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Há cem anos, elenco do Hearts “abria mão” do Escocesão para lutar na Primeira Guerra

Tradicionalíssimo na Escócia, o Hearts não sabe o que é conquistar um Campeonato Escocês há mais de 54 anos. Foram apenas quatro títulos na competição, no período entre 1894 e 1960. Entretanto, o número poderia muito bem ser maior, não fosse a nobre atitude da equipe que representava o clube em 1914. Líder absoluto da competição após oito vitórias nas oito primeiras rodadas, o grupo de 16 atletas atendeu ao pedido de um empresário local e se alistou em massa para a Primeira Guerra Mundial, há exatos cem anos.

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O conflito havia começado em julho, e o exército do Reino Unido não contava com um contingente grande o bastante. O ministro da Guerra britânico, Lord Kitchener, precisava de mais alistamentos, mas não queria que isso acontecesse de forma compulsória. Começou então uma grande campanha, incentivando que as pessoas se juntassem em grupos, formando batalhões entre amigos e colegas. Em Edimburgo, Sir George McCrae, um empresário local, então convenceu o elenco inteiro do Heart of Midlothian a se juntar ao 16º batalhão britânico, os Royal Scots. A ideia era que a popularidade do elenco que liderava o Campeonato Escocês servisse como impulso para a adesão de outras pessoas – e funcionou. Entre sócios e torcedores do clube, cerca de 400 homens se juntaram aos 16 atletas.

Com o início dos treinamentos militares para a guerra, o elenco do Hearts teve de conciliar a nova incumbência com a temporada, que ainda rolava, apesar do clamor de alguns grupos pela paralisação das atividades. Embora tenha conseguido manter uma sequência de invencibilidade, que começara em outubro, até fevereiro de 1915, eventualmente o cansaço da preparação para o conflito – que incluía noites de marcha nas vésperas de algumas partidas – se refletiu em campo, e o time acabou vencendo apenas oito dos 17 jogos que fez a partir da mobilização.

A importância dos Royal Scots, o “Batalhão dos Esportistas”, não se limitou apenas ao ato nobre do alistamento em massa. Em uma das mais relevantes batalhas da Primeira Grande Guerra, a Ofensiva do Somme, que teve como objetivo quebrar as linhas de defesas alemã na região do Rio Somme, na França, o grupo de McCrae foi a tropa dos Aliados que mais conseguiu avançar no primeiro dia, em 1º de julho de 1916. Naquela batalha, entretanto, 75% dos homens do 16º batalhão morreriam.

Do grupo de 16 jogadores do Hearts alistados para a guerra, sete morreram em combate, dois devido a complicações causadas por bombas de fumaça e um outro nunca mais voltou a jogar após ficar paralítico.

Pouco após o fim da Primeira Guerra Mundial, um mausoléu em homenagem ao Hearts foi erguido no centro de Edimburgo, como forma de agradecimento pelo sacrifício do elenco, e, recentemente, em julho deste ano, uma cerimônia exaltando a memória dos mortos do “Batalhão dos Esportistas” foi realizada no vilarejo de Contalmaison, um dos locais que contaram com a bravura daquela tropa para ser liberados das tropas alemãs na região do Somme.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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