Liga das Nações

França e Bélgica proporcionaram uma semifinal lendária à Nations, com uma virada que sublinha a grandeza dos campeões do mundo

A Bélgica abriu dois gols no primeiro tempo, mas a França conseguiu a virada por 3 a 2, numa etapa final repleta de emoção

Turim recebeu a segunda semifinal da Liga das Nações e a partidaça já merece seu lugar na história do futebol de seleções. A França conseguiu arrancar uma virada que dimensiona a grandeza de seu elenco. A Bélgica, afinal, tinha o resultado nas mãos. Depois de meia hora de equilíbrio, os Diabos Vermelhos arregaçaram as mangas e anotaram dois gols antes do intervalo, comandados por Lukaku e De Bruyne. Os Bleus, porém, transformaram o duelo durante a etapa final. Mbappé arrebentou ao lado de Benzema para construir o empate, antes que, num final cheio de emoção, Theo Hernández virasse herói da vitória francesa por 3 a 2 já nos acréscimos. Um resultado de peso aos atuais campeões do mundo, mesmo que os belgas ainda tenham criado outras chances e até um gol anulado. A França sai gigante para enfrentar a Espanha na decisão da Nations, marcada para o próximo domingo, no San Siro.

A Bélgica repetia sua formação básica, num 3-4-3 tradicionalmente usado por Roberto Martínez. O destaque ficava para Romelu Lukaku, Kevin de Bruyne e Eden Hazard soltos no ataque. Youri Tielemans e Axel Witsel fechavam o meio, com Yannick Ferreira Carrasco e Timothy Castagne nas alas. Jason Denayer, Toby Alderweireld e Jan Vertonghen eram os zagueiros, à frente de Thibaut Courtois. Já a França repetiu o 3-4-1-2 que não deu muito certo na Euro. Hugo Lloris era o goleiro, com Raphaël Varane, Jules Koundé e Lucas Hernández na defesa. Benjamin Pavard e Theo Hernández apareciam nas alas, com Paul Pogba acompanhado por Adrien Rabiot na cabeça de área. Antoine Griezmann fazia a ligação, alimentando Karim Benzema e Kylian Mbappé mais à frente.

Quando a bola rolou, Lloris precisou realizar um milagre logo aos quatro minutos. Lukaku apresentou toda a sua capacidade na proteção, para vencer a marcação dupla e arrancar na direita. Koundé não cortou o cruzamento e De Bruyne chegou batendo de primeira. Então, Lloris realizou uma defesa incrível, dando um tapa na bola que ia em seu contrapé. O duelo, todavia, seguiu equilibrado durante o primeiro tempo. Não havia um domínio claro, com a França confiando na velocidade de sua dupla de ataque e a Bélgica criando a partir dos pivôs de Lukaku.

As duas equipes se mostravam extremamente concentradas, sem conceder espaços na defesa. As trocas de passes aconteciam sem muita progressão, com raras chances de gol. Quando Mbappé tentou, depois de uma boa troca de passes da equipe, Courtois apareceu firme para fazer a defesa. Somente depois dos 30 minutos é que a Bélgica mostrou-se mais confortável com a posse de bola. Rondava a área da França e buscava espaços. Koundé chegou a fazer um desarme essencial contra Hazard, num lance em que o atacante poderia sair livre na área. Contudo, logo as brechas surgiram pelos lados, permitindo que os Diabos Vermelhos abrissem vantagem.

O primeiro gol, aos 37 minutos, teria méritos de Carrasco. Depois da preparação de Hazard, o ala recebeu a bola de De Bruyne e fintou o Pavard, antes de achar uma mínima fresta para chutar. O tiro saiu rasteiro e pegou Lloris desprevenido no contrapé, com o goleiro dando um passo em falso para o outro lado. Quatro minutos depois, veio o segundo, numa combinação entre os craques belgas. De Bruyne enfiou a bola e Lukaku foi inteligentíssimo no giro, deixando Lucas Hernández no vácuo. Mesmo com pouco ângulo, o centroavante mandou a paulada rente à trave e superou Lloris. A França não reagia e Hazard ainda testou Lloris mais uma vez. A resposta dos Bleus viria num tiro de Mbappé pelo lado de fora da rede, mas foi só.

O segundo tempo começou mais aberto, especialmente por conta da mudança de atitude da França. Pogba se responsabilizou pelas primeiras chances, mas sem acertar o alvo. Do outro lado, Lukaku também bateu novamente dentro da área e Lloris segurou o chute sem problemas. A bola era dos franceses, que forçavam mais no campo de ataque e tentavam se infiltrar na área. O gol já poderia ter vindo aos 13, num lindo lance de Mbappé pela ponta direita. Griezmann teve a chance de finalizar na pequena área, mas errou sozinho e mandou para fora. Os Bleus, enfim, apresentavam sua intensidade.

Mbappé era o homem de frente que mais se apresentava e construiu a jogada do primeiro gol da França, aos 17. O ponta ganhou no pé de ferro e pedalou para cima da marcação, antes de rolar para Benzema. O centroavante também foi excepcional, ao virar para cima de Denayer e, mesmo caindo, bater no cantinho, longe do alcance de Courtois. O jogo pegava fogo e a Bélgica, nas cordas, precisava de uma resposta. Os franceses não se acomodaram e a blitz teve sequência. Courtois precisou sair nos pés de Benzema aos 21. No minuto seguinte, Tielemans cometeu pênalti sobre Griezmann, confirmado após revisão do árbitro no monitor. Mbappé assumiu a cobrança e chutou muito bem, dando o empate para os Bleus logo aos 22.

A Bélgica mudou na sequência da partida, com Hans Vanaken no lugar de Tielemans. O time mostrou um pouco mais de atitude e pararia em Lloris aos 28. Lukaku escorou a bola na entrada da área e De Bruyne mandou um míssil, que o goleiro francês desviou com a ponta dos dedos. Vertonghen cabeceou para fora na cobrança de escanteio. Outra troca dos belgas ocorreu neste momento, com Leandro Trossard suplantando Eden Hazard. Já a França mudou seu meio com o garoto Aurélien Tchouaméni, saindo Rabiot. O novato quase arranjou a virada em sua primeira participação aos 32, numa sequência de chances dos franceses, mas parou em Courtois.

O duelo seguia indefinido. A França permanecia mais com a bola, mas a Bélgica atacava com velocidade e contava com as arrancadas de Lukaku. Num lance em que foi anotado o impedimento, o centroavante exigiu outra ótima defesa de Lloris. O jogo parecia mais pensado, com duas equipes que sabiam como o cansaço poderia ser custoso numa possível prorrogação. Os craques, porém, queriam resolver rápido – por mais que a partidaça merecesse 30 minutos extras.

Mbappé outra vez causou calafrios aos 41, num chute que lambeu a trave. No lance seguinte, Carrasco cruzou para Lukaku balançar as redes, mas o tento acabou anulado por impedimento. O jogo não permitia qualquer aposta e Pogba quase marcou um golaço aos 45. Em cobrança de falta frontal, o meio-campista chutou no capricho e a bola com curva tocou a quina da trave. Por fim, nos acréscimos, Theo Hernández virou o grande herói dos Bleus. Num ataque rápido pela direita, a defesa da Bélgica só afastou parcialmente. A bola sobrou para o ala esquerdo, que chutou com força da entrada da área. Courtois até tocou o arremate cruzado, mas não evitou o gol da virada. Durante os minutos finais, os franceses souberam administrar a vantagem e gastaram o tempo, sem dar brechas aos belgas. Comemoraram uma vitória histórica.

A maneira como a França buscou a vitória mostra caráter. Foi um resultado imenso para esta geração, considerando a atitude no segundo tempo e a forma como os craques chamaram a responsabilidade. Mbappé foi excepcional, com Benzema também decisivo e Pogba tomando conta do meio. Já Theo Hernández provou o porquê sua ausência na Eurocopa foi um erro. A Bélgica lamenta, e muito, ainda mais pela representatividade que o título da Liga das Nações poderia oferecer. Lukaku carregou o time e De Bruyne ditou o ritmo no primeiro tempo, mas ficou claro como faltou mais gás na segunda etapa e o desequilíbrio custou caro. Com todos os méritos, os Bleus decidirão a taça.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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