Eurocopa

Tudo começa na defesa: o pilar da Inglaterra e a fonte de experiência da Itália

As finalistas da Eurocopa não são equipes retranqueiras, sabem o que fazer com a bola, mas se destacam por sistemas defensivos de excelência

Não se espante se a final da Eurocopa tiver poucos gols. Itália e Inglaterra não são equipes retranqueiras, que abdicam do jogo e não sabem o que fazer com a bola. Longe disso. Mas, como diz o jargão, para ambas tudo começa na defesa. É o porto-seguro da seleção inglesa e a principal fonte de experiência de uma seleção italiana ainda muito jovem.

Roberto Mancini tem feito um excepcional trabalho principalmente em duas frentes. Afasta-se do estereotipado estilo que os paraquedistas de grandes competições acreditam que a Itália sempre, sempre, sempre coloca em campo. Se alguma coisa, tem sido a equipe mais ofensiva da Eurocopa. Pressiona o adversário, rouba bastante a bola (terceiro na competição no quesito) e chega ao ataque com frequência. Tem o segundo maior número de gols, com 13 (um a menos que a Espanha que marcou dez vezes em dois jogos, e também de finalizações.

E se parte da solidez defensiva tem que ser creditada a todo o trabalho de pressão do meio-campo e do ataque, até às quartas de final, parte da vocação ofensiva também passava bastante pela linha de trás Leonardo Spinazzola se candidatou a craque da Eurocopa porque atuava quase como um ponta esquerda. Quando a Itália tinha a posse de bola, compunha uma linha de ataque que chegava a ter até cinco jogadores ao mesmo tempo. A forte chegada à frente não o impedia de cumprir também funções defensivas. Era onipresente. Estava em todos os lugares ao mesmo tempo.

Mancini começou a competição com dois laterais mais ofensivos. Spinazzola de um lado, Alessandro Florenzi do outro. O ala direito, porém, sofreu uma lesão na panturrilha e saiu no intervalo da primeira rodada contra a Turquia. Não foi mais visto na Eurocopa, embora tenha retornado ao banco de reservas na semifinal. Mas sabe como é: uma porta fecha, uma janela abre. Giovanni di Lorenzo se firmou na posição, sem apoiar tanto o ataque quanto Spinazzola. Quase nunca foi à linha de fundo, mas forneceu um pouco mais de segurança e equilíbrio.

Será interessante também descobrir se Mancini manterá os laterais que começaram jogando a semifinal contra a Itália. Emerson Palmieri, substituto de Spinazzola, saiu no segundo tempo para a entrada de Rafael Tolói, um zagueiro, e Di Lorenzo foi deslocado à esquerda. Com Florenzi em forma novamente, pode virar opção, caso o treinador não esteja muito confiante no lateral esquerdo do Chelsea, ainda o titular mais provável. O que não vai mudar – a sensação é que nunca – é a dupla de defesa.

O segundo grande mérito de Mancini é a maneira como renovou a seleção italiana. Promoveu várias estreias, convocou em baciadas de 30 a 40 jogadores e deu chance a jovens que ainda nem haviam se tornado regulares em seus clubes. Em alguns casos, antes até de estrearem na Serie A – como com Nicolò Zaniolo. Fez questão de peneirar talento para contrariar quem dizia que a Itália havia ficado fora da Copa do Mundo de 2018 porque não tinha material humano. Mas é sempre bom ter um lastro de experiência, e sinceramente, é possível haver um melhor do que Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci? Especialmente pela maneira como estão jogando.

São os mais velhos do elenco, junto com o goleiro reserva Salvatore Sirigu, e os únicos com mais de 100 partidas pela Azzurra. Os líderes que deram o tom da campanha da Itália em um clima de muito alto astral que é visível. Os guardiões da memória institucional que colecionaram todas as cicatrizes da última década e transformaram-nas em uma vontade de vencer que inspira os companheiros. Caso em algum momento entre agora e o final da partida alguém mencionar o peso da camisa da Itália, será porque Chiellini e Bonucci estão no time como um lembrete constante aos mais jovens de todos os altos e baixos pelos quais aquele pano azul já passou. E além disso eles também defendem muito bem.

Ao que tudo indica, domingo será o último jogo de Chiellini pela seleção italiana. A expectativa é que se aposente da seleção após a Eurocopa, após quase 17 anos de serviço – e está realmente aproveitando cada momento como se fosse o último. Tanto ele quanto Bonucci comandam a segunda melhor defesa da Eurocopa e são candidatos a qualquer seleção da competição. Também vale um destaque para Gianluigi Donnarumma. Digamos que não é tão fácil se firmar como goleiro em um time que a qualquer momento pode convocar Gianluigi Buffon. Mas o tempo vence todas, e Donnarumma sempre pintou com o sucessor natural. Tem feito a sua parte com defesas importantes nos jogos mais decisivos até agora, contra Bélgica e Espanha – também herói nos pênaltis.

A Inglaterra também tem um bom goleiro. Eu sei, eu sei, estamos todos surpresos. Pickford não é do nível de Donnarumma, nem teve um ciclo dos mais seguros desde a Copa do Mundo de 2018, mas justificou a confiança de Gareth Southgate e está mostrando que cresce em grandes competições. Um dos principais nomes da campanha na Rússia apareceu sempre que foi exigido, mesmo tendo sofrido críticas pela sua atuação no único gol que a seleção inglesa sofreu na Eurocopa. Mas o grande lance da Inglaterra é que ele nem foi muito exigido.

Melhor destacar isso de novo caso tenha passado batido: a Inglaterra sofreu apenas um gol em toda a Eurocopa, aquela cobrança de falta de Mikkel Damsgaard na semifinal. E não é porque Pickford pegou tudo. Ele tem 11 defesas, mais ou menos ali no meio da tabela – Donnarumma, por exemplo, tem nove; Sommer fez 21 e Manuel Neuer apenas cinco. Todo o sistema defensivo da Inglaterra, que envolve também (e talvez até principalmente) um toque de bola cauteloso e seguro que às vezes irrita, funcionou como um relógio desde o primeiro jogo.

A Inglaterra foi questionada com justiça pelo que apresentou na fase de grupos. Harry Kane não parecia consigo mesmo, Sterling errava muito, as arquibancadas pediam Jack Grealish, os comentaristas, Jadon Sancho, e era de se pensar se não valia a pena abrir mão da dupla de volantes com Kalvin Phillips e Declan Rice. Durante a seca de gols, o que carregou a seleção às oitavas de final foi a sua intransponível defesa. Dois tentos marcados, nenhum sofrido, e bora para o mata-mata. O que transforma a Inglaterra em séria candidata ao título é que conseguiu fazer o ataque fluir mais sem abrir mão da solidez defensiva.

O retorno de Harry Maguire foi essencial para esse feito. Após ótima temporada pelo Manchester United, tem se destacado também nas bolas aéreas ofensivas e é o líder da defesa. Tem John Stones ao seu lado, recém-chegado de talvez sua melhor temporada pelo Manchester City. Quando Gareth Southgate opta por três zagueiros, como nas oitavas de final diante da Alemanha, o lateral direito Kyle Walker fecha pela direita e ele também tem sido uma revelação ao longo desta Eurocopa.

Sempre foi muito elogiado pela capacidade de recuperação, o que denota que nem sempre estava no lugar em que deveria estar, mas, jogador mais velho do elenco (nasceu 20 dias antes de Jordan Henderson), tem se posicionado melhor e foi uma rocha pelo Manchester City. No outro lado, Luke Shaw sacramentou a sua recuperação com uma campanha que o coloca como candidato a melhor lateral esquerdo de uma Eurocopa que teve muitos jogadores da posição se destacando. É importante nos dois lados do gramado, líder de assistências da Inglaterra, com três.

É o quarto time que mais rouba bolas na Eurocopa, mas apenas Walker (37) e Stones (26, em 29º) estão entre os 30 primeiros jogadores nesse quesito, o que indica que quase todo mundo na Inglaterra tem essa missão. Inclusive os dois volantes. É verdade que eles não dão tanta agressividade quanto Henderson ou criatividade como Mason Mount mais recuados. Mas Phillips e Rice (ambos com 25 roubadas de bola cada) fecham muito bem a entrada da área e iniciam as ações ofensivas da Inglaterra com passes precisos, mesmo que nem sempre muito arriscados.

Será muito interessante acompanhar o que acontecerá no domingo quando esses dois excelentes sistemas ficarem frente a frente. Nem sempre um jogo com excelência defensiva tem poucas bolas na rede ou é enfadonho. Queremos ver gols, claro, mas somente se caras como Chiellini, Bonnucci, Donnarumma, Stones, Maguire, Walker e Pickford deixarem.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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