Europa

‘Hipócrita! Mourinho tem jogadores negros no Benfica. Como eles devem se sentir?’

Ex-atacante critica postura do técnico do Benfica no caso envolvendo Vinicius Júnior e cobra punições mais duras contra o racismo no futebol

O ex-atacante Jimmy Floyd Hasselbaink fez duras críticas a José Mourinho, atual treinador do Benfica, ao comentar os recentes episódios de racismo que ganharam destaque no futebol europeu. Em entrevista ao jornal “The Guardian”, o holandês classificou como “hipócrita” a postura do técnico português ao comentar o caso envolvendo Vinicius Júnior, além de defender punições mais severas para combater o problema dentro e fora de campo.

O debate reacendeu após Vini Jr acusar o argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, de abuso racial durante uma partida da Champions League. Na mesma semana, quatro jogadores da Premier League também foram alvo de insultos racistas nas redes sociais, casos que passaram a ser investigados pela polícia britânica.

Para Hasselbaink, episódios assim evidenciam que o futebol ainda está preso a um ciclo repetitivo de discriminação. Segundo ele, a sensação é de que o esporte sempre retorna ao mesmo ponto quando o tema é racismo.

Experiências pessoais, o caso Vini Jr e fortes críticas a Mourinho

Vini Jr acusou Prestianni de racismo em Benfica x Real Madrid
Vini Jr acusou Prestianni de racismo em Benfica x Real Madrid (Foto: Miguel Lemos / ZUMA Press Wire / Imago)

Na entrevista, Hasselbaink relembrou episódios que viveu ao longo da própria carreira. Durante sua passagem pelo Atlético de Madrid, na temporada 1999/2000, o ex-atacante afirmou ter sido alvo constante de insultos racistas nas arquibancadas — e chegou a ser cuspido por torcedores ao deixar um estádio.

— Eu era o único a ser cuspido e era, na verdade, o único jogador negro da equipe. Te faz se sentir um inútil. Te faz se sentir uma m****. Não se falou muito sobre o assunto. As pessoas viram. O que pode fazer quando se está sozinho?

Apesar das experiências traumáticas, o ex-jogador acredita que Vini sofreu ainda mais ao longo da carreira. Segundo ele, o brasileiro foi alvo de abuso racial cerca de 20 vezes em oito anos defendendo o Real Madrid, a maioria em jogos disputados na Espanha.

No episódio recente envolvendo Prestianni, Hasselbaink demonstrou preocupação com a dificuldade de comprovar a acusação, já que o jogador do Benfica cobriu a boca com a camisa durante a discussão em campo.

— Todos pensamos que ele disse alguma coisa, porque é que ele está tapando a boca? Mas não o podemos provar. Essa ainda é uma área cinzenta.

As declarações mais contundentes do ex-atacante foram direcionadas a Mourinho, que sugeriu que a celebração considerada provocatória de Vinicius poderia ter contribuído para o clima que levou ao incidente.

“Mas que raios ele está falando?”, reagiu Hasselbaink, lembrando a famosa comemoração do treinador português em Old Trafford quando comandava o Porto, deslizando de joelhos pelo gramado após eliminar o Manchester United.

— Que hipócrita! Que grande hipócrita! Inacreditável.

Para o holandês, Mourinho deveria ter lidado com o caso de forma mais direta dentro do próprio clube. Hasselbaink ainda sugeriu mudanças nas regras para evitar situações semelhantes. Entre as propostas, está a proibição de jogadores taparem a boca durante discussões em campo — ideia que também recebeu apoio do presidente da Fifa, Gianni Infantino, que chegou a sugerir cartão vermelho para quem adotar esse comportamento.

— Mourinho deveria ter ido até o jogador e perguntado de verdade: ‘O que você disse?’ E realmente confrontá-lo. E aí, se ele disser que não o insultou racialmente, você diz: ‘OK, eu falei com o jogador, foi isso que ele disse. Se ele o insultou racialmente, precisa ser punido.” Mourinho tem jogadores negros no time do Benfica. Como eles devem se sentir?

“Ele deve ter dito algo controverso, se não porque estaria tapando a boca? Não vai tapar a boca para dizer: ‘Vinicius, você é um jogador magnífico, absolutamente fantástico, posso ficar com a tua camisa?'”, ironizou..

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Racismo também cresce nas redes sociais

O problema, no entanto, não se limita ao que acontece dentro dos estádios. Na mesma semana, jogadores como Hannibal Mejbri, Wesley Fofana, Romaine Mundle e Tolu Arokodare foram alvo de mensagens racistas nas redes sociais.

Dados da Unidade de Policiamento do Futebol do Reino Unido apontam que as denúncias de abuso online cresceram 115% em apenas um ano. As autoridades investigam uma série de mensagens enviadas aos jogadores em um único fim de semana.

Diante desse cenário, Hasselbaink defendeu punições mais duras para combater o racismo no futebol, incluindo a expulsão vitalícia de torcedores envolvidos em episódios de discriminação e suspensões longas para jogadores culpados, sem direito ao recebimento de salários.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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