Kasper Schmeichel viveu uma temporada infeliz e tentará se reerguer no Anderlecht
Sem dar certo no Nice, Kasper Schmeichel reforça os laços dinamarqueses do Anderlecht, com um projeto interessante no Campeonato Belga
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2023%2F09%2Fkasper.jpg)
Kasper Schmeichel deixou um vácuo enorme no Leicester City durante a temporada passada. O goleiro parecia pronto a atuar pelo clube até os últimos dias de sua carreira profissional, mas optou por sair diante da proposta do Nice. E a mudança se tornou ruim para os dois lados. Sem um arqueiro confiável, as Raposas amargaram o rebaixamento na Premier League. Enquanto isso, o dinamarquês caiu de nível e se tornou uma peça dispensável no clube francês. Tanto é que seu recomeço acontecerá num nível mais baixo, embora num clube tradicional. Nesta terça-feira, o Anderlecht anunciou Schmeichel como seu novo goleiro.
Liberado pelo Nice, Kasper Schmeichel estava livre para assinar com qualquer clube. O veterano assim chegou a um acordo com o Anderlecht por uma temporada. Aos 36 anos, o veterano garantirá grandes doses de experiência aos violetas, que venderam seu goleiro titular nesta janela de transferências – o promissor Bart Verbruggen, que já se tornou dono da meta do Brighton na Premier League. A atividade no Campeonato Belga será importante para que Schmeichel possa disputar a Euro 2024. Destaque na última edição do torneio continental, o arqueiro segue como titular da Dinamarca.
It’s official. 🇩🇰 Kasper Schmeichel joins Belgian record champion Royal Sporting Club Anderlecht. 🟣⚪ All info on https://t.co/RCdwJJMN5N pic.twitter.com/oEqJCTHyJn
— RSC Anderlecht (@rscanderlecht) September 5, 2023
O adeus amargo do Leicester
Kasper Schmeichel precisou rodar bastante para se firmar como goleiro profissional. O filho do lendário Peter Schmeichel sempre carregou sobre os ombros enormes expectativas. Formado pelas categorias de base do Manchester City, foi emprestado para vários clubes nas divisões de acesso e disputou apenas dez partidas com o time principal dos celestes. Teve que se firmar seu nome degrau depois de degrau. A venda para o Notts County foi bem-vinda e Schmeichel se destacou na League Two, a quarta divisão do Campeonato Inglês, em 2009/10. Logo depois, acabou negociado com o Leeds United e também foi bem na Championship. Isso até se transferir ao Leicester em 2011/12 e descobrir o clube de sua vida.
A chegada de Kasper Schmeichel ao Leicester se deu pelas mãos de Sven-Göran Eriksson, com quem o goleiro havia trabalhado no Manchester City e no Notts County. O clube tinha acabado de ser comprado por Vichai Srivaddhanaprabha. O dinamarquês seguia como um goleiro de segunda divisão, mas se estabeleceu entre os melhores da Championship, elogiado também por seu trabalho duro e por seu comprometimento. Os resultados vieram, com o acesso em 2013/14. Isso até que a epopeia na Premier League providenciasse sua magia. Primeiro, ao se tornar um dos responsáveis por evitar o descenso em 2014/15, quando retornou de lesão na reta decisiva. Depois, por ser um nome inescapável na inacreditável conquista de 2015/16. Também protagonizou as Raposas até as quartas de final da Champions 2016/17. Por fim, virou um monstro na conquista da Copa da Inglaterra em 2020/21, com defesas sensacionais na final contra o Chelsea.
A grandeza de Kasper Schmeichel no Leicester, ainda assim, não se traduz apenas pelos feitos históricos. O goleiro também criou uma identificação imensa com o clube e era uma liderança expressa nos vestiários. Virou um dos capitães, naturalmente. Também possuía uma ligação forte com a direção, reforçada ainda mais depois da morte do presidente Vichai, a quem considerava um amigo. Pela maneira como o arqueiro parecia disposto a honrar a memória do antigo proprietário, a tendência era de que ele pendurasse as luvas no Estádio King Power. Entretanto, a relação se desgastou um pouco mais nos últimos anos. O Leicester não sinalizava a renovação do contrato quando o veterano chegava ao seu último ano de vínculo, enquanto o técnico Brendan Rodgers se mostrava disposto a testar novas alternativas. Foi o que acelerou a saída de Schmeichel.
É verdade que Schmeichel não fez sua melhor temporada em 2021/22, depois de vir de uma Eurocopa estupenda. Porém, vendê-lo por €1 milhão ao Nice soou como um péssimo negócio do Leicester. As consequências se pagaram dentro de campo: as Raposas não conseguiram firmar um novo titular no gol, entre as atuações erráticas de Danny Ward e Daniel Iversen. A ausência de um personagem histórico e de uma liderança como Schmeichel é vista entre as principais razões para o rebaixamento do Leicester. Mas não que o dinamarquês se desse bem em sua escolha.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
A passagem ruim por Nice
Schmeichel viveu uma temporada turbulenta com o Nice. O goleiro teve atuações ruins em suas primeiras aparições pelo clube e perdeu a posição durante uma partida contra o Angers. Existiam acusações de que o veterano estava fora de forma e que não se empenhava suficientemente nos treinos. Mesmo quando recuperou a posição na sequência do primeiro turno da Ligue 1, não era visto como uma unanimidade. Tanto é que chegou a ser vaiado na Allianz Riviera em janeiro, diante do interesse noticiado pela imprensa em buscar um novo clube. O Bayern de Munique chegou a consultá-lo para substituir Manuel Neuer, antes de optar por Yann Sommer.
O Nice passou por uma mudança de treinador na última temporada, quando Lucien Favre perdeu o emprego e Didier Digard assumiu o posto. Schmeichel seria mantido como titular pelo novo comandante e teve uma boa sequência em fevereiro, quando chegou a ficar seis jogos sem sofrer gols numa série de sete rodadas na Ligue 1. Entretanto, o veterano não era mais o milagreiro de outrora e as deficiências se tornaram mais evidentes. Com o Nice fora das copas europeias para 2023/24, o clube não fez questão de segurá-lo. Sem conseguir negociá-lo, rescindiu seu contrato em 1° de setembro, mesmo com dois anos de vínculo pela frente.
Schmeichel ficava livre para assinar com clubes de qualquer liga. Entretanto, seu mercado se reduziu drasticamente nos últimos meses. Nem mesmo a participação na Copa do Mundo auxiliou a recobrar o moral, com a fraquíssima campanha da Dinamarca. Uma volta ao Leicester chegou a ser aventada, assim como se especulou o papel de reserva no Chelsea. No fim das contas, o Anderlecht ofereceu a proposta mais concreta. O veterano tentará reerguer um clube tradicionalíssimo, mas que vem de uma temporada ruim no Campeonato Belga e sequer disputará as copas europeias.
Kasper Schmeichel também engrossa a relação do Anderlecht com a Dinamarca. Ao todo, 15 jogadores do país vestiram a camisa violeta. Havia uma ligação bastante forte nos anos 1980, quando diversos destaques da seleção alvirrubra passaram pelo clube belga. A grande referência era o líbero Morten Olsen, capitão da Dinamáquina. O meia Frank Arnesen teve uma passagem mais curta pela Bélgica, enquanto o lateral Henrik Andersen também foi um grande símbolo desse elo e depois faturou a Euro 1992. Per Frimann, Kenneth Brylle e Benny Nielsen completam a lista de selecionáveis. O Anderlecht cedeu três jogadores para a Dinamarca na Euro 1984 e mais três na Copa de 1986, enquanto três dinamarqueses participaram da conquista da Copa da Uefa de 1982/83 pelos violetas.
Think fast. ⚡️ pic.twitter.com/RpHgqForkt
— RSC Anderlecht (@rscanderlecht) September 5, 2023
A reconstrução do Anderlecht
Bart Verbruggen foi o destaque do Anderlecht na temporada passada, ao liderar a campanha até as quartas de final da Conference League. O jovem goleiro, convocado à seleção da Holanda, estava com cartaz o suficiente para se transferir ao Brighton. Schmeichel não tem o potencial do garoto, mas serve como uma boa resposta à torcida. Além do mais, o Anderlecht montou uma pequena colônia dinamarquesa nesta temporada. O clube é comandado desde dezembro por Brian Riemer, antigo assistente de Thomas Frank no Brentford. O volante Thomas Delaney e o atacante Kasper Dolberg chegaram nesta janela de transferências, enquanto o atacante Anders Dreyer desembarcou em janeiro. O atual mercado ainda garantiu o sueco Ludwig Augustinsson e o argentino Luis Vázquez.
E o impacto positivo dos negócios se reflete no bom início de campanha do Anderlecht no Campeonato Belga. Os violetas ocupam a segunda colocação, após seis rodadas, com 13 pontos conquistados. Schmeichel deverá tomar a posição de Maxime Dupé, goleiro de 30 anos trazido do Toulouse. A bagagem do dinamarquês precisa ser respeitada. Será uma maneira de também manter a forma em busca da Euro 2024 – quem sabe, seu último torneio em alto nível com a Dinamarca, depois de fazer um ciclo marcante entre a Copa de 2018 e a Euro 2020.