Eurocopa

Uma personificação da Fúria nos anos 1990: A história de Luis Enrique como jogador da seleção espanhola

Luis Enrique disputou três Copas do Mundo como protagonista da Espanha e ainda botou o ouro olímpico no peito

A chegada de Luis Enrique ao comando da seleção da Espanha corresponde às conquistas que teve como treinador. O comandante faturou a Champions League à frente do Barcelona e teria lastro para assumir a Roja depois de anos bastante difíceis, entre o final apático de Vicente del Bosque e a saída conturbada de Julen Lopetegui às vésperas da Copa do Mundo de 2018. Ainda é difícil apontar uma identidade espanhola nesta nova fase dentro de campo, mas não se negam as marcas de Luis Enrique nos bastidores. O veterano de temperamento forte barrou medalhões, montou uma equipe sem titulares absolutos e, mesmo sob desconfiança, cumpre uma boa campanha nesta Eurocopa. Amplia um pouco mais as marcas que deixou em campo com a camisa da Fúria, nos tempos em que era um bom meia.

Nascido em Gijón, Luis Enrique aprimorou sua qualidade técnica no futebol de salão e até demorou a estourar nos gramados. Jogou em equipes pequenas das Astúrias, até ser levado para o Sporting de Gijón quando tinha 18 anos. Foi por lá que começou a ganhar reconhecimento por sua postura incansável e pela dinâmica de seu jogo. Faria uma grande temporada em 1990/91, jogando como atacante, quando ganhou a posição de titular e liderou seu time à quinta colocação de La Liga, com 14 gols. Foi nesta época em que acertou sua transferência ao Real Madrid.

Luis Enrique desembarcou no Bernabéu em 1991/92, quando o Real Madrid buscava uma reformulação diante do sucesso do Barcelona de Johan Cruyff. O novato ainda levou tempo para ganhar seu espaço, sem justificar todas as expectativas. Assim, se transformaria numa peça versátil, usada muitas vezes em funções defensivas. Seu melhor momento ocorreria em 1994/95, quando teve sua maior sequência como titular e virou uma peça importante no meio-campo. Ao lado de Fernando Redondo e Michael Laudrup, organizava a equipe que conquistou La Liga e encerrou a hegemonia do Barça. Porém, sem corresponder na campanha seguinte, não teve seu contrato renovado. Acabaria aceitando uma proposta dos próprios blaugranas em 1996.

Se não era mais bem-vindo no Real Madrid, Luis Enrique recuperou seu melhor futebol no Barcelona. O meia voltou a se aproximar do ataque e recobrou a veia artilheira do início de carreira. Com mais liberdade, aproveitava a qualidade na definição com as duas pernas e aparecia mais vezes na área. Não à toa, viraria um dos artilheiros do Barça, em tempos prolíficos com Ronaldo, Luis Figo, Rivaldo, Patrick Kluivert e outros craques. Por lá, também seria campeão. Faturou uma Recopa Europeia e seria um dos melhores do time na dobradinha nacional de 1997/98. Depois, ainda brilharia no bicampeonato de La Liga em 1998/99.

A perda de forças do Barcelona na virada do século, no entanto, atrapalharia o já veterano Luis Enrique. O meia continuava como uma das lideranças da equipe e mantinha seu nível de desempenho, mas o time deixava de ser competitivo. Com o tempo, o atleta também passaria a conviver com as lesões. Ainda assim, teve tempo para virar capitão da equipe e seguir em alta até a temporada de 2003/04, a primeira sob as ordens de Frank Rijkaard. Era um medalhão na equipe que buscava novos rumos, sob o brilho de Ronaldinho Gaúcho. Sua despedida do futebol aconteceu naquele momento, aos 34 anos, pouco antes do Barça viver seu renascimento com o bicampeonato espanhol e a conquista da Champions em 2005/06.

Se a carreira de Luis Enrique por clubes foi respeitável, especialmente por seu auge com o Barcelona no fim dos anos 1990, sua fama se tornou maior graças ao papel com a seleção da Espanha. E a progressão com a equipe nacional seguiria um caminho inverso. Os melhores momentos do meia aconteceram exatamente em seus primeiros anos pela Roja, quando ainda tentava firmar seus passos com o Real Madrid. Já depois de virar uma estrela no Camp Nou, não conseguiu reproduzir a mesma forma pela equipe nacional, em meio às decepções vividas pelo time na virada do século.

A estreia de Luis Enrique pela seleção aconteceu em 1991, quando tinha 20 anos. O sucesso do então atacante com o Sporting de Gijón rendeu uma chance com Luis Suárez Miramontes, antigo ídolo do Barcelona que dirigia a Espanha na época. O garoto disputou os minutos finais de uma derrota para a Romênia em amistoso. Ainda demoraria dois anos para que o novato se firmasse na equipe principal. Em compensação, marcou seu nome de outra maneira nos Jogos Olímpicos.

Luis Enrique integrou a seleção espanhola sub-23 durante toda a sua preparação às Olimpíadas de 1992. Como dona da casa, a equipe estava previamente classificada para o torneio e tinha enorme responsabilidade em Barcelona. A esquadra dirigida por Vicente Miera reunia boa dose de qualidade, trazendo talentos como Pep Guardiola, Alfonso, Kiko e Abelardo. Luis Enrique vestia a camisa 8 da Fúria e seria titular durante toda a campanha. Anotou o gol que fechou a goleada sobre a Colômbia na estreia e permaneceria intocável, sem sequer ser substituído à medida que a Espanha avançava. Depois de despachar Itália e Gana nos mata-matas, a medalha de ouro veio na decisão diante da Polônia.

A façanha olímpica enfatizava o potencial de Luis Enrique para vingar no Real Madrid. E, à medida que seu espaço no clube se tornou maior, ele virou frequente nas partidas da seleção espanhola principal. Por seu estilo combativo e muito empenhado, o novato acabou caindo nas graças do técnico Javier Clemente, que prezava por muita pegada entre seus jogadores. O asturiano virou titular na reta final das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994 e seguiu com espaço nos amistosos preparatórios. Desta maneira, chegou bem cotado para o Mundial dos Estados Unidos, o primeiro de sua carreira, aos 24 anos.

Luis Enrique seria usado inicialmente como meia, mas não brilhou tanto nos empates contra Coreia do Sul e Alemanha. Reserva na vitória sobre a Bolívia, o asturiano acabou usado como atacante diante da Suíça nas oitavas de final. E cumpriu muito bem a função. Com muita movimentação, ajudou a abrir espaços para os companheiros e anotou um gol naquela vitória. Seria mantido no setor para o duro embate contra a Itália nas quartas de final. E aquele jogo marcaria a carreira do camisa 21 na equipe nacional. Aos três minutos do segundo tempo, tomou uma desleal cotovelada do lateral Mauro Tassotti no rosto. Não foi anotado o pênalti e sequer o italiano recebeu o cartão. Mesmo com o nariz fraturado, Luis Enrique permaneceu bravamente em campo, mas não evitou a derrota por 2 a 1, que selou a eliminação da Fúria. Seria o símbolo do sentimento de injustiça.

Independentemente da cotovelada, Luis Enrique deixou a Copa do Mundo com o moral elevado. O jovem correspondeu bem mais que outros jogadores badalados da Espanha e, ao lado de José Luis Caminero, foi o melhor jogador de sua equipe no Mundial. Não à toa, seguiu como titular no ciclo rumo à Euro 1996, voltando ao meio-campo. Foi titular em quase todas as partidas das eliminatórias e deu sua contribuição à classificação dos espanhóis. Também encarou Bulgária e França no início da fase de grupos da Eurocopa. Entretanto, perdeu a posição com a mudança do esquema tático após a vitória contra a Romênia e também não enfrentaria a Inglaterra nas quartas de final, com a eliminação da Fúria nos pênaltis.

Foi depois da Euro 1996 que Luis Enrique trocou o Real Madrid pelo Barcelona. E o sucesso no clube, atuando de maneira mais ofensiva, também se refletiu na seleção. O meia seria um dos artilheiros na campanha das Eliminatórias para a Copa de 1998. Anotou quatro gols e permitiu que a Fúria desembarcasse no Mundial da França como uma das virtuais candidatas ao título. A decepção ao redor dos espanhóis, em compensação, seria tremenda. No chamado “grupo da morte”, o time enterrou suas chances com a derrota para a Nigéria e o empate com o Paraguai. Luis Enrique foi titular nas três partidas e só apareceu mesmo na goleada por 6 a 1 sobre a Bulgária, com um gol e duas assistências. Seu esforço seria inútil para evitar a decepção.

Luis Enrique não perdeu seu prestígio nem com a saída do técnico Javier Clemente para a chegada de José Antonio Camacho. Foi titular na qualificação para a Euro 2000 e inclusive passou a usar a braçadeira de capitão. Às vésperas de completar 30 anos, porém, não conseguiria disputar a competição continental. Contundido, veria de longe os companheiros sucumbirem nas quarta de final, desta vez eliminados pela campeã França. Mas a trajetória de Luis Enrique na Roja não parou ali.

Ainda deu tempo de Luis Enrique frequentar as convocações no ciclo rumo à Copa de 2002. Por conta dos problemas físicos, disputou apenas parte das Eliminatórias. De qualquer maneira, estava presente no 11 inicial que estreou no Mundial contra a Eslovênia, dando inclusive a assistência para Raúl abrir a vitória. Encarou também o Paraguai na ponta direita, antes de ganhar um descanso com o time já classificado diante da África do Sul. Jogaria os tensos 120 minutos contra a Irlanda nas oitavas, num jogo só vencido pela Fúria nos pênaltis. Só perderia seu posto na amarga eliminação para a Coreia do Sul nas quartas, com erros crassos da arbitragem. Saiu do banco no fim do tempo normal e jogou durante toda a prorrogação, mas sem evitar a queda nos penais.

Aquele jogo encerrou a história de Luis Enrique pela seleção da Espanha. O meia disputou 61 partidas e anotou 12 gols. Disputou três Copas do Mundo e uma Eurocopa, sempre como uma das referências ofensivas da equipe. E teve o gosto de botar uma medalha de ouro olímpica no peito. O veterano acaba como uma das figuras de uma Fúria que tantas vezes quebrou expectativas nos torneios internacionais. Porém, também merece ser reconhecido como alguém que deixou marcas mais profundas, em especial pelo bom desempenho que teve individualmente na Copa de 1994.

A passagem de Luis Enrique à frente da seleção traz a imagem daquele jogador explosivo e de gênio forte. Também carrega a experiência de quem transitou por Barcelona e Real Madrid, sem ter problemas para barrar destaques de ambos os clubes – sobretudo os merengues. E reforça uma ligação tão forte com a equipe nacional. Se a Roja precisava de novas ideias depois de anos decepcionantes, Luis Enrique parece carregar consigo uma energia imensa para empurrar os novos momentos dos espanhóis. Que seu trabalho ainda receba questionamentos, não se nega que a fúria do ex-meia também transparece à beira de campo para liderar este processo importante à equipe nacional.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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