Europa

Guardiola: “Não é esporte quando não há relação entre esforço e sucesso”

Técnico do Manchester City criticou Superliga nos moldes em que foi apresentada e cobrou esclarecimentos de dirigentes

Desde o anúncio da Superliga Europeia na noite do domingo (18), à exceção de uma entrevista de Florentino Pérez ao programa de TV espanhol El Chiringuito, nenhum presidente ou proprietário dos 12 clubes envolvidos no projeto foi à imprensa conceder entrevistas sobre a bomba que lançaram sobre o futebol europeu. Os mais expostos ao escrutínio da imprensa têm sido os treinadores, e Pep Guardiola destacou isso em sua entrevista coletiva nesta terça-feira (20). O técnico do Manchester City, mesmo tendo o cuidado de dizer não ser o melhor indicado para falar do assunto, deixou clara sua oposição ao que foi apresentado até agora sobre o novo campeonato.

Guardiola, a exemplo de outros técnicos como Jürgen Klopp e Thomas Tuchel, afirmou ficar sabendo do anúncio da Superliga apenas instantes antes da divulgação de seu comunicado oficial. Inicialmente, ressaltou a falta de detalhes sobre os planos e como é desconfortável para os técnicos dos clubes envolvidos serem colocados sob os holofotes para falar sobre o assunto.

“Nós, treinadores, falamos seis vezes por semana. Somos questionados sobre o NHS, a Covid. Sinceramente, podem perguntar o que quiserem, eu vou dizer como eu me sinto. Mas nós não somos as pessoas certas a falar, porque os presidentes são os melhores. Eles podem falar claramente qual é sua ideia para o futebol, aonde querem ir. É desconfortável para nós, porque não temos todas as informações. Quando tiver todas as informações, eu darei minha opinião. Posso dar minha opinião sobre o que sei hoje, mas não sei mais do que isso. A realidade é isso: um comunicado e nada mais.”

Dito isso, Guardiola criticou a Superliga tal como ela está apresentada hoje. O treinador questionou os critérios para determinar os participantes e foi firme em seu posicionamento contra o que vê como falta de mérito esportivo na proposta.

“Não entendo porque estes clubes foram selecionados. Não é esporte quando não há relação entre esforço e sucesso, não é esporte. Não é esporte se o sucesso já é garantido, se não importa se você perde. Disse isso muitas vezes: quero a melhor competição possível. Não é justo se os times lutarem no topo e não puderem se classificar porque o sucesso já está garantido apenas para alguns poucos clubes. É isso que sinto neste comunicado. Talvez as coisas mudem, e as pessoas dizem que quatro ou cinco clubes podem subir e jogar esta competição. Mas e o que acontece com o restante, os 15 que podem jogar bem ou mal e estarem sempre lá? Isso não é esporte, é outra coisa”, avaliou.

Em diversos momentos, o treinador do Manchester City pontuou que os dirigentes por trás dos planos da Superliga é quem precisam vir à público e explicar sua decisão. Mais uma vez, questionou a premissa por trás da escolha dos clubes envolvidos, apontando para a tradição vencedora do Ajax, inicialmente fora dos clubes fundadores, como exemplo.

“As pessoas certas têm a obrigação de esclarecer as coisas o mais rápido possível. Quais são os benefícios, por que estas equipes vão jogar e não outras. Por que o Ajax, que tem quatro Champions Leagues, não está lá? Eles precisam explicar isso, dizer a mim, a todos nós.”

Apesar das críticas, Guardiola não isentou a Uefa ou outras instituições tradicionais do futebol, afirmando que é necessário que não sejamos cínicos e que reconheçamos que cada um defende os seus próprios interesses. “Quando você fala da Premier League e da Uefa, eles estão cuidando dos interesses deles. Para chegar neste ponto, a Uefa também falhou. Eles precisam se comunicar, precisavam estar em contato anteriormente”, afirmou.

“Eu apoio meu clube. Conheço as pessoas e faço parte deste clube. Mas eu também tenho minha própria opinião. Na minha opinião, poderei ser claro quando tiver todas as informações. No momento, temos apenas um comunicado, ninguém apareceu para dizer nada. Então é por isso que é desconfortável para mim, para o Ole, Jürgen (Klopp), Thomas (Tuchel), todos os técnicos destes seis clubes”, insistiu.

Juntando as peças, se é que isso era realmente necessário, fica claro que a decisão da criação da Superliga por parte dos 12 clubes – Juventus, Internazionale, Milan, Atlético de Madrid, Real Madrid, Barcelona, Chelsea, Arsenal, Tottenham, Liverpool, Manchester City e Manchester United – não foi um processo que passou por discussões internas envolvendo jogadores e treinadores.

Alguns atletas individuais das equipes envolvidas começaram a se posicionar de forma contrária à Superliga, como James Milner, Marcus Rashford e Bruno Fernandes. O primeiro expressou sua posição após o empate do Liverpool com o Leeds, na segunda-feira (19), enquanto a dupla do Manchester United usou as redes sociais para isso. O português compartilhou uma mensagem de Daniel Podence, do Wolverhampton, contrária à nova competição e acrescentou que “sonhos não podem ser comprados”, enquanto o inglês compartilhou em seu Twitter uma imagem com a famosa citação do ex-técnico do Manchester United Matt Busby que diz que o futebol “não é nada sem os torcedores”, em referência à desaprovação quase unânime do público.

Segundo o site The Athletic, Jordan Henderson, capitão do Liverpool, teria convocado uma reunião entre todos os capitães dos 20 clubes da Premier League para discutir a situação, o que potencialmente poderia levar a um posicionamento conjunto dos jogadores da elite inglesa.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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