Liga das Nações

Mesmo com tantas feras ao lado, Mbappé ainda se sobressaiu por incendiar a França na incrível virada

Mbappé participou dos três gols e teve uma atuação bastante contundente, como protagonista da França

A França tem qualidade de sobra para buscar novos títulos com a atual geração. Até por isso, o desempenho na Euro 2020 decepcionou tanto. E mesmo que os Bleus não construam uma hegemonia, eles podem exibir um nível competitivo mais alto a partir de seu abundante talento. Foi o que se viu na semifinal da Liga das Nações, com a instantaneamente histórica vitória sobre a Bélgica por 3 a 2 em Turim. Uma virada fantástica que se pautou, sobretudo, pela forma como os destaques franceses se entenderam. Neste sentido, Kylian Mbappé foi o craque que orquestrou os companheiros na épica reviravolta do time de Didier Deschamps. Merece aplausos por sua excepcional noite, talvez ainda mais contundente que aquela vivida contra a Argentina no Mundial de 2018.

Obviamente, não se compara um jogo de Copa do Mundo com outro de Liga das Nações, mesmo sendo aquele triunfo da França ainda válido pelas oitavas de final. Mas, se o 4 a 3 emocionante demarcou a explosão de Mbappé no mais alto nível, este jogo contra a Bélgica talvez valha para colocá-lo mesmo como face principal dos Bleus no momento. Griezmann lida com sua queda de desempenho e Pogba oscila demais. Benzema é outro fora de série, mas surge mais como uma liderança por sua capacidade decisiva do que necessariamente como o protagonista da geração. Foi exatamente isso que fez Mbappé em Turim, com sua partidaça deixando para trás os pertinentes questionamentos ocorridos na Eurocopa.

O primeiro tempo de Mbappé já tinha sido acima da média para a atuação morna da França. Num jogo essencialmente equilibrado durante a meia hora inicial, o atacante proporcionou os principais lances de sua equipe. Não foi suficiente para exigir defesas difíceis de Thibaut Courtois e se tornou ainda menor quando os Diabos Vermelhos cresceram, com Romelu Lukaku e Kevin de Bruyne comandando o triunfo parcial por 2 a 0. Porém, a mínima resposta dos Bleus surgiria pouco antes do intervalo num chute de Mbappé para fora.

A França precisou voltar para o segundo tempo com outra atitude e isso aconteceu coletivamente. A equipe como um todo se posicionou no campo ofensivo e pressionou a Bélgica. Pogba tomou as rédeas do meio-campo e Benzema também garantia presença de área no ataque. Ainda assim, foi Mbappé quem incendiou de vez os Bleus na virada. O craque aparecia de ambos os lados do campo, criando jogadas e comandando as ações. Poderia ter dado uma assistência a Griezmann, que perdeu uma chance enorme. Seria do jovem, então, o passe para que Benzema iniciasse a reação – numa jogada de persistência e habilidade de Mbappé, mas também de extrema qualidade do veterano para balançar as redes.

Quando a França voltou ao jogo, Mbappé seguiu ditando o ritmo intenso do time. O empate seria instantâneo, num pênalti sofrido por Griezmann, mas convertido com enorme maestria pelo camisa 10. E numa partida eletrizante, em que os dois times ofereciam boas armas, Mbappé conseguia ter um destaque maior. Não eram só as arrancadas ou os dribles, mas também a contundência de seus lances, que quase sempre levavam perigo. Mesmo quando o jogo parecia pronto a seguir à prorrogação, ele insistia. Terminou de dar o gás final para os Bleus na virada.

O próprio Mbappé poderia ter feito o terceiro gol, num chute que passou raspando a trave. Benzema até era uma opção melhor para o passe, mas não dava para culpar o companheiro por arriscar. Pouco depois, Benzema sofreu a falta que Pogba mandou na junção da trave com o travessão. Por fim, em mais um lance preparado por Mbappé na direita, Pavard arranjou o cruzamento que terminou com o tento decisivo de Théo Hernández. O herói principal foi o ala esquerdo, mas o prêmio de melhor em campo oferecido pela Uefa acabou mesmo no colo do camisa 10, com toda razão.

A França chega à final da Liga das Nações como favorita por seu elenco, mas não será um jogo tão óbvio contra uma Espanha melhor treinada e que se vale bastante de seus garotos. De qualquer maneira, se este torneio é uma oportunidade para sublinhar o lugar na história dos atuais campeões do mundo, essa será uma excelente ocasião para levantarem outra taça. E o craque para impulsionar o time já mostrou vontade. Mesmo com tantas feras ao seu lado, Mbappé ainda assim conseguiu se sobressair numa semifinal desta grandeza.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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