‘Não beneficiará ninguém’: Infantino critica jogos de ligas no exterior e faz alerta preocupante
Presidente da Fifa defende manutenção da estrutura tradicional do esporte e se opõe à expansão desordenada de partidas nacionais fora de seus países
A decisão de ligas como a LaLiga e Serie A de levar partidas domésticas para fora de seus países reacendeu um debate antigo no futebol mundial. E o presidente da Fifa, Gianni Infantino, foi categórico ao se posicionar contra a ideia.
Para o dirigente, permitir que clubes joguem onde e quando quiserem pode transformar o esporte em um “vale-tudo, onde apenas os mais aptos sobrevivem”. Nos casos atuais, os impactados são Milan e Como, que jogariam na Austrália, e Barcelona e Villarreal, nos Estados Unidos.
Falando em Roma durante a assembleia dos Clubes de Futebol Europeus (EFC), Infantino defendeu que o futebol preserve sua estrutura piramidal — formada por ligas nacionais, competições continentais e torneios internacionais. Segundo ele, romper esse equilíbrio colocaria em risco o modelo que fez do futebol o esporte mais popular do mundo.
Presidente da Fifa alerta para riscos de jogos nacionais no exterior
O alerta do presidente surge no momento em que La Liga e Serie A avançam em planos para levar partidas oficiais ao exterior. A liga espanhola anunciou o jogo entre Villarreal e Barcelona, marcado para 20 de dezembro, em Miami, nos Estados Unidos.
Já a liga italiana pretende realizar o confronto entre Milan e Como em fevereiro, na Austrália, aproveitando a ausência temporária do San Siro por conta dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026.
Embora a Uefa tenha dado aval “a contragosto” para as iniciativas, a decisão não é unânime nem entre dirigentes nem entre jogadores. Frenkie de Jong, meio-campista do Barcelona, criticou a transferência da partida para os EUA:

— Não gosto do fato de irmos jogar lá e não concordo com isso. Não é justo para a competição. Agora estamos jogando um jogo fora de casa em campo neutro. Não gosto e não acho que seja certo para os jogadores. Os clubes serão pagos por isso, mas eu não concordo em jogar um jogo da liga em Miami. Entendo que outros clubes não concordam.
Infantino, por sua vez, reforçou que a Fifa não é contra a expansão internacional do futebol, mas quer evitar a desregulamentação total.
— Temos uma estrutura que funciona. Se quisermos quebrá-la, corremos um grande risco. Precisamos refletir sobre o que queremos para o futuro: um sistema regulado ou um mercado onde cada um faz o que quiser? — questionou.
Críticas à LaLiga e o debate sobre globalização
As palavras de Infantino chegam em meio a críticas de torcedores e políticos europeus, que enxergam as partidas no exterior como o início de uma perigosa tendência de “circos itinerantes” — clubes e ligas mudando de país em busca de novos patrocinadores e receitas, deixando de lado as comunidades locais.
O presidente de La Liga, Javier Tebas, tenta conter as reações, afirmando que a partida em Miami representa apenas 0,26% da temporada e que o objetivo é “aproximar o futebol espanhol de milhões de torcedores espalhados pelo mundo”. Segundo ele, a mudança não compromete o vínculo da competição com os fãs na Espanha.
FIFA President Gianni Infantino says Italy deserves the ‘best stadiums in the world’ and calls for rules on league games played abroad, like Milan-Como. pic.twitter.com/1FqyyJd51P
— Football Italia (@footballitalia) October 9, 2025
Mas, mesmo com justificativas econômicas e de marketing, o desconforto é evidente. Jean-Christian Dreesen, vice-presidente do EFC e CEO do Bayern de Munique, resumiu o sentimento de parte dos dirigentes europeus:
— Somos obrigados a jogar nossas partidas de liga no país onde o torneio é disputado. Eu sei que para a Uefa foi uma situação mais difícil porque eles têm que proteger os interesses dos clubes e ligas em toda a Europa.
A comparação com ligas norte-americanas como NFL, NBA e MLB, que realizam jogos internacionais há anos, é inevitável. No entanto, para Infantino, o futebol tem uma estrutura mais complexa e interdependente, e o desafio está justamente em equilibrar o crescimento global sem perder as bases que o sustentam.
— Temos uma estrutura onde temos jogos em nível nacional, em nível continental e depois em nível global — esta é uma estrutura que tornou o futebol o esporte número um no mundo.
— Se quisermos quebrar essa estrutura, corremos um grande risco, mas se quisermos regulamentá-la, então temos que analisá-la. Precisamos de uma reflexão mais global sobre o que queremos fazer.
— A desregulamentação neste campo não beneficiará ninguém — concluiu o presidente da Fifa, em tom de aviso e preocupação.
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Unai Simón: ‘O jogo Villarreal x Barça em Miami distorce a competição’
Unai Simón, goleiro do Athletic Bilbao e da Espanha, também se posicionou contra a realização de jogos no exterior. Em entrevista ao programa “El Larguero”, da rádio “Cadena Ser”, o arqueiro, que está a serviço da seleção nesta Data Fifa, criticou a ideia e justificou seu ponto.
— Não gosto disso. Se ambos os clubes priorizarem o dinheiro em detrimento dos seus torcedores… O que não vejo é um clube como o Athletic jogando fora de casa, especialmente contra o Barça, quando você tem muito mais chances de vencer no seu estádio, com a sua torcida.
— Isso corrompe a competição. É assim que vejo, mas certamente há muitos interesses por trás disso. Espero que não aconteça, mas se acontecer, é o que é.



