Europa

Como Guardiola e seus discípulos têm usado geometria para resolver ‘problemas’ do ataque no futebol

Cinco 'atacantes' obrigaram mudança na defesa; Trivela explica nova transformação tática

Entre diversas inovações que foram surgindo no alto nível nos últimos anos, o futebol encontrou um padrão em times que gostam da bola e atacam pacientemente: construir com um quadrado no meio. O ciclo eterno de “correções”, no entanto, já está fazendo essa geometria mudar.

O quadrado no meio ficou famoso com times como o Manchester City de Pep Guardiola, campeão da Champions League de 2022/23, e o Arsenal de Mikel Arteta, que rivaliza com os Citizens todos os anos na Premier League. Mas a forma de defender dos adversários mudou — e, por isso, esse quadrado deve virar um losango.

Como surgiu o quadrado e por que ele dominou o futebol

Construir com um quadrado no meio vem de uma ideia central de manter dois volantes e dois meias alinhados entre si e em alturas diferentes no campo, mas próximos o suficiente para gerar dinâmicas de passe e, principalmente, superioridade numérica no setor.

A ideia passou a ser popularizada como forma de criar vantagem frente a equipes que marcavam em 4-4-2. Com um quadrado no meio, geralmente a equipe também constrói com três defensores, em uma saída 3-2. Isso, portanto, resolve alguns problemas contra o 4-4-2:

  • Primeiro, há vantagem numérica de três defensores contra dois atacantes que vão os marcar;
  • Depois, os alas, ou quem quer que esteja responsável pela amplitude na construção, fixam e empurram os adversários que estão marcando pelos lados, impedindo-os de ajudar na marcação dos defensores;
  • E, principalmente, cria-se superioridade numérica no meio: dois volantes e dois meias contra dois volantes marcadores.
Captura de Tela 2026-02-26 às 11.45.38
Construção em 3-2 que forma o quadrado no meio (Foto: Tactical Board)

O quadrado surge, também, como uma evolução do 4-3-3. Antes, com três no meio, era fácil para a defesa igualar-se em números: bastava recuar um dos atacantes do 4-4-2 defensivo para se tornar 4-2-3-1.

O foco do quadrado é causar confusão nos volantes e zagueiros adversários, justamente por conta da grande inferioridade que se cria no meio-campo. Para que haja igualdade de quatro contra quatro, os dois zagueiros devem se desprender de suas posições, o que libera espaço para o centroavante. Isso porque os volantes têm de decidir se sobem para fechar os volantes adversários ou recuam para proteger o entrelinhas dos meias.

Uma saída para as defesas foi passar a defender em 4-1-4-1. Dessa forma, haveria um volante para proteger o entrelinhas, mas, por ter grande desvantagem numérica frente aos zagueiros, o sistema praticamente obriga o time defensor a recuar ainda mais, para “tirar” a importância dos zagueiros na construção.

Captura de Tela 2026-02-26 às 11.52.56
Defender o quadrado em 4-1-4-1 ajuda, mas ainda expões espaços (Foto: Tactical Board)

Com esse recuo, os zagueiros passam a ser os “volantes” na construção. Os volantes sobem para atuar quase como meias e os meias ficam praticamente na mesma linha dos atacantes. Nisso, criou-se o tão famoso 3-2-5, que se espalhou pelo mundo.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Aoa se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Cinco ‘atacantes’ obrigaram mudança na defesa

Se existem cinco atacantes contra quatro defensores, há clara vantagem para quem está criando. Quem se manteve com linha de quatro, muitas vezes optou por aproximá-la e dar as laterais ao adversário, impedindo a entrada pelos intervalos do meio. Mas a tendência foi clara: passar a se defender com cinco.

Isso aconteceu de modo natural, com um dos volantes recuando para acompanhar um meia adversário e sustentando a linha de cinco, ou um ponta recuando mais para se tornar o ala. Mas há também times que passaram a jogar com três zagueiros.

A principal diferença entre atacar uma linha de quatro e uma de cinco defensores são os intervalos criados: há sempre intervalos entre as linhas de lado e os laterais, entre laterais e zagueiros e entre os zagueiros. Com um jogador a mais na linha, cria-se um intervalo a mais, mesmo que esses espaços sejam menores.

Por isso, agora surge a necessidade de colocar um jogador a mais para ocupar esse espaço novo. Se não, não haverá vantagem numérica e será fácil para o time defensor marcar.

E a linha de cinco obrigou a criação do losango

Para ocupar esse espaço com um jogador a mais, o quadrado teve de ser quebrado. Se os três zagueiros atuam como volantes e geralmente enfrentam apenas um opositor, há um desperdício de espaço na frente. A criação do losango, então surge de duas principais formas, a depender da equipe:

  • Perde-se um dos três defensores para a linha de meias, enquanto um dos meias sobe para o ataque;
  • Mantém-se os três defensores, mas um dos volantes sobe para o meio e empurra o meia para o ataque.
Captura de Tela 2026-02-26 às 12.01.05
Linha de cinco cria seis intervalos e obriga time atacante a colocar mais jogadores para preenchê-los (Foto: Tactical Board)

O objetivo do losango, no fim, é o mesmo do quadrado quando ele foi implementado: ter vantagem numérica sobre a linha de defesa adversária.

Se o rival coloca uma linha de cinco, o time atacante coloca seis jogadores cobrindo os intervalos. Há, inclusive, que foi além, como Michael Carrick, que já defendeu o próprio Manchester City com uma linha de seis defensores e venceu o jogo na Premier League.

Em termos de evolução dos jogadores individualmente, é cada vez mais comum ver meio-campistas e laterais ainda mais completos. Isso porque os laterais já passaram pelo processo de se inverterem e atuarem como volantes, e agora há casos destes jogadores atuando no meio-espaço como meias criativos. Nico O’Riley, por exemplo, faz as posições de volante, meia, lateral e ponta se necessário no City.

Vale ressaltar, também, que o futebol é cíclico. A ideia de um losango, com dois atacantes nos meio-espaços com mobilidade e ajudando a criar, não é nova. O Barcelona de Pep chocou o mundo ao fazê-lo na goleada sobre o Santos na final do Mundial de Clubes de 2011, com Messi e Fàbregas como dois falsos noves formando um losango com Busquets como volante e Xavi e Iniesta como meias.

Por mais que a dupla Fàbregas e Messi não tenha as mesmas funções de, por exemplo, Haaland e Semenyo, a posição que ocupa é a mesma. A solução para um problema atual acabou sendo revisitar algo que já foi feito há quase 20 anos. E continuará sendo assim no futebol.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo