Eurocopa

Um jogaço que ficou para a história da Eurocopa: República Tcheca 3×2 Holanda, de virada, na fase de grupos em 2004

A Holanda chegou a abrir dois gols de vantagem em Aveiro, mas o timaço da República Tcheca saiu com uma vitória memorável

Países Baixos x Tchéquia (ou Holanda x República Tcheca, se você preferir) farão um duelo nas oitavas de final da Euro 2020 com muita história para contar. As duas seleções, afinal, são adversárias costumeiras na competição europeia. Essa será a quinta oportunidade em que os dois times se pegam numa fase final de Eurocopa. Somando confrontos por eliminatórias, ainda há mais quatro jogos. E, dentre as boas histórias circundando as duas equipes, aconteceu um jogaço na Euro 2004 que ficou marcado pela qualidade do futebol apresentado e pela sede ofensiva. Enquanto holandeses reuniam uma porção de grandes jogadores, os tchecos também contavam com uma das melhores gerações de sua história. Valia apenas pela fase de grupos e os dois oponentes avançaram, mas aquele triunfo por 3 a 2 da Tchéquia marca um dos pontos altos de um timaço que até merecia melhor sorte naquela Eurocopa, quando caiu diante da surpreendente Grécia nas semifinais.

Os antecedentes

Na primeira vez que as duas seleções se enfrentaram, em 1932, a Tchecoslováquia era um país que havia se tornado independente recentemente. A vanguarda do futebol europeu se concentrava na Europa Central e a vitória por 2 a 1 em Amsterdã não surpreendia muito. Slavia e Sparta dominavam o esquadrão tchecoslovaco, que contava com a base vice-campeã do mundo dois anos depois, estrelada pelo goleiro Frantisek Plánicka e pelo atacante Oldrich Nejedly. Curiosamente, as duas equipes se pegariam também na Copa de 1938. Logo na primeira fase do Mundial da França, a Tchecoslováquia cumpriria o favoritismo contra os holandeses e ganharia por 3 a 0 em Le Havre, embora tenha dependido da prorrogação para construir o resultado.

Após a Segunda Guerra Mundial, as duas seleções costumavam se pegar em amistosos. A hegemonia da Tchecoslováquia no duelo se renovou no início da década de 1960, com uma vitória por 4 a 0 em Praga em 1962 e outra por 2 a 0 em Amsterdã em 1966. Não se esperava nada diferente da equipe outra vez vice-campeã mundial no Chile, liderada por Josef Masopust. Porém, do outro lado, a Holanda via florescer a geração de Johan Cruyff. Esse segundo duelo com os tchecoslovacos marcou também a segunda aparição do craque pela Oranje. Curiosamente, ele terminou expulso. Mas o fortalecimento dos holandeses ficaria expresso nas primeiras vitórias da equipe no confronto, em 1969 e 1972, quando também começavam a despontar nomes como Rob Rensenbrink, Johan Neeskens, Arie Haan e Ruud Krol.

Se a inovação do futebol na Europa estava às margens do Danúbio na década de 1930, ela passou a Amsterdã nos anos 1970. E seria nessas condições que ocorreu o primeiro duelo em Eurocopas, na edição de 1976, organizada na Iugoslávia. Não era um embate qualquer, afinal, com os dois times se cruzando na semifinal. E o favoritismo recaía ao lado laranja, por mais que Rinus Michels tenha passado o bastão para George Knobel. Ainda assim, a Laranja Mecânica vice-campeã mundial de 1974 estava intacta. Nomes como Cruyff, Rensenbrink, Rep, Neeskens e Krol se viam bem mais experientes. Do outro lado, a Tchecoslováquia não recebia a mesma badalação, mas tinha talentos respeitáveis como Ivo Viktor, Anton Ondrus, Karol Dobias e o decisivo Antonín Panenka. Seriam eles que avançariam à final.

Dentro do Estádio Maksimir, a Tchecoslováquia impediu um tira-teima entre Holanda e Alemanha Ocidental na decisão, ao vencer a semifinal por 3 a 1. Ondrus abriu o placar aos 17 minutos e até recolocou a Oranje no jogo com um gol contra no segundo tempo. Jaroslav Pollák e Neeskens ainda foram expulsos em lances distintos. Na prorrogação os tchecoslovacos terminaram de fazer o serviço. Zdenek Nehoda e Frantisek Vesely anotaram os tentos, este terceiro quando os holandeses tinham um homem a menos, depois que Wim van Hanegem também acabou expulso. O pênalti de Panenka ficaria como surpresa à final, selando a maior conquista da história do país.

Inclusive, haveria um repeteco na fase de grupos da Euro 1980, a primeira edição do torneio neste formato. Holandeses e tchecoslovacos estavam no mesmo grupo de Alemanha Ocidental e Grécia, mas já não tinham como alcançar os germânicos na primeira colocação – apenas o líder seguia em frente, rumo à final. Ficou o empate por 1 a 1, em que Nehoda e Kees Kist marcaram os gols. Se os tchecoslovacos já não contavam com Viktor e alguns destaques de 1976, os holandeses estavam ainda mais depenados sem Cruyff, Neeskens e boa parte das referências dos anos 1970.

Num período de 14 anos, o único novo embate entre Tchecoslováquia e Holanda ocorreu num amistoso em 1986. Masopust era o treinador tchecoslovaco e Rinus Michels voltara para dirigir o grupo holandês que levaria a Euro 1988 – com Ronald Koeman, Ruud Gullit, Frank Rijkaard e Marco van Basten. Curiosamente, os tchecoslovacos ganharam por 1 a 0 em Praga, gol de Ivo Knoflícek. As equipes só voltaram a se pegar para valer em 1994, quando foram sorteadas no mesmo grupo das eliminatórias para a Euro 1996. E já não era mais a Tchecoslováquia, na primeira tentativa da República Tcheca em participar de uma competição internacional após a divisão do país. A chave ainda tinha a Noruega como forte candidata, além de reunir Belarus, Malta e Luxemburgo.

A primeira partida aconteceu no Estádio de Kuip. Dirigida por Dick Advocaat, a Holanda vinha desfalcada de vários jogadores importantes no período, como Dennis Bergkamp e Marc Overmars. Danny Blind, Frank de Boer e Aron Winter eram as referências, num encontro que valeu a estreia de Patrick Kluivert, aos 18 anos, com a camisa laranja. Do outro lado, Dusan Uhrin dirigia uma República Tcheca que também via a eclosão de novos talentos. Karel Poborsky e Patrik Berger não tinham nem dez partidas pela seleção, juntando-se aos mais experientes Miroslav Kadlec e Michal Bílek. Só faltaram os gols, com o empate por 0 a 0 permitindo que a Noruega ficasse isolada na liderança. Kluivert, aliás, não se cansou de perder chances.

O reencontro em Praga ocorreu em 1995. Guus Hiddink havia assumido a Holanda e contava com a ascensão de um fortíssimo Ajax. Tanto é que seis titulares daquele timaço foram titulares – incluindo Clarence Seedorf, Ronald de Boer e Overmars que não jogaram o primeiro duelo. Do outro lado, a Tchecoslováquia contou com o veterano Tomás Skuhravy no comando de seu ataque. E venceu no Estádio Letensky por 3 a 1, numa excelente virada construída durante o segundo tempo. Wim Jonk até colocou a Oranje em vantagem, num golaço de fora da área. Skuhravy comandou a reviravolta na segunda etapa, que também teve tentos de Václav Nemecek e Patrik Berger. No fim das contas, as duas seleções se classificaram à Euro 1996, mas quem fez história foram mesmo os tchecos, vice-campeões na decisão contra a Alemanha.

E depois de um empate por 1 a 1 em amistoso em 1999, outra vez Holanda e República Tcheca se encararam numa fase de grupos da Eurocopa. A dura chave em 2000 ainda reunia Dinamarca e França. E o triunfo da Oranje por 1 a 0 acabou selando a classificação antecipada na segunda rodada, com os tchecos ficando pelo caminho. Frank Rijkaard era o treinador de uma equipe estrelada por Edwin van der Sar, Jaap Stam, Frank de Boer, Marc Overmars, Clarence Seedorf, Edgard Davids, Patrick Kluivert e Dennis Bergkamp. A República Tcheca de Jozef Chovanec vivia a eclosão de nomes como Pavel Nedved, Jan Koller e Tomás Rosicky, unidos a Karel Poborsky e Vladimir Smicer.

Durante o primeiro tempo, a Holanda parecia empurrada pela torcida em Amsterdã e amassou a República Tcheca. Os tchecos faziam uma atuação travada, dependendo do goleiro Pavel Srnícek para evitar o pior. Já na segunda etapa, a partida mudou de figura. Poborsky perdeu um gol feito na pequena área e Van der Sar começou a ser bem mais exigido. Mais do que isso, Nedved e Koller carimbaram a trave em cabeçadas. O gol da vitória da Oranje saiu apenas aos 44 do segundo tempo, depois que Ronald de Boer mergulhou na área e Pierluigi Collina marcou um pênalti bem questionável, por mais que a camisa do holandês fosse puxada. Atual comandante da seleção, Frank de Boer converteu o tiro e confirmou o triunfo. A Holanda seria semifinalista daquela Euro 2000, superada pela Itália.

A caminhada até 2004

As Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002 seriam frustrantes para Holanda e República Tcheca. As duas equipes estavam bem cotadas, mas naufragaram no qualificatório europeu. Os holandeses sequer conseguiriam alcançar a repescagem, com a terceira colocação na chave que reunia Portugal e Irlanda. Já a República Tcheca caiu na segunda chance, depois de ser a vice-líder do grupo ponteado pela Dinamarca. Os tchecos encararam a Bélgica na repescagem e decepcionaram com duas derrotas por 1 a 0, que impediram o primeiro Mundial do país desde a independência. Assim, Holanda e República Tcheca concentrariam suas forças rumo à Euro 2004.

Curiosamente, já as eliminatórias para aquela Eurocopa reuniram as duas seleções. Holanda e República Tcheca figuravam no Grupo 3, com a concorrência de Áustria, Moldávia e Belarus. Apenas o líder avançaria direto ao torneio, enquanto o segundo precisaria encarar a repescagem. O primeiro duelo aconteceu no Estádio de Kuip, com as duas equipes igualadas na ponta do grupo. E o equilíbrio se manteria, com o empate por 1 a 1. Petr Cech fazia uma partidaça, até ser finalmente vencido por Ruud van Nistelrooy antes do intervalo. Já na segunda etapa, Jan Koller tratou de deixar tudo igual do outro lado. Aquele compromisso, curiosamente, seria importante a Frank de Boer: o veterano completava seu 100° jogo com a camisa laranja.

O reencontro em Praga aconteceu pela sétima rodada e, de novo, os dois times apareciam igualados na tabela. Quem vencesse garantiria a vaga direta na Euro, já que levaria a vantagem no confronto direto. O triunfo por 3 a 1 permitiu que a República Tcheca se confirmasse na primeira colocação. Naquele momento, os tchecos emendavam uma sequência de 17 partidas sem derrotas. A expulsão de Edgar Davids logo aos 14 minutos seria determinante. O volante recebeu o segundo amarelo após cometer pênalti e Jan Koller abriu a contagem. Cech segurou a tentativa de reação, até Poborsky ampliar aos 38. Foi uma cavadinha belíssima sobre Van der Sar, que emulava seu gol antológico contra Portugal na semifinal de 1996. Rafael van der Vaart até descontou num chute mascado durante o segundo tempo. Porém, num contra-ataque já nos acréscimos, Milan Baros matou o jogo para os anfitriões.

Na rodada final, os tchecos cumpriam tabela contra a Áustria em Viena e conseguiram uma emocionante virada por 3 a 2, com Koller definindo o placar aos 45 do segundo tempo. A goleada da Holanda por 5 a 0 sobre a Moldávia também não influenciava tanto, com o time destinado à repescagem. O sorteio colocou a Escócia no caminho dos holandeses e, apesar da derrota por 1 a 0 em Glasgow, um massacre por 6 a 0 aconteceria em Amsterdã. Van Nistelrooy anotou três gols, enquanto Wesley Sneijder, André Ooijer e Frank de Boer completaram a contagem para confirmar a presença dos laranjas na Euro 2004.

A República Tcheca aproveitava o excelente momento para ser cabeça de chave naquela Eurocopa. O time ocupava o quarto lugar no Ranking da Fifa e estava no Pote 1. A Holanda vinha num modesto Pote 3 e o reencontro aconteceu no Grupo D, que ainda reunia Alemanha e Letônia. Como em 1980, as três seleções de peso de digladiariam na competição continental.

A seleção tcheca contra a Holanda (Foto: Imago / One Football)

A República Tcheca era treinada na época por Karel Brückner, comandante que fez fama especialmente no Sigma Olomouc em seu país e subiu da seleção sub-21 para a principal em 2001. Além de conhecer alguns jogadores da seleção de base, num grupo que conseguiu ser campeão europeu sub-21 com Miroslav Beránek em 2002, ele ainda contava com diversos remanescentes do vice-campeonato de 1996. Nem todos os jogadores daquele grupo que brilhou na Inglaterra desabrocharam como se esperava por clubes, mas seguia tendo um peso enorme ao sucesso da seleção tcheca.

Dos jovens que ascenderam na República Tcheca, um acréscimo e tanto era Petr Cech. O goleiro tinha apenas 22 anos e estourava no Rennes, pouco antes de sua mudança ao Chelsea. A defesa também era muito bem servida por jogadores atuando em ligas importantes da Europa. Zdenek Grygera (Ajax) e Marek Jankulovski (Udinese) ocupavam as laterais, enquanto a zaga via Tomás Ujfalusi (Hamburgo) e René Bolf (Baník Ostrava) tomando conta do setor. Ainda havia as alternativas de Martin Jiránek e Tomás Hübschman. Não eram os nomes mais badalados na época, mas garantiam segurança.

O talento começava a florescer a partir do meio-campo. Tomás Galásek, outro do Ajax, trancava a cabeça de área. Mais à frente havia uma trinca de virtuosos com Poborsky (Sparta Praga) e Nedved (Juventus) abertos pelos lados, enquanto Rosicky (Borussia Dortmund) atuava como maestro mais centralizado. Smicer e Jaroslav Plasil eram alternativas ao segundo tempo. Já na frente, uma dupla bastante complementar, entre o ápice de Milan Baros (Liverpool) e a presença de área de Jan Koller (Borussia Dortmund). Vale lembrar que muitos desses caras vinham bem em seus clubes, em especial Nedved, que havia abocanhado a Bola de Ouro em 2003.

A seleção holandesa contra a República Tcheca (Foto: Imago / One Football)

A Holanda dirigida por Dick Advocaat tinha muitos recursos no elenco, mas que ainda assim não vinha rendendo resultados tão confiáveis até então. De qualquer maneira, a equipe merecia respeito pelos nomes que reunia. Van der Sar reconstruía sua carreira no Fulham, com Sander Westerveld em alta na Real Sociedad como seu reserva. A zaga tinha Stam bem na Lazio, assim como o capitão Frank de Boer em fim de carreira no Rangers. Michael Reiziger e Giovanni van Bronckhorst eram os laterais titulares, ambos dividindo os vestiários no Barcelona. Wilfred Bouma e John Heitinga eram alternativas mais jovens por ali.

A trinca no meio-campo reunia três grandes nomes daquela geração, todos com enorme rodagem na equipe nacional. Edgar Davids vinha voando no Barcelona, onde jogava com Phillip Cocu, enquanto Clarence Seedorf era referência no Milan. Garotos como Van der Vaart e Sneijder aumentavam o leque de opções naquela faixa central. Já o tridente ofensivo contava com Ruud van Nistelrooy na melhor fase de sua vida com o Manchester United. Até por isso, era compreensível ver Roy Makaay e Patrick Kluivert apenas no banco de reservas. Nas pontas, alguns atletas se revezaram – Marc Overmars, Andy van der Meyde, Boudewijn Zenden. Mas a sensação era mesmo Arjen Robben, que ganharia a posição de titular aos 20 anos, enquanto explodia no PSV. Era até difícil definir 11 titulares, diante de tamanha qualidade à disposição.

O jogaço em Aveiro

A primeira rodada do Grupo D não seria muito empolgante para República Tcheca e Holanda. As duas equipes escaparam do pior nos minutos finais. Os tchecos sofreram para derrotar a surpreendente Letônia por 2 a 1. Maris Verpakovskis abriu o placar para os letões no fim do primeiro tempo e só na etapa complementar aconteceu a virada. Milan Baros empatou aos 28 e Marek Heinz determinou o triunfo aos 40. Já os holandeses só empataram com a Alemanha por 1 a 1, também precisando buscar o prejuízo. Torsten Frings abriu a contagem e, aos 36 do segundo tempo, veio o tento da Oranje com Van Nistelrooy.

O confronto direto de Holanda e República Tcheca no Estádio Municipal de Aveiro já ganhava um peso grande aos rumos da chave. Os tchecos vinham com seus principais astros: Cech, Grygera, Jiránek, Ujfalusi, Jankulovski; Galásek, Poborsky, Rosicky, Nedved; Koller, Baros. Já os holandeses não teriam Frank de Boer naquele compromisso, com Cocu assumindo a braçadeira. A equipe entrou com: Van der Sar, Heitinga, Stam, Bouma, Van Bronckhorst; Cocu, Seedorf, Davids; Van der Meyde, Van Nistelrooy, Robben. Ficava o destaque para os encontros de Grygera e Galásek com os companheiros de Ajax. E, como previsto pelos nomes envolvidos, de fato seria um jogo memorável. O triunfo por 3 a 2 comprovava a badalação sobre a Tchéquia.

Até pareceu que a Holanda seria capaz de dar o troco pela derrota nas eliminatórias. Com apenas 19 minutos de jogo, a Oranje conseguiu abrir dois gols de vantagem. Koller isolaria uma boa chance, antes que a resposta fosse um gol dos holandeses aos quatro. Após cobrança de falta de Robben na intermediária, Bouma mergulhou sozinho para assinalar de peixinho. Ainda havia reclamação dos tchecos sobre o posicionamento de Van Nistelrooy no lance. A pressão laranja se manteve, até que o próprio Van Nistelrooy aumentasse. Robben foi lançado por Davids na esquerda e cruzou na medida para o centroavante apenas escorar.

A reação da República Tcheca começou ainda no primeiro tempo. Aos 24 minutos, os tchecos descontaram. Após um passe errado de Cocu, Baros fez uma jogadaça ao entortar a marcação de Stam e, ainda brigando na área, rolar para Koller. O centroavante só precisou arrematar com a meta aberta à sua frente. E o técnico Karel Brückner nem esperou muito para gastar sua primeira alteração, com a entrada de Smicer no lugar de Grygera dando mais ofensividade à equipe, além de readaptar o esquema tático. Antes que o intervalo chegasse, porém, a Holanda parecia mais próxima do terceiro. Van Nistelrooy reclamou de um pênalti e Cech realizou uma das defesas mais incríveis de sua carreira, ao se esticar todo para desviar com a ponta dos dedos uma pancada de Heitinga do meio da rua. Os laranjas não tinham medo de arriscar de fora da área, com tentativas seguidas de Seedorf, e numa dessas Davids ainda carimbou o pé da trave.

O segundo tempo ganhou ainda mais intensidade. O jogo ficava aberto e, se de um lado Cech salvou uma cabeçada de Van Nistelrooy, do outro Van der Sar operou um milagre em tiro no canto de Smicer. Brückner botou um atacante a mais, com Marek Heinz no lugar de Galásek, enquanto Dick Advocaat preferiu sacar Robben para colocar Paul Bosvelt e assim perdeu velocidade no ataque. Melhores após as mudanças, os tchecos mereceram o empate aos 25. Num cruzamento de Nedved, Koller foi muito inteligente ao ajeitar com o peito. Encontrou Baros livre na entrada da área e o atacante mandou uma chicotada na bola, para anotar um golaço. Koller logo sairia para David Rozehnal recompor o sistema defensivo, com Nedved mais solto. Ainda quase veio o terceiro da Oranje na sequência, mas Cech rebateu o chute de Van der Meyde no mano a mano.

As esperanças da Holanda ruíram aos 30, quando Heitinga recebeu o segundo amarelo por matar um contragolpe puxado por Nedved e acabou expulso. Com isso, Van der Meyde saiu para Reiziger ocupar a lateral direita. Com um a mais, a República Tcheca partiu com tudo pela virada. Van der Sar acumulava grandes defesas. Pegou tiros de Nedved e Rozehnal. Nedved também carimbou o travessão num petardo da intermediária. No entanto, os tchecos mereciam a vitória e ela sairia aos 40. Van der Sar até espalmou um arremate venenoso de Heinz, mas o rebote ficou vivo e Poborsky foi muito frio, ao apenas rolar para Smicer cutucar na pequena área. Antes do apito final, Van der Vaart ainda desperdiçou uma oportunidade enorme ao chegar atrasado. A Tchéquia pôde comemorar o épico.

Karel Brückner estava exultante na saída de campo, ao comentar o resultado: “Tive uma equipe que não se entregou mesmo depois de tomarmos os dois gols. Conseguir essa reviravolta foi maravilhoso de se assistir. É uma noite fantástica para nosso país. Posso dizer que houve um ótimo trabalho. Não estou preocupado com nosso próximo adversário, apenas com minha própria equipe – que, espero, vai ganhar mais força na competição”.

Nedved era outro bastante satisfeito: “O placar de 2 a 0 foi um banho de água fria para nós. Sabíamos que tínhamos que melhorar, e rápido. Os dois times jogaram de maneira agressiva, num estilo ofensivo. Foi um jogo divertido de se disputar e também de se ver. Agora podemos economizar um pouco de nossas forças para o próximo compromisso, mas temos que lembrar que ainda não ganhamos nada”. Já Baros avaliaria: “Nós nos perdemos psicologicamente depois do segundo gol, mas ainda havia muito tempo de jogo. Assim que marcamos o primeiro gol, realmente aproveitamos o momento”.

Aquela vitória classificou a República Tcheca, assim como não custaria tanto à Holanda, graças ao resultado paralelo da rodada. A Alemanha conseguiu a proeza de empatar com a Letônia por 0 a 0, numa das maiores zebras da história da Eurocopa. Os holandeses se classificaram com os 3 a 0 sobre os letões na rodada final. Contaram com a colaboração dos tchecos, que mantiveram os 100% de aproveitamento, superando os alemães por 2 a 1 em mais uma virada. Baros e Heinz marcaram os gols.

A Euro 2004 acabou para República Tcheca e Holanda na mesma fase, as semifinais. A Tchéquia bateu a Dinamarca com autoridade nas quartas, garantindo o triunfo por 3 a 0. O melhor futebol daquela competição, contudo, pararia no pragmatismo da Grécia de Otto Rehhagel. Traianos Dellas marcou o gol de prata fatal nos acréscimos do primeiro tempo da prorrogação. Já a Holanda passou pela Suécia nos pênaltis, após o empate por 0 a 0, antes de cair contra Portugal na semifinal. Cristiano Ronaldo e Maniche balançaram as redes aos lusitanos. Se não foi possível um repeteco entre Tchéquia e Países Baixos na decisão, ao menos aquele confronto ficou marcado como um dos melhores já vistos em fases de grupos de Eurocopa.

As duas seleções fariam mais quatro partidas desde então. O sorteio de novo colocou ambas no mesmo caminho nas Eliminatórias da Copa de 2006. A Holanda levou a melhor nos dois jogos, fazendo 2 a 0 em Amsterdã e em Praga. Com gols de Van der Vaart e Barry Opdam, o triunfo na casa dos adversários selou a classificação direta da Oranje. A Tchéquia precisou disputar a repescagem, mas se garantiu no Mundial ao superar a Noruega.

Por fim, os dois times se pegaram novamente nas eliminatórias para a Euro 2016. E a República Tcheca contribuiu ao amargor dos holandeses, que acabaram fora da fase final com uma derrota para os tchecos na última rodada. O triunfo por 2 a 1 em Praga veio nos acréscimos do segundo tempo. Já em Amsterdã pela rodada decisiva, houve um novo 3 a 2 a favor da Tchéquia, com direito aos visitantes abrindo três gols de vantagem antes da insuficiente reação laranja. A República Tcheca se classificou ao lado de Islândia e ainda Turquia no grupo, enquanto a Holanda, na quarta posição, viveu uma de suas maiores decepções. A oportunidade de uma mínima revanche num histórico tão desfavorável em grandes jogos aos holandeses ocorre neste domingo, em Budapeste.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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