Fechados para balanço

A crise econômica que assola a Grécia há algum tempo não é segredo para ninguém. Seus efeitos sobre o futebol eram mais do que esperados, dada a estrutura dos clubes do país, em sua maioria bancados por magnatas. E os sinais dos problemas financeiros, que já eram fortes desde o início de 2010, se intensificaram ainda mais nesta temporada. Os números mostram isso. A ausência de grandes nomes na Super League também.
Considerando-se os valores estimados de seus atletas, a Liga Grega é a décima competição nacional mais forte da Europa, ultrapassando os 500 milhões de euros.
Nesta linha, cada um de seus clubes vale cerca de 32 milhões. Em relação às movimentações durante a janela de transferências, no entanto, o país dá claros sinais de retração. Os gregos ocupam a 14ª posição no continente quando o assunto é a quantidade de dinheiro empregado na contratação de jogadores. Nas três temporadas anteriores, ficavam em 11º.
O dinheiro envolvido (e perdido) no período quantifica melhor a queda do mercado grego. Em duas temporadas, entre 06/07 e 08/09, o aumento de gastos com transferências foi significativo. Passou de 14,15 milhões de euros para 55,3 milhões, um crescimento de quase 300%. Nos dois últimos anos, porém, com o estouro da crise no país, a redução deste valor foi tão grande quanto. Até o momento, foram utilizados 19,7 milhões na compra de atletas ao longo da atual temporada. Um investimento quase três vezes menor.
Os próprios clubes da Super League têm priorizado os jogadores de transferência livre. Na atual janela de inverno, 43 dos 63 novatos não custaram dinheiro algum. Destes, 22 vieram por brechas contratuais, enquanto outros 14 retornam de empréstimo, uma solução encontrada na hora de “reforçar” o elenco. A negociação recorde do último mês é Ngwat-Mahop, que não custou mais do que 300 mil euros.
Mesmo com as contratações da pré-temporada levadas em conta, os números permanecem modestos. Ao todo, somente quatro jogadores custaram mais do que 1 milhão de euros. A passar a barreira dos 2 milhões, apenas Albert Riera, que valeu 6 milhões e concentrou em si quase um terço dos gastos de toda a liga. Em 09/10, sete jogadores foram comprados por mais de 1 milhão de euros, enquanto em 08/09 esse número dobra para 14.
Nos casos específicos de cada equipe, o Panathinaikos é o mais contido. Depois de 36 milhões empregados em dois anos, desde a chegada do magnata Nikos Pateras ao comando do clube, desta vez o PAO não tirou do bolso mais do que 2 milhões. Os três reforços recentes são na verdade jogadores do clube que retornam de empréstimo. Pateras, empresário do ramo de navegação, deve ter sentido o baque. O AEK, por sua vez, cuja crise é um pouco mais antiga, desembolsou 300 mil euros em seu jogador mais caro.
E se a coisa está feia para os atenienses, o mesmo pode-se dizer para os rivais de Tessalônica. As maiores apostas do PAOK para o returno são os próprios jogadores da base, que devem ganhar mais espaço. Pelo lado do Aris, os únicos investimentos foram em empréstimos. Nery Castillo é um deles. Em 2007, vendido pelo Olympiacos por 15 milhões, o mexicano foi a maior venda da história do futebol grego. Sem se firmar no Shakhtar Donetsk, volta para reencontrar a boa forma no país.
Os pequenos também preferem se arriscar pouco economicamente. Ao contrário de outros anos, poucos são os medalhões que chegam. As exceções ficam por conta de Vaclav Sverkos (Panionios), Marius Niculae (Kavala) e Joel Epalle (Iraklis). Já o Panserraikos trouxe por empréstimo o sul-africano Bernard Parker, reserva na Copa do Mundo de 2010.
Por fim, o único clube que parece superior à crise é o Olympiacos. Apesar dos riscos, o endinheirado Sokratis Kokkalis ainda fez algumas aplicações para que os Erythrolefki voltassem a conquistar títulos nesta temporada. Quase 70% dos gastos totais da liga com transferências são do Olympiacos – um total de 13,5 milhões de euros. De qualquer forma, depois de trazer nomes de repercussão durante a pré-temporada, como Riera, Rommedahl, Pantelic e Fuster, o time está mais contido neste inverno europeu.
Com o título da Super League bastante encaminhado, o Olympiacos confirmou apenas dois novos jogadores durante este mês. Giannis Maniatis, de bom primeiro turno pelo Panionios, é reforço para a lateral direita. Já Rafik Djebbour é quem realmente causou polêmica. Um dos principais jogadores do AEK e encerrando ótimo ano em 2010, o atacante argelino chega de graça para vestir a camisa 10 em Pireu. Djebbour saiu em litígio dos Dikéfalos, após brigar com o técnico Manolo Jiménez. Por acordo mútuo, o contrato foi rescindido e o atleta estava livre para negociar. Mas apesar da expectativa de que assinasse com um clube de outro país, ele preferiu permanecer na Grécia e passar para o lado inimigo.
Assim, somando o melhor elenco da Super League e boas jogadas no mercado, o Olympiacos coloca a mão na taça do torneio nacional. Um oásis em meio ao caos financeiro que afeta os clubes do país, não faz mais que o esperado pelo dinheiro que tem. E a perspectiva de classificação para a próxima Liga dos Campeões enche mais os cofres do clube e aumenta a vantagem nas competições domésticas. Aos rivais, além de superarem os próprios limites, resta esperar por tempos de calmaria. Enquanto a crise econômica persistir, a tendência é que o nível do campeonato nacional caia ainda mais.



