Europa

F. Melo não é inocente, mas confusão no dérbi não é só culpa dele

O dérbi entre Besiktas e Galatasaray deste domingo ficará para a história. Seria por um bom motivo, com a quebra de recorde de público em um jogo das Kara Kartallar como mandante, diante das 76 mil pessoas que assistiram ao jogo em Istambul. No entanto, o clássico também ficará marcado pela confusão que eclodiu nos minutos finais. Centenas de torcedores invadiram o campo para agredir os jogadores do Galatasaray e o jogo sequer pôde ser encerrado.

Felipe Melo foi colocado como um dos pivôs do incidente, que d. Afinal, foi logo após a expulsão do brasileiro que as arquibancadas entraram em erupção. O meio-campista cometeu uma falta violenta no lateral Ramon e recebeu o cartão vermelho. Na saída do gramado, exibiu a camisa do Galatasaray à torcida, o que foi colocado como uma provocação.

Nesta segunda, Felipe Melo se defendeu das acusações. “Essa foto publicada hoje na Europa é para os idiotas que querem colocar a invasão na minha conta. Sem falar que a torcida invadiu o campo nas últimas três vezes que jogamos lá e agora a culpa é minha”, afirmou o volante em seu twitter, se referindo ao cordão de isolamento que a polícia fazia nas arquibancadas. E, embora a entrada violenta que protagonizou seja passível de suspensão, o brasileiro tem razão em suas colocações.

Nem tanto ao inferno

A rivalidade entre Besiktas e Fenerbahçe não é tão forte quanto à do Cim Bom com o Fenerbahçe. Ainda assim, os ânimos entre as duas torcidas se mantiveram bastante acirrados nos últimos jogos. A conta de Felipe Melo não é exata, mas as invasões de campo têm sido mesmo recorrentes nos últimos duelos entre os dois clubes.

O caso mais notável aconteceu no penúltimo clássico que teve o Besiktas como mandante. Dois torcedores dos alvinegros invadiram o gramado para agredir Emmanuel Eboué, mas foram contidos. No jogo anterior, o lateral já tinha sido atingido por uma garrafa atirada por torcedores das Kara Kartallar. Além disso, o histórico de confusão entre os dois clubes inclui até mesmo um jogo de basquete entre cadeirantes.

Em entrevista ao canal oficial do Galatasaray, Felipe Melo também afirmou que o ambiente hostil nas arquibancadas podia ser notado desde os 15 minutos do segundo tempo. De fato, a tensão era evidente. Os torcedores visitantes não são permitidos nos clássicos do Campeonato Turco. E o contingente policial já se preparava para uma possível invasão de campo, como a própria foto divulgada pelo volante ajuda a mostrar.

Na imprensa turca, as maiores críticas se concentraram sobre a forma como a segurança foi feita no estádio. O contingente policial não era suficiente, na avaliação geral. O resultado disso foi claro no Estádio Olímpico Atatürk, com centenas de torcedores invadindo o campo e uma minoria de policiais tentando proteger os jogadores e os membros da comissão técnica.

Nem tanto ao céu

Os fatos ao redor do campo, porém, não eximem Felipe Melo de sua atitude. A falta cometida pelo volante não teve suas consequências medidas, mesmo com ele percebendo os problemas que ocorriam nas arquibancadas. Seu histórico contra o Besiktas também não ajuda. No último dérbi, o brasileiro foi acusado de ter cuspido em Oguzhan Özyakup, recebendo o cartão vermelho.

Sobre a atitude de exibir a camisa do Galatasaray na saída de campo, Felipe Melo se defendeu dizendo que, em momento algum, quis faltar com o respeito aos torcedores do Besiktas. Segundo ele, o gesto era para exaltar o clube diante dos seguidores de sua equipe. Se essa foi sua intenção mesmo, outra vez, faltou pensar nos desdobramentos. Ainda mais quando as arquibancadas eram ocupadas apenas pelos alvinegros.

E a afirmação de que a invasão de campo só começou depois da expulsão de Felipe Melo não é exclusiva da imprensa brasileira. A maior parte dos veículos de imprensa turcos consultados coloca a falta como o estopim para a confusão – como o Hurriyet Daily News, o Today’s Zaman e o Turkish Football.

Diante das evidências, não dá para dizer que a violência da torcida só existiu por culpa de Felipe Melo. Assim como não dá para colocá-lo como isento em toda essa história. O histórico pesava contra e, por maldade ou não, as atitudes do volante acabaram servindo de pretexto aos fãs do Besiktas. Cabe aos dirigentes turcos tomar as medidas cabíveis para punir o Besiktas e os responsáveis pelo vandalismo, bem como reforçar a segurança. E também avaliar qual o peso da responsabilidade do brasileiro nessa história toda.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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