Liga das Nações

Deschamps demorou para convocar Theo, mas o lateral precisou de pouquíssimo para fazer a diferença na seleção

Theo Hernández acabou como herói na grandiosa vitória sobre a Bélgica, determinando a virada nos acréscimos

Didier Deschamps pareceu ignorar os jogos do Milan durante duas temporadas a fio. Afinal, somente assim era possível explicar a ausência de Theo Hernández nas convocações da França. A explosão e o amadurecimento do lateral em Milanello são notáveis, não apenas para justificar as expectativas em relação ao seu futebol, como também para virar o principal jogador da equipe. E se demorou para o treinador dos Bleus dar o braço a torcer, Theo não precisou de muito tempo para fazer valer a oportunidade. Nesta quinta, o ala sai como herói de um jogo para a história da seleção francesa, com o gol que selou a vitória por 3 a 2 sobre a Bélgica e botou o time na decisão da Liga das Nações.

O potencial de Theo Hernández é conhecido faz tempo. Sua primeira boa temporada aconteceu em 2016/17, quando estourou com o Alavés na primeira divisão do Campeonato Espanhol. O sucesso foi tamanho que o Real Madrid pagou a multa rescisória do garoto pertencente ao Atlético de Madrid. Só não deu para que o francês aparecesse tanto com os merengues, logo emprestado para uma passagem interessante pela Real Sociedad. Seria a deixa para que o Milan contratasse o jovem em 2019.

As duas últimas temporadas colocaram Theo Hernández entre os melhores laterais esquerdos do mundo. Ele justificou o investimento do Milan, ampliou a curva ascendente de sua carreira e passou a comandar a reconstrução dos rossoneri na Serie A. O francês não se dá por contente apenas em cumprir sua missão no lado do campo, ele também tem um papel essencial na armação e mesmo na conclusão das jogadas. Não à toa, seus números de gols e assistências são dilatados para a posição. Logo os clamores para que Didier Deschamps o chamasse para a França cresceram.

Theo Hernández figurou nas seleções de base, mas o salto para o time principal dos Bleus demorou bastante. Sobretudo na última temporada, quando o Milan almejou o Scudetto, parecia incompreensível que Deschamps não concedesse uma chance. Podia até haver uma dívida de gratidão com Lucas Hernández pelo destaque na Copa de 2018, mas estava claro como o irmão mais novo era melhor lateral. Deschamps, todavia, optou por ignorar Theo e levar Lucas Hernández ao lado de Lucas Digne para a Eurocopa. Pagou caro por isso, com os problemas de lesão e os improvisos no setor durante o torneio continental.

A última Data Fifa, enfim, veria Theo Hernández na lista da França. Ele ainda permaneceu no banco de Digne contra Bósnia e Ucrânia, mas foi titular diante da Finlândia e se saiu bem dentro do 3-4-1-2 usado por Deschamps. Ganhou a posição justificadamente diante da Bélgica nesta quinta, novamente na ala esquerda. Pôde inclusive atuar ao lado do irmão Lucas, este como zagueiro, onde rende melhor. Pela primeira vez desde 1932, com Lucien e Jean Laurent, os Bleus tinham dois irmãos como titulares.

O esquema com três zagueiros auxilia a França no encaixe de suas melhores peças, mas ainda tem problemas e a defesa sofreu para proteger o time durante o primeiro tempo. Pavard e o próprio Lucas Hernández acabaram batidos nos lances dos gols. Todavia, quando os Bleus precisaram partir à pressão na segunda etapa, a liberdade aos alas funcionou. Theo e Pavard foram participativos no domínio da equipe, ainda que os principais lances acabassem decididos por Mbappé, Benzema ou Pogba. Isso até que o gol da vitória, nos acréscimos, surgisse exatamente com os alas.

Pavard foi o responsável por puxar o avanço pelo lado direito, após a tabela entre Griezmann e Mbappé. A zaga afastou parcialmente o cruzamento, mas Theo Hernández já estava à espreita do outro lado para aproveitar a sobra. O milanista abriu espaço para o chute e mandou uma pancada cruzada que Thibaut Courtois não conseguiu defender. Os torcedores italianos cansaram de ver essa qualidade do jovem de 24 anos e agora Deschamps não pode mais negar sua excelência. A partir de agora, parece difícil desbancar Theo do time titular rumo à Copa do Mundo de 2022.

Theo Hernández pode até mesmo ser uma arma extra nesse grupo tão talentoso da França. É um lateral que combina técnica e intensidade no apoio, com uma leitura de jogo que foge do comum para a posição. Não à toa, pelo Milan, tantas vezes o diferencial da equipe está pelo flanco esquerdo. Os Bleus também podem se aproveitar disso e contaram com a estrela do jovem numa partida deste calibre. Depois de tanto tempo de espera pela primeira convocação, a seleção francesa pode ter conhecido o dono da lateral pela próxima década.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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