Europa

Como grama sintética levou a oito positivos em exame antidoping e ligou alerta na Europa

WADA decide por não condenação em meio à evidências de que contaminações ocorreram por material presente no campo

A Agência Mundial de Antidoping (WADA, na sigla em inglês) esbarrou em um caso de oito jogadoras de futebol que tiveram traços de substância ilegal flagrados em exame antidoping no Toppserien, o Campeonato Norueguês feminino. O elemento estaria presente na grama sintética.

As investigações duraram meses, conforme destacou o jornal “The Guardian”. O jogo em questão, LSK Kvinner x Valerenga, ocorreu em 22 de abril de 2025 no LSK–Hallen, em Lillestrom, perto da capital Oslo.

Após o embate que terminou em 2 a 0 para as visitantes, o exame antidoping de rotina detectou dimetilbutilamina (DMBA) — substância com propriedades emagrecedoras e de ganho de massa muscular — em quatro jogadoras de cada equipe. Apenas uma das amostras configuraria violação conforme o estabelecido pela WADA, segundo comunicado do LSK Kvinner.

O caso gerou perplexidade em ambos os times e em órgãos reguladores. A Agência Norueguesa Antidoping (Adno) investigou os detalhes em busca de um fator em comum que pudesse explicar a situação, e até alimentos e bebidas consumidos pelas atletas passaram por vistoria.

Como parte do processo, também analisou a água e demais substâncias do ginásio e assim chegou à conclusão de que a borracha granulada da grama sintética continha DMBA e teria contaminado as jogadoras durante a partida.

A Adno considerou que as atletas não tiveram culpa, e a WADA decidiu não contestar o veredito. Dessa forma, a profissional que estaria passível de punição foi absolvida.

Doping causado por grama sintética pode provocar mudanças no futebol mundial

A situação também deixou alerta no futebol europeu por ser a primeira vez na elite do esporte em que algo do ambiente influencia o resultado de exame antidoping.

De acordo com o “Guardian”, houve estudos que comprovavam que o DMBA poderia surgir em borrachas granuladas como resultado do processo à que são submetidas na grama artificial.

Esses grânulos, normalmente feitos com pneus reciclados, servem como enchimento e contribuem para proteção e durabilidade da superfície que, de modo geral, sempre foi considerada segura.

A preocupação estava em torno do impacto que poderia ter em poluições ao meio ambiente. Desse modo, o tipo de enchimento vai ser proibido em países da União Europeia a partir de 2031.

No entanto, o ocorrido já causa mudanças no Toppserien. O LSK–Hallen é uma arena fechada — algo comum na Noruega –, e a Federação Norueguesa de Futebol recomendou que as partidas profissionais passassem a ser disputadas em campo aberto.

Além disso, o local foi fechado pelo LSK Kvinner até segunda ordem. O clube informou que o granulado de borracha havia sido reformado em janeiro deste ano.

LSK–Hallen é uma arena fechada
LSK–Hallen é uma arena fechada (Foto: Divulgação LSK Kvinner)

O Valerenga endossa coro por medidas mais assertivas, principalmente para evitar danos aos atletas. “Fatores ambientais precisam estar no radar daqui para frente. É sobre ter uma visão holística de que, no ambiente, você corre risco de ser pego em teste antidoping”, afirmou Harriet Rudd, CEO do clube, ao jornal.

A jogadora que teve o maior nível da substância acusada no exame falou anonimamente com a publicação e definiu o momento como “terrível”. Ela destacou estar aliviada com o desfecho e com a Adno por conseguir encontrar o problema.

— Ainda assim, o processo e o resultado parecem arbitrários. Se a Adno não tivesse identificado o granulado da borracha como a fonte, minha situação teria ficado muito difícil. Quando se é extremamente cuidadosa, segue as regras e ainda assim acaba envolvido em caso como esse, mostra quão vulnerável você é como atleta — disse.

A escolha da WADA por acatar a decisão da agência norueguesa reforçou como o caso é diferente aos olhos dos reguladores.

A instituição máxima do antidoping mundial trabalha com base na “responsabilidade objetiva”, isto é, não considera necessário que haja “intenção, culpa, negligência ou uso consciente por parte do atleta para configurar uma violação”.

Harriet Rudd chamou a atenção para o fato de que as contaminações flagradas “em massa” também podem ter contribuído para que a investigação fosse mais minuciosa.

Segundo o jornal espanhol “As”, o caso pode estimular a Fifa a revisar protocolos acerca do uso de grama sintética no futebol mundial.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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