todo, passa por uma temporada difícil. Não bastasse a crise econômica que afeta o país e que acaba respingando sobre os clubes, o campeonato local ainda enfrentou um caso de manipulação de resultados, que culminou no rebaixamento de duas equipes e a incerteza até mesmo sobre quantos times entrariam na disputa. Não foram essas turbulências, porém, que atrapalhariam o PAOK de fazer uma campanha histórica na primeira fase da Liga Europa, em especial por sua vitória sobre o Tottenham em White Hart Lane.

Entre os principais nomes das Dikefalos Aetos na competição continental está Lino, presente em sete das oito partidas de seu clube no torneio. Ex-jogador de São Paulo, Fluminense e Porto, em janeiro o lateral esquerdo completa três anos na equipe de Salônica. São mais de cem partidas como titular e um papel importante na reconstrução do clube, comandada pelo presidente Theodoros Zagorakis e pelo técnico Fernando Santos, hoje no comando da seleção grega. De uma situação de quase falência, o PAOK se recuperou e hoje mostra que tem nível suficiente para competir com times do resto do continente.

Em entrevista à Trivela, Lino falou sobre a sua adaptação e sua vida na Grécia, revelando como o futebol local está lidando com a grave crise financeira que assola a economia local. O brasileiro também comentou os desdobramentos da rivalidade entre PAOK e Aris, consideradas uma das maiores da Europa. Por fim, ainda palpitou sobre o São Paulo, imaginando o que aconteceria se um ex-jogador influente assumisse a presidência no Morumbi, assim como aconteceu em seu clube na Grécia.

– Como foi a sua transferência para o PAOK? Você estava no Porto. O que te fez trocar Portugal, um país de mais fácil adaptação, pela Grécia?

Aceitei porque tive uma proposta boa do PAOK, na qual me ofereceram condições interessantes. Eu estava bem no Porto e disseram que eu só sairia se quisesse. Era um clube onde eu tinha uma boa situação e conquistei títulos, mas estava cerca de três meses sem ser utilizado. Já o PAOK vinha com um projeto interessante, com a ideia de recolocar o clube na linha das competições europeias, além de um treinador português, que facilitaria a comunicação. Eu tenho facilidade com adaptação, mas aqui na Grécia foi um pouco complicado. Cheguei em janeiro, quando o frio é maior, e aqui eles não falam muito o inglês, que eu domino. Tive um intérprete, o que foi bom para a minha família. Agora já estou 100% adaptado.

– O clássico mais conhecido da Grécia acontece entre Olympiacos e Panathinaikos, mas Salônica também vive uma grande rivalidade entre PAOK e Aris. Como é a relação com os torcedores e como é lidar com a pressão em um país conhecido pela violência nos estádios?

Realmente, eu não conhecia a rivalidade que existe em Salônica, com um fanatismo muito grande. Cheguei um dia antes de um clássico e percebi logo que os torcedores esperam sempre algo a mais, sempre apóiam em qualquer lugar. Eu joguei em grandes clubes, mas nunca vi uma relação de fanatismo como a que existe aqui. Alguns torcedores abusam da violência, mas isso eu deixo de lado, quando o time entra em campo esquece disso. Na temporada passada, perdemos nas semifinais da Copa da Grécia e houve invasão de campo. Faz três anos que o clube está sem títulos e os torcedores ficam nervosos, tristes. Mas a situação foi contornada e eles ficaram na cobrança, em nenhum momento cometeram violência contra os jogadores.

– Como vocês jogadores percebem a crise econômica vivida na Grécia. Com o Brasil vivendo melhor situação econômica, há o interesse de voltar?

Nessa temporada a crise está mais forte, antes os pagamentos atrasavam pouco. Mas as dificuldades estão em todos os times e não adianta nada ficar em casa sem treinar, esperando que se recupere. A situação ficou um pouco melhor depois de um acordo que o clube fez. Estamos recebendo com dificuldades, mas é algo que vai passar, que estamos enfrentando. A diretoria sempre conversa com os jogadores e eles estão colocando a casa em dia. Além disso, classificamos na Liga Europa, o que vai ajudar a melhorar. Sobre o Brasil, sinto saudades das competições e sei dos investimentos que os clubes estão fazendo. Tenho proposta para renovar com o PAOK, mas vamos discutir mais para frente.

– O Olympiacos vive uma situação financeira bastante diferente dos outros clubes gregos, com forte auxílio, o que foi mostrado na última janela de transferências. Como competir com eles?

Eles estavam na Liga dos Campeões, o já traz um grande aumento de receitas para eles. Isso dá tranquilidade suficiente para trabalharem, puderam ter outra mentalidade depois que conquistaram o campeonato nacional. Por estarem na Champions, eles podem ter até mesmo um planejamento diferente. Mas isso não muda a forma como nos enfrentamos dentro de campo, nossa vontade de vencer segue a mesma.

– Até que ponto o caso de manipulação de resultados, que deixou a situação do Campeonato Grego indefinida até novembro, atrapalhou a disputa?

Isso nos deixou chateados. Era algo que precisava ser resolvido antes do campeonato começar, afetou toda a competição. É uma situação que não pode acontecer em qualquer lugar do mundo, o campeonato fica ruim. A falta de dois times, como aconteceu aqui, atrapalhou os outros. O PAOK não teve nada alterado na programação, por que não enfrentamos nenhum dos times que faltavam até a inclusão de outras duas equipes, mas acabou afetando a data das nossas férias.

– O PAOK confirmou a classificação para a próxima fase da Liga Europa com a vitória sobre o Tottenham. Qual o planejamento para a próxima fase?

O planejamento é o mesmo de antes, isso mostra que podemos enfrentar a maioria dos clubes do continente. A vitória deu um ânimo a mais para a gente e teve um sabor especial ganhar do Tottenham na Inglaterra. Agora o que precisamos é jogar da mesma maneira no Campeonato Grego, sem priorizar competição alguma. Também temos condições de sermos campeões nacionais.

– Como era a sua convivência com o Fernando Santos, atualmente técnico da seleção da Grécia? Como foi lidar com a saída dele na temporada passada, quando vocês três treinadores ao longo do ano?

Era uma relação muito boa. Ele ajudou os jogadores a terem uma mentalidade vencedora. Antes, os atletas gregos disputavam dois campeonatos: a liga e o dérbi contra o Aris. Para muitos, vencer o clássico era mais importante que disputar o campeonato. O Fernando Santos mudou isso, mostrou para todos que os três pontos são os mesmos em qualquer jogo. Ele é um treinador que pensa sempre em vencer. Colocou a casa em ordem e quase ganhamos o campeonato com ele.

– Você chegou ao clube ainda no primeiro ano de Theodoros Zagorakis na presidência, a qual assumiu logo depois de pendurar as chuteiras. Como é a relação da torcida com ele?

O Zagorakis é uma pessoa muito respeitada pelos torcedores. Ele está fazendo um trabalho muito bom, conseguindo tirar o clube da crise. Ele ajudou a evitar a falência e está melhorando economicamente a situação do PAOK. Ele passou por problemas particulares e precisou ficar afastado da presidência, mas depois que voltou deu seguimento ao que já estava fazendo. Ele está colocando o clube para frente e temos uma boa relação.

– Você já jogou no São Paulo com o Rogério Ceni, apontado por muitos como futuro presidente do tricolor. Você acha que uma situação como a que ocorreu no PAOK, de um jogador assumir a presidência logo em seguida a sua aposentadoria, é possível no Brasil?

Eu vejo isso com bons olhos. Se tratando do Rogério Ceni, que é um jogador que tem carisma até mesmo com outros clubes, acho que seria possível. É alguém que passa bastante segurança, é um líder. O currículo vitorioso pesa a favor. Aqui no PAOK, receberam muito bem o novo presidente. Era alguém que conhecia o clube, já era um ídolo. Ele sabia o que acontecia dentro da equipe, que gosta daqui e conhece muito bem a situação. Não tinha ninguém melhor para esse cargo.

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