Liga das Nações

Vira, vira: Mesmo exausta, França supera Espanha e fica com o título da Liga das Nações

Nova reviravolta marcou uma mudança de postura dos franceses, em grande jogo no San Siro

O San Siro viu um jogo bastante distinto em dois tempos, na decisão da Liga das Nações. França e Espanha guardaram o melhor para a segunda etapa em Milão, e quando efetivamente quiseram proporcionar um bom espetáculo, entregaram um jogo em alto nível de entretenimento. E quando a ideia é entreter, você precisa ter um Kylian Mbappé em campo. Foi dele o gol da vitória francesa, por 2 a 1, de virada, garantindo o título dos Bleus.

LEIA MAIS: Mesmo com tantas feras ao lado, Mbappé ainda se sobressaiu por incendiar a França na incrível virada

O texto linkado logo acima, escrito pelo companheiro Leandro Stein, poderia muito bem ser a síntese da final. Mas como não gostamos de nos repetir, vamos tentar abordar de outra forma. Pelo bem da verdade e da sinceridade neste site, França e Espanha só engrenaram na etapa final, então vamos fingir que nada aconteceu antes do intervalo.

45 minutos de nada, 45 minutos de puro futebol

Em suma, houve 45 minutos de nada até que as equipes voltassem dos vestiários. Alguém deve ter dito que não foi para isso que muita gente pagou ingresso e que milhões de pessoas ao redor do mundo sentaram na frente de uma televisão ou um computador. Dava para fazer melhor do que aquilo, sem dúvida alguma.

Sabendo disso, a França resolveu usar suas cartas enquanto campeã do mundo e um dos times mais capazes de produzir em campo. E por produzir, é no sentido ofensivo, letal, rápido e com alguma arte. Foi nessa pegada que os Bleus forçaram a Fúria a dar alguns passos atrás. Dar espaço a Mbappé e Karim Benzema, no entanto, não costuma dar muito certo. Um chute perigosíssimo de Mbappé balançou a trave de Unai Simón e por pouco não pingou dentro da meta espanhola.

A Espanha não se assustou e reagiu, em questão de segundos. Abandonou o entediante toque de bola repetitivo e em uma saída rápida, Sergio Busquets lançou para Mikel Oyarzabal na ponta esquerda. O atacante da Real Sociedad ajeitou e mirou bem no canto da meta de Hugo Lloris para abrir o placar. Não era coerente com o que o jogo estava mostrando, e por isso, ao sair na frente, a equipe de Luis Enrique também cutucou a onça com vara curta.

Não era tão fácil assim para a França pegar no tranco, sobretudo porque o cansaço era um fator que pesava: depois de virar uma partida insana diante da Bélgica, por 3 a 2, o time de Didier Deschamps precisou novamente colocar a bola no chão e entregar tudo se quisesse sobreviver. Depois do título mundial, a impressão “blasè” que a França passou grudou ainda mais nesse grupo. Mas você simplesmente não duvida de uma formação com tamanho calibre e experiência.

Benzema: nascido para jogar finais

E aí, por não ser aconselhável duvidar da França, você simplesmente não consegue rir se a sua defesa precisa desarmar Benzema perto da área. O goleador mostrou sua aptidão para noites grandes e tirou um golaço da cartola, apenas dois minutos depois do tento espanhol. Um corte seco e um chutaço no ângulo venceram Unai Simón, que ainda se atirou e tocou com a ponta dos dedos na bola, sem sucesso. Não tinha como aquela finalização não entrar.

A eletricidade contagiou o público e os atletas. A Espanha foi forçada de uma vez por todas a parar de brincar com a bola de um lado para o outro. Só que fugir tão radicalmente à proposta de Lucho foi custoso: os jogadores simplesmente não sabiam como fazer isso. Lançamentos longos, cruzamentos para o meio da área e outras jogadas ineficientes se empilharam. Ficou previsível e fácil para a França neutralizar essas ameaças.

Oyarzábal, por outro lado, ficou com a responsabilidade de colocar seu time de volta ao jogo. À sua maneira, com um sem-pulo, ele criou um espaço quase inexistente na defesa adversária e desafiou Lloris. O goleiro e capitão mostrou reflexos apurados para frustrar o atacante. E repetiu isso mais duas vezes até o fim. Era simplesmente um paredão.

Mbappé: o mundo tem de aprender com ele

O relógio correu rápido. Tão rápido que nem se percebeu que a partida chegava aos 80 minutos. A França, no limite, deixava visível seu cansaço. Faltavam pernas, mas não ideias. E num passe primoroso de Theo Hernández, Mbappé saiu sozinho em velocidade para um último duelo com Unai Simón. Desta vez, tirou um drible da cartola e se antecipou à queda do goleiro, batendo por baixo para virar o jogo.

Um gol de Ronaldo Fenômeno, daqueles que costumávamos ver com frequência nos melhores momentos da rodada europeia. Mbappé aprendeu com os melhores e agora é responsável por ensinar ao mundo como é que se faz na cara do gol. Pode até perder algumas vezes, mas sempre sabe o que fazer, não é só uma arte de ser eficiente, e sim de entregar algo de diferente, longe da simplicidade de apenas se colocar no lugar certo e chutar a bola. E é por isso que ele é muito acima da média, tal qual Benzema.

A Espanha perdeu a cabeça e pifou quando precisou correr desesperadamente atrás do empate. Muitas bolas lançadas pararam na defesa francesa e o que eventualmente era peneirado para o ataque da Fúria, acabava nas mãos de Lloris. Foi uma abordagem pouco inteligente de Lucho na segunda etapa, até porque a França não conseguiria igualar a competição no aspecto físico. No fim, o time que podia jogar não o fez. E o que queria jogar, mesmo exausto, deu as cartas.

A bifurcação dos finalistas

Em mais um confronto-chave entre as duas seleções, a França leva a melhor e esta parece ser a lógica de quem entende o que um time precisa fazer para sair campeão. Finais nem sempre são vencidas por quem joga. Mas é muito bom quando a expectativa abraça a realidade e o talento se sobressai perante a chatice. E se alguém na Espanha entender que é possível vencer jogando de outra forma, talvez as coisas mudem por aqueles lados. O que foi exposto por Lucho e seus meninos, neste domingo, não foi o bastante. Ao contrário dos Bleus, que mesmo quando jogam menos do que podem, transbordam. Eles têm todos os predicados de um time vencedor por muitos anos.

O futuro reserva caminhos imprevisíveis para espanhóis e franceses. Mas a França já é uma potência e mostrou que sabe lidar com seu favoritismo, aprendendo com a dura eliminação diante da Suíça, na Eurocopa. A Espanha ainda tem de evoluir e será bastante surpreendente se conquistar algo em breve. A precocidade de grande parte do time pesa em momentos mais agudos. Algo que deve ser resolvido com um pouco mais de cancha. Dá para dizer que está no caminho certo? Sim. Mas faltam peças para a Espanha ser encarada com mais seriedade.

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Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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