Champions LeagueEuropa

Grupo A: Man United, Shakhtar, Leverkusen e Real Sociedad

O Manchester United pinta como grande favorito no Grupo A da Champions. Mas não dá para falar que o sorteio proporcionou uma chave desequilibrada. Pelo tamanho e pelos feitos na última temporada, os Red Devils estão à frente, mas não dá para diferenciar tanto o patamar de Shakhtar Donetsk, Bayer Leverkusen e Real Sociedad. Os ucranianos se colocam à frente pelos desempenhos recentes, mas, como história não entra em campo e a reformulação do outro lado não é tão profunda, é bom ficar de olho também nos alemães e nos espanhóis.

Manchester United

Como chegou à Liga dos Campeões: campeão da Premier League
Melhor campanha: Campeão (1967/68, 1998/99, 2007/08)

O cara

Robin van Persie. E ainda havia alguma dúvida sobre quem seria? Mesmo custando € 30 milhões, o holandês pareceu uma pechincha pelo que fez em seu primeiro ano em Old Trafford. Não apenas por ter sido o artilheiro do United, mas por ter carregado a equipe em várias partidas. O camisa 20 prima não apenas pela qualidade fora de série na conclusão da jogada, mas também por chamar a responsabilidade e participar da construção do jogo. Porém, ainda falta mostrar-se decisivo na LC. Em 2012/13, Van Persie deixou a desejar pelos gols perdidos contra o Real Madrid.

Papo de bar

O Manchester United vai demorar a se encontrar sem o Ferguson. Sem ele à beira do campo, o time não vai ser campeão tão cedo. Afinal, o Fergie Time jaz.

A realidade

É óbvio que Sir Alex Ferguson faz falta em Old Trafford. Mas, ao menos neste início, o problema de David Moyes é mais como gerente do que como treinador. Lidar com as vontades dos jogadores parece mais difícil que fazer a equipe funcionar. O elenco é o mesmo que devastou a Premier League em 2012/13, com o acréscimo de Marouane Fellaini. Se os Red Devils já tinham seus predicados, o escocês só precisa resolver algumas carências.

Lições do passado

Liga dos Campeões é um torneio para levar a sério desde o início. Os Red Devils se acostumaram a privilegiar a Premier League ao invés da fase de grupos no primeiro semestre da temporada e pagaram caro em 2011/12, com a famosa eliminação para Benfica e Basel. Na última edição, o time de Ferguson tratou de se empenhar até assegurar a classificação, mas tirou o pé do acelerador depois.

Ponto forte

A eficiência da equipe. O Manchester United não é daqueles times que massacra o adversário, que controla a posse de bola, que finaliza durante os 90 minutos. A grande virtude é justamente saber se segurar quando os momentos são adversos. Pressionados, os Red Devils sabem muito bem compactar suas linhas defensivas e fechar os espaços. E não dê uma chance de ataque sequer aos ingleses, que eles podem matar o jogo em uma bola – especialmente na fase atual de Van Persie.

Ponto fraco

A falta de alternativas para decidir o jogo. A qualidade de Van Persie é indiscutível, assim como a de Rooney, quando o camisa 10 se sente prestigiado e pronto para destruir. O jogo aéreo é uma excelente arma. Porém, as forças ofensivas da equipe param por aí. O United tem uma equipe muito bem encaixada, mas para defender. Para atacar, a falta de criatividade pesa. A não ser nos lampejos dos homens de frente e nas bolas longas, não há um grande repertório. O avanço pelas pontas, que tinha tudo para ser uma virtude diante do esquema tático usado, não tem funcionado.

Curiosidade

O lendário Matt Busby, primeiro técnico do United a conquistar a Liga dos Campeões, defendeu os rivais Manchester City e Liverpool em seus tempos de jogador. E o escocês só não foi levado aos Red Devils porque a diretoria não pagou as £150 pedidas pelos Citizens pela transferência. Aliás, se você reclama das poucas contratações do United nesta temporada, saiba que em 1956, quando o clube estreou na LC, Busby não fazia uma contratação sequer desde 1953. E em 1968, quando foi campeão, o treinador já tinha recebido a extrema unção duas vezes, por complicações após o acidente de avião sofrido em Munique, em 1958.

Elenco (clique para ver)

*****

Shakhtar Donetsk

Como chegou à Liga dos Campeões: campeão do Campeonato Ucraniano
Melhor campanha: Quartas de final (2010/11)

Bernard ganhou a camisa 10 do Shakhtar, que era de Willian
Bernard ganhou a camisa 10 do Shakhtar, que era de Willian
O cara

Darijo Srna. A importância do lateral croata vai muito além dos aspectos de jogo. Logicamente, o camisa 33 é um dos esteios do time em campo, especialmente por sua qualidade nas bolas paradas e nos cruzamentos. Entretanto, o capitão também tem um papel de estabilidade no grupo, especialmente em uma temporada de mudanças. Sua experiência é fundamental.

Papo de bar

O Shakhtar é um clube esperto. Contrata a ginga brasileira para o ataque porque sabe que na Ucrânia só tem perna de pau. São campeões na Ucrânia por causa disso.

A realidade

Os títulos do Shakhtar só começaram a aparecer com a frequência atual depois que Mircea Lucescu aplicou sua filosofia de trazer brasileiros para o ataque e deixar a defesa com os europeus. No entanto, vai muito além disso. O trabalho de observação, ao encontrar tantos jovens talentos no Brasil, merece aplausos. E não é porque faltam sul-americanos na defesa que só sobram pernetas – Darijo Srna é o melhor exemplo para provar o contrário, assim como Henrikh Mkhitaryan.

Lições do passado

Não venda seu craque na janela de inverno. Willian foi o melhor jogador da fase de grupos da Champions 2012/13, mas teve problemas com o comando por querer sair e o Anzhi acabou pagando a multa rescisória. Taison chegou para substituí-lo, sem o mesmo nível de desempenho. No fim, o Shakhtar acabou sendo presa fácil para o Borussia Dortmund nas oitavas de final.

Ponto forte

O jogo vertical. Apesar das mudanças sofridas com as perdas de Willian, Fernandinho e Henrikh Mkhitaryan, a essência do time de Mircea Lucescu é a mesma. O Shakhtar conta com um estilo muito compacto sem a bola e voraz nas subidas ao ataque. Bernard, Fred e Wellington Nem foram contratados justamente para reforçar essa característica, de alta velocidade. Um erro na saída de bola e o bote dos Kroty costuma ser certeiro.

Ponto fraco

A renovação do time. O Shakhtar vivia o ápice na fase de grupos da temporada passada, quando eliminou o Chelsea e só não ficou à frente da Juventus porque bobeou. O sucesso, porém, levou à debandada e as mudanças significativas no elenco podem pesar contra. No Campeonato Ucraniano, a queda de desempenho foi sentida e os Kroty estão apenas na quarta colocação, sem vencer há três rodadas. A baixa média de idade dos reforços, ao menos, dá esperanças de evolução no futuro.

Curiosidade

Rinat Akhmetov, o bilionário que banca o Shakhtar, só chegou à presidência do clube por conta de um caso policial. Seu antecessor era Akhat Bragin, morto em um atentado à bomba dentro do estádio Olimpiyskiy, a antiga casa da equipe, em 1995. Ele tinha relações com a máfia de Donetsk, uma das mais temidas do Leste Europeu. E, por mais que Akhmetov gere suspeita, não teve nada a ver com o assassinato, cometido por outra organização criminosa da Ucrânia.

Elenco  (clique para ver)

*****

Bayer Leverkusen

Como chegou à Liga dos Campeões: terceiro colocado da Bundesliga
Melhor campanha: Vice-campeão (2001/02)

Kiessling é o protagonista dos gols do Leverkusen (AFP PHOTO / PATRIK STOLLARZ)
Kiessling é o protagonista dos gols do Leverkusen (AFP PHOTO / PATRIK STOLLARZ)
O cara

Stefan Kiessling. O artilheiro do Bayer Leverkusen é parte fundamental do sucesso do time. Dos 16 gols do time nesta temporada, 10 tiveram participação direta do centroavante. Foram seis tentos e quatro assistências, provando que, além de ter presença de área, o alemão também sabe preparar jogadas para os companheiros que vêm de trás. E essa preponderância não é inédita, já que em 2012/13 ele participou de 45% dos gols dos Aspirinas – marcou 27 e deu passe para outros 10.

Papo de bar

O único alemão capaz de meter medo no Bayern Munique é o Borussia Dortmund. Por isso é que só dá os dois no topo da Bundesliga.

A realidade

Bayern e Dortmund são, de fato, os dois alemães mais fortes, mas não dá para menosprezar o potencial do Bayer Leverkusen. A primeira derrota imposta ao Bayern na última Bundesliga foi protagonizada pelos Aspirinas. E, mesmo com as vendas de André Schürrle e Dani Carvajal, o clube fez um bom trabalho na janela de transferências, trazendo os promissores Emre Can e Heung-Min Song. São cinco vitórias em seis jogos nesta temporada.

Lições do passado

Fechar os espaços e manter a concentração é essencial contra grandes adversários. Na Champions 2011/12, o Leverkusen até passou de fase, mas foi massacrado pelo Barcelona. Depois de perder em casa por 3 a 1, tomou 7 a 1 na volta. Tudo bem que Messi estava impossível ao marcar cinco gols, mas o vexame poderia ter sido bem menor.

Ponto forte

A imposição na BayArena. Na temporada passada, 12 das 19 vitórias do Leverkusen na Bundesliga aconteceram em casa, enquanto o time mantém os 100% de aproveitamento como anfitrião em 2013/14. Em seus domínios, o técnico Sami Hyypia deixa evidente o caráter ofensivo de seu time, privilegiado pela velocidade de Sidney Sam e Heung-Min Son pelas pontas. A média de gols no estádio é alta – superior a três gols nesta temporada – e a pressão ofensiva também não dá muito tempo para que a defesa passe sufoco.

Ponto fraco

O estigma do ‘Neverkusen’. Sempre que se esperava algo do Leverkusen, a equipe decepcionou. Os fracassos históricos não são poucos, incluindo até três vice-campeonatos em 2001/02. O elenco atual não é tão qualificado quanto os da década passada, mas é sempre bom desconfiar. Os alemães têm condições totais para brigar pela segunda vaga do grupo, até mesmo um pouco à frente de Shakhtar Donetsk e Real Sociedad.

Curiosidade

O Bayer Leverkusen se consagrou como o clube da indústria farmacêutica, mas possui raízes operárias. A iniciativa de fundar o clube de futebol foi dos funcionários, que mandaram uma carta à diretoria da Bayer e contaram com a ajuda da corporação para estruturar a equipe, em 1904. Ainda hoje os alemães são geridos pela companhia inventora da Aspirina – entendeu o motivo do apelido agora?

Elenco (clique para ver)

*****

Real Sociedad

Como chegou à Liga dos Campeões: quarto colocado de La Liga
Melhor campanha: Semifinal (1982/83)

Xabi Prieto e Vela comemoram gol da Real (AP Photo/Andres Kudacki)
Xabi Prieto e Vela comemoram gol da Real (AP Photo/Andres Kudacki)
O cara

Xabi Prieto. O capitão da Real Sociedad é um dos remanescentes da última campanha do clube na Liga dos Campeões, em 2003/04. Na época, o meio-campista era apenas um novato e sequer entrou em campo. Hoje, aos 30 anos, o basco é quem centraliza a armação, atuando como meia central. Possui qualidade na definição na jogada, mas também experiência para ditar o ritmo da equipe.

Papo de bar

É mais uma das babas do Campeonato Espanhol, que só é disputado por Real Madrid e Barcelona. Vai para tomar rodo.

A realidade

O Lyon está longe do seu auge, mas as duas vitórias imponentes mostraram que a Real não está a passeio na LC. Além disso, os bascos foram os responsáveis pela primeira derrota do Barcelona na última temporada e fizeram jogos duríssimos contra o Real – um empate e uma derrota por 4 a 3. E vale lembrar que Valencia e Málaga chegaram aos mata-matas na Champions 2012/13, deixando a Espanha como o país mais representado nas fases finais.

Lições do passado

Vencer em casa é importante, mas surpreender fora pode fazer a diferença. Foi assim que a Real Sociedad passou de fase em sua última participação, em 2003/04. Bateu o Galatasaray em Istambul e, no reencontro, com os dois brigando pela segunda vaga na chave, os espanhóis jogaram com o regulamento debaixo do braço para segurar o empate em Donostia e garantir a festa da torcida.

Ponto forte

O tridente ofensivo. O excelente desempenho da Real no último Campeonato Espanhol foi impulsionado pela produtividade de seu ataque. Os bascos anotaram 70 gols na campanha, menos apenas que Barcelona e Real Madrid. Carlos Vela e Antoine Griezmann dão velocidade pelas pontas, enquanto Haris Seferovic causou impacto imediato em sua chegada, se adaptando ao sistema. Os contra-ataques dos txuri-urdin costumam ser mortais, o que pode fazer a diferença em um campeonato no qual devem defender mais do que atacar.

Ponto fraco

A falta de profundidade do elenco. A única perda notável da Real Sociedad foi Asier Illarramendi, reposto com a chegada de Esteban Granero. Além disso, Seferovic foi trazido ao ataque. Ainda assim, o elenco dos bascos não contam com tantas opções, o que pode trazer dificuldades. Aproveitando vários jogadores da base, o time manteve o ritmo em La Liga, mas resta saber se aguentará a maratona com os jogos e as viagens da Champions.

Curiosidade

Assim como o Athletic Bilbao, a Real Sociedad tinha a política de aceitar apenas jogadores bascos em seu elenco. Uma história que começou a mudar a partir de 1988/89, quando o clube perdeu diversos jogadores importantes e avaliou que a reposição local não estava à altura. A partir de então, os txuri-urdin passaram a abrir suas portas apenas a estrangeiros, com a contratação de John Aldridge. Já em 2001, a Real também passou a permitir espanhóis que não fossem bascos, inaugurando a nova era com a vinda do asturiano Sergio Boris.

Elenco (clique para ver)

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo