Europa

Justiça pequena

O post já estava preparado. E era elogioso. Diante dos problemas na vizinha Turquia, a federação grega havia se adiantado. A punição exemplar para Kavala e Olympiakos Volou, envolvidos com manipulação de resultados, seria o rebaixamento. Nada mais esperado sobre um problema com tamanha gravidade e que mostrava o caminho aos turcos.

Mas, na instância final, a pena ficou branda. Diante do apelo dos dois clubes, uma das comissões da Associação Grega de Futebol (EPO) resolveu mantê-los na elite. Para a próxima temporada, o Kavala iniciará na tabela com oito pontos negativos, enquanto o Olympiakos Volou terá menos dez. Uma punição que soa pequena, diante do que poderia acontecer. E que, encerrado o caso, dá margem a outros clubes participarem de casos do tipo sem nem mesmo caírem de divisão.

A própria decisão parece um paradoxo quando comparada com a política apresentada pela federação grega nos últimos meses. Logo após o fim da Super League, os cartolas do país não tiveram dúvidas em mandar para a segundona o Iraklis, que fechou suas contas com déficit maior do que o previsto pelo “fair play financeiro” local. Algo bastante justo, aliás, já que o regulamento da liga determinava o rebaixamento. O alivio para o lado de Kavala e Olympiakos Volou, todavia, parece abrir um precedente para que os clubes cometam práticas ilícitas. O problema é menor para quem ignora a ética do que para quem tem as finanças vermelho.

Antes do anúncio da federação, a possibilidade de rebaixamento havia gerado a revolta nos torcedores dos dois times, sobretudo nos do Olympiakos Volou. As cenas de violência já recorrentes dentro dos estádios gregos foram vistas agora nas ruas. A própria postura da direção do clube, agressiva quando questionada sobre o caso, motivou a reação da torcida. E qual a contrapartida para isso? Nada.

A atitude louvável no caso fica por conta do banimento dos dirigentes de ambas as equipes. Conforme a determinação das autoridades gregas, eles não poderão se envolver com atividades em qualquer clube do país até o resto de suas vidas. Enfim, uma decisão acertada quanto à punição dos envolvidos. Mas que não impede que eles ajam por debaixo dos panos e continuem a propagar sujeira pelos campeonatos locais.

A Uefa, por sua vez, demonstrou a seriedade que se esperava dela. É verdade que a entidade demorou a se manifestar. Ao passar às federações a decisão sobre a presença nas competições continentais de clubes envolvidos com manipulação de resultados, a Uefa parecia querer se isentar de qualquer julgamento. Entretanto, após anunciada a decisão da liga grega, a confederação finalmente emitiu o seu parecer: o Olympiakos Volou, que participava da Liga Europa, foi excluído da competição.

Os Erythrolefki já tinham passado por uma das fases eliminatórias e enfrentariam o PSG na última etapa dos playoffs. Agora, com base no Artigo 5 do regulamento de disciplina da Uefa, o clube está proibido de participar de torneios continentais pelas próximas três temporadas. O Olympiakos Volou ainda pode recorrer da decisão, mas as expectativas sobre a mudança na punição são mínimas. O próprio presidente da entidade europeia, Michel Platini, se ofereceu aos cartolas gregos para ajudar a retomar a ordem na liga local. Mas, diante da passividade da federação, a união não deverá sair das intenções.

Além da Uefa, o organismo que parece mais apto para ajudar o futebol helênico é o próprio governo. O ministro da cultura do país, que também possui tarefas ligadas ao esporte, já manifestou a sua insatisfação quanto à revogação do rebaixamento de Kavala e Olympiakos Volou. Segundo nota oficial, o ministro Pávlou Geroulánou afirmou que respeita as penas, mas que está disposto a aplicar novas penas para recuperar a integridade da Super League. Diante da conivência da federação para com os contínuos problemas, o governo é a bóia de salvação da vez.

Enquanto isso, na Turquia…

Como dito, as soluções para o caso de manipulação de resultados na Süper Lig caminham a passos muito mais lentos. Com a temporada adiada para o início de setembro, as autoridades do país parecem ao menos querer aprofundar a questão antes de emitir a decisão. Por outro lado, a TFF, a federação turca, está um tanto quanto em cima do muro. Ainda que esperem o resultado final das investigações, os cartolas turcos sempre fogem das perguntas quando questionados sobre o assunto. Segundo o comitê de ética, as sanções contra jogadores, clubes e dirigentes envolvidos só será anunciada no dia 22 de agosto.

Até o momento, as únicas notícias divulgadas pela imprensa turca envolvem os absolvidos, e não os punidos. E o Galatasaray precisa agradecer muito por ter feito uma campanha tão ruim na última temporada. Com resultados oscilantes, a polícia já descartou a participação do Cimbom nos escândalos. O único problema encontrado foi a sonegação de dólares na declaração fiscal do clube. Um caso que só deve ganhar atenção depois que todo o turbilhão se encerrar.

O presidente do Gala, Adnan Polat, teve seu nome citado pela polícia apenas no início de agosto, mais de um mês depois do estouro da polêmica. Nessa nova leva de denunciados, foi incluído também o meia Emre Belozoglu, que teria trocado mensagens com jogadores do Karabükspor antes da partida entre os dois clubes.

Enquanto aguardam o resultado final de toda a história, os principais jogadores da Süper Lig vêm manifestando as insatisfações com as incertezas. O principal deles foi Alex, o melhor jogador da temporada passada. O meia divulgou carta aberta em seu site, reafirmando os esforços em campo e negando qualquer envolvimento com as falcatruas fora dele. Segundo o brasileiro, se provarem seu envolvimento, ele se retira do futebol. “Estou na expectativa pela decisão da Federação e na torcida para que o futebol turco caminhe para frente”, escreve o jogador, no encerramento do texto.

Já outros jogadores preferem sair do país a ver as carreiras manchadas por um escândalo dessa magnitude. É o caso de Lugano, que afirmou que irá se transferir se o Fenerbahçe tiver participação confirmada nas manipulações e for rebaixado. Muitos devem seguir seu exemplo se o pior acontecer mesmo.

E mesmo os atletas envolvidos nas investigações policiais já tratam de arrumar as malas para fora do país. A história mais interessante é a do atacante Emmanuel Emenike, que teria facilitado as coisas para o Fenerbahçe no encontro com seu antigo clube, o Karabükspor. Ao fim da temporada, o nigeriano foi contratado pelo Fener, mas logo foi preso por conta da transferência suspeita. Solto por falta de provas, o jogador preferiu se mudar para o Spartak Moscou, evitando maiores pesadelos. O maior beneficiado no caso? O próprio Fenerbahçe, que embolsou um milhão de dólares entre a compra e a venda de Emenike.

Até que saiam as resoluções finais da polícia, o que se pode esperar é uma depreciação contínua do futebol turco. A expectativa sobre a impunidade ou não dos acusados só ajuda a corroer a moral dos clubes do país. Ainda que a divulgação de um escândalo do tipo coíba o aparecimento de novos casos de manipulação, o estrago já foi feito. E vai demorar um bom tempo até que a liga local tenha a sua credibilidade de volta.

Em campo, os problemas continuam

E se os problemas pipocam nos bastidores do futebol de Grécia e Turquia, a maioria dos times da região também estão indo mal no início das fases qualificatórias das competições européias. A começar por Panathinaikos e Trabzonspor, vice-campeões nacionais e que fizeram feio na terceira eliminatória da Liga dos Campeões.

O desempenho do Trabzonspor, vá lá, não foi tão ruim assim. O adversário era o Benfica, para o qual uma derrota seria mais que compreensível. No fim das contas, foi isso mesmo o que aconteceu, com os Bordo-Mavililer perdendo em Lisboa e empatando em casa. Com a eliminação, no entanto, os turcos deixaram escapar uma excelente chance de resgatar o mínimo de respeito. A classificação significaria que a qualidade equipe é maior que qualquer envolvimento com manipulações. Não foi o que aconteceu. Agora, o Trabzonspor tem outra parada indigesta na Liga Europa, o Athletic de Bilbao, na última oportunidade de recobrar a boa imagem perante o resto da Europa.

O Panathinaikos, por sua vez, teve seu vexame limitado às quatro linhas. Depois de empatar com o OB, em jogo realizado na Dinamarca, o Trifylli foi eliminado diante de sua torcida. Derrota por 4 a 3, depois de os gregos estarem vencendo por 2 a 1 no início do segundo tempo. No caso do PAO, porém, os problemas pouco tem a ver com escândalos extra-campo. O fato é que, sem Cissé e com um elenco relativamente envelhecido, o técnico Jesualdo Ferreira mostrou que ainda não conseguiu montar um time competitivo. A prova de fogo agora, desta vez na Liga Europa, é contra o Maccabi Tel-Aviv, e uma nova eliminação significaria cabeças a prêmio, especialmente a do treinador português.

Quanto aos outros clubes, que já disputavam as preliminares da Liga Europa, o único eliminado foi o Gaziantepspor, que caiu em casa para o Legia e não conseguiu reverter o resultado fora. Já Bursaspor e PAOK passaram, mas também não enfrentaram nenhum adversário de muito peso. Nesta última etapa de playoffs antes da fase de grupos, quem terá a maior pedreira é o Bursaspor, o melhor time “ficha limpa” da Turquia, que pega o Anderlecht. Já PAOK e AEK (que entra agora na competição) são favoritos em seus encontros ante, respectivamente, Karpaty e Dinamo Tbilisi.
 

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Equipe Trivela

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