Eurocopa

Suécia 1992: A penetra que virou dona da festa

  1. Fim das eliminatórias para a Euro. No grupo 4 da classificação, a Iugoslávia consegue a vaga. Chance de uma boa campanha para os iugoslavos, que chegaram às quartas-de-final na Copa de 1990, certo? Errado. Com o país sendo dizimado pelos graves conflitos entre sérvios e croatas – com bósnios e albaneses também participando -, a Iugoslávia foi desclassificada da Euro-92 pela Uefa. E a Dinamarca recebeu a vaga de presente, quando muitos jogadores já até planejavam o que fazer nas férias.

Richard Moller-Nielsen, treinador danês, se preparava para remodelar a cozinha de casa quando recebeu a tarefa de preparar os roligans (não confundir com “hooligans: os dinamarqueses são conhecidos como roligans – “alegres”, em dinamarquês – pelo aspecto festivo e pacífico de sua torcida) para o torneio. E precisou fazê-lo sem poder contar com a estrela principal: Michael Laudrup brigara com ele e não estaria na Suécia. Menos mal que ele contaria com Brian Laudrup, já figura destacada no ataque, auxiliado por Henrik Larsen e John “Faxe” Jensen no meio, e tendo no gol a figura já respeitada e reconhecida de Peter Schmeichel.

No grupo A, a Dinamarca teria de enfrentar os donos da casa, no exato momento em que recolhiam os cacos da péssima participação na Copa de 1990 e já deixavam o time pronto para conseguir a terceira colocação dali a dois anos, nos EUA. Já estavam lá Brolin, Dahlin, Kennet Andersson, Klas Ingesson, Ljung, Jonas Thern e, claro, Ravelli.

Pode-se dizer que os escandinavos do grupo estavam melhores do que as duas forças mais conhecidas do grupo A. A França, de volta, ainda possuía resquícios do título de oito anos antes: Amoros e Fernandez estavam no time, treinado justamente pela estrela da conquista, Michel Platini. Mas o momento era de reconstrução para os Bleus: já havia novatos como Petit, Deschamps, Laurent Blanc e Angloma. O único jogador que dava esperança aos Bleus era o atacante Papin.

Do lado inglês, a situação era ainda mais dramática. Graham Taylor não conseguia peças satisfatórias para substituir os remanescentes do time que fizera bom papel na Copa da Itália. Se Stuart Pearce e Gary Lineker – este, disputando as últimas partidas pelos Three Lions – ainda diziam presente, também estavam lá gente que sumiria na poeira, como Daley, Palmer e Sinton. Se David Platt já tinha experiência, gente como Keown, Batty e, principalmente, Alan Shearer só explodiriam no futuro.

Voltemos às eliminatórias da Euro. A União Soviética conseguiu a vaga. Promessa de um time mais ameaçador para tentar melhorar o vice de 1988, certo? Errado, novamente. Ninguém sabia que, ainda em 1991, a URSS se desmilinguiria no anseio de independência das repúblicas que a formavam. Não que ela tenha perdido a vaga: chegou à Euro, mas já sob o nome de CEI (Comunidade dos Estados Independentes). Não seria moleza ter, no mesmo time, jogadores de Rússia, Ucrânia e Geórgia.

Para piorar, a CEI teria, no grupo B, as duas favoritas ao título. Se é que era possível, a Holanda voltava com um time ainda mais forte que o de 1988 para tentar o bi. Ainda estavam lá Van Breukelen, Rijkaard, Koeman, Wouters, Gullit e, mesmo com o tornozelo perturbando-o, Van Basten, provavelmente o melhor do mundo à época. De quebra, o time de Rinus Michels ainda ganhava o reforço de dois jovens promissores: Frank de Boer e, principalmente, Dennis Bergkamp. E a Alemanha, unificada e campeã mundial, mantinha boa parte do time: Illgner, Brehme, Buchwald, Hässler, Matthäus, Klinsmann, Völler, todos aliados a novos valores, como Matthias Sammer e Stefan Effenberg. Completando o grupo, uma Escócia que saiu tão incógnita como entrou na Euro.

O grupo A foi mais truncado, com muitos empates e vitórias magras. Após empatarem com franceses (1 a 1), os suecos aproveitaram o fator casa e o bom time que já tinham para vencer Dinamarca e Inglaterra, e chegarem às semifinais. Os dinamarqueses até perderam a chance de vencer o decadente English Team (0 a 0), mas trataram de obter a vitória necessária contra o time de Platini para acompanhar a Suécia nas semis. Ingleses e franceses caíam na crise que seria consumada com a ausência na Copa-94.

Já no grupo B, holandeses e alemães tiveram dificuldade contra a CEI, que arrancou dois honrosos empates (0 a 0 e 1 a 1, respectivamente). Mas a ex-URSS acabou fraquejando justamente contra os mais fáceis escoceses, que golearam-na por 3 a 0. E justamente os britânicos serviram de desafogo – difícil – para a Laranja (1 a 0) e os germânicos (2 a 0) conseguirem a vaga nas semis. Na decisão do primeiro lugar do grupo, o objetivo alemão de revanche da semifinal de 1988 terminou na partida exuberante de Bergkamp, comandante holandês no 3 a 1 que lembrou as grandes performances holandesas quatro anos antes.

A primeira semifinal, no Rasunda de Estocolmo, não foi lá muito difícil para os alemães. Hässler e Riedle fizeram 2 a 0. Brolin ainda diminui, de pênalti, mas, a dois minutos do fim, Riedle, novamente, sacramentou a volta alemã a uma final de Euro. No esforço final, Kennet Andersson ainda diminuiu no minuto seguinte, mas já era tarde.

No segundo jogo, em Gotemburgo, a Holanda acabou naufragando no excesso de confiança que se seguiu à vitória contra os rivais alemães. Nem mesmo o gol de Henrik Larsen, logo aos 5 minutos de jogo, diminuiu a calma holandesa. Bergkamp parecia comprovar a certeza do bi ao empatar, com 23 do 1º, mas o imparável Larsen, dez minutos depois, fez 2 a 1. Daí por diante, os daneses dominaram as ações, mas um único vacilo, a quatro minutos do fim do tempo normal, foi suficiente para Rijkaard empatar. Mesmo assim, o zagueiro nem comemorou muito, como se vencer a Dinamarca fosse apenas um passo em direção ao que seria o clímax: uma nova vitória contra os alemães.

Assim, nem se fez muita questão de definir o jogo na prorrogação. Após oito anos, a decisão por pênaltis voltava à Euro. Na segunda cobrança da série, Van Basten, logo ele, cobrou rasteira, telegrafando para Schmeichel defendê-la sem esforço. Ninguém erraria mais. Com o 5 a 4 final, a Dinamarca deixava de vez a condição de zebra, vencia o favorito ao título e ganhava uma injeção incalculável de moral para uma final que parecia inalcançável. Aos incrédulos holandeses, restava o 3º lugar e a despedida de uma geração brilhante.

Na final, também em Gotemburgo, a Alemanha começou arrasadora, mas parou na muralha Peter Schmeichel, que provou ali ser o melhor goleiro da Euro. Quieta, a Dinamarca, então, tratou de marcar, aos 18 minutos, com Jensen. O que se viu, então, foi uma pressão incansável dos alemães, que continuaram insistindo – e vendo Schmeichel como um barreira intransponível. Até que, aos 33 do 2º, Kim Vilfort tornou a penetra, definitivamente, dona da festa.

O antes utópico título europeu chegava, para espanto mundial. Foi até surpreendente, mas não deixa de ser justo, tendo em vista a importância dinamarquesa conquistada naqueles oito anos desde a aparição na Euro-84.

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